quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Senado aprova PEC do fim da escala 6x1 em vitória política de Lula, por Murillo Camarotto, Sofia Aguiar e Jéssica Sant'Ana

Valor Econômico

Flávio Bolsonaro dá voto favorável à proposta que reduz a jornada máxima de trabalho de 44 horas para 40 horas semanais

Por 75 votos a 1, o Senado aprovou na noite de quarta-feira (14) a proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala de trabalho 6x1. Apesar de se opor ao texto durante toda a tramitação, a oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva liberou a bancada para votar como quisesse. Assim que o resultado foi decretado, parlamentares governistas entoaram cantos em homenagem a Lula.

O avanço da matéria representa uma vitória política do presidente, que tem no projeto uma de suas principais apostas para reverter a desvantagem nas pesquisas para a disputa pela reeleição. Em agenda no Rio Grande do Sul, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) não compareceu à sessão. Na véspera, ele recuou e disse que votaria a favor do texto, mesmo defendendo outra proposta.

Após o resultado, Lula se manifestou nas redes sociais: "Hoje é dia de comemorar uma conquista histórica de milhões de trabalhadores e trabalhadoras. O fim da 6x1 é mais do que uma mudança na jornada. É mais tempo para viver, descansar, estar com a família, acompanhar os filhos crescerem, cuidar de si e aproveitar a vida. Quem trabalha tanto para construir o Brasil também merece ter tempo para viver", afirmou o presidente.

A PEC foi aprovada pela Câmara dos Deputados em maio e chegou a ter a votação pelo Senado ameaçada pelo calendário eleitoral. O projeto só voltou a ganhar força após uma trégua política entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que romperam relações após a rejeição do nome do ministro da AGU, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal.

Também pesou para o avanço da matéria a derrota da Alcolumbre nas eleições de 4 de outubro. Todos os seus aliados fracassaram no Amapá, e ele conta com uma vitória de Lula para ter alguma chance de se reeleger para a presidência do Senado em 2027.

A tramitação da PEC também foi marcada por uma mudança drástica do posicionamento da oposição. Flávio Bolsonaro, que sempre se manifestou contra o projeto, mudou de lado com receio de prejuízo na disputa presidencial. A maior parte dos senadores de oposição também votou a favor, mas sobraram críticas ao projeto durante a fase de discussão em plenário.

O único voto contrário foi do senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), que foi vice-presidente na gestão de Jair Bolsonaro. Governador eleito do Paraná, Sergio Moro (PL-PR) marcou presença, mas não votou. O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio, não registrou presença e, por isso, também não depositou voto.

Marinho é autor de uma proposta alternativa defendida por Flávio, pela qual o trabalhador poderia negociar diretamente com seu empregador a quantidade de horas que pretende trabalhar. O modelo difere da PEC, já que prevê redução de salário em caso de redução de jornada.

Questionado sobre a mudança de posição de Flávio, o líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), disse que, se chegar ao Palácio do Planalto, o senador poderá desfazer a PEC. “Na nossa mentalidade, nós nunca vamos mudar o conceito, a melhor relação é hora trabalhada, hora recebida”, afirmou ele.

Segundo o Valor apurou, o entorno de Flávio pretende agora encerrar o assunto 6x1, que colocou o candidato na defensiva, especialmente por conta da incoerência nos posicionamentos. Um dos caminhos pode ser pela PEC da Segurança Pública, que deve ser votada nesta quinta-feira (15). Uma emenda que propõe a redução da maioridade penal será usada pelos bolsonaristas na tentativa de "virar a pauta".

Nos últimos dias, diante da expectativa de votação, aliados aconselharam Lula a comparecer ao Congresso para celebrar a aprovação da PEC e capitalizar politicamente a vitória do governo. Ao longo da tarde, o presidente se reuniu com senadores e acompanhou o andamento da votação. A avaliação era de que, como Flávio não foi ao plenário, o presidente não seria alvo de críticas e constrangimentos no Parlamento, caso comparecesse ao Senado. Ao final, contudo, a decisão foi de não comparecer.

O que muda com a PEC

A PEC reduz a jornada máxima de trabalho de 44 horas para 40 horas semanais, sem diminuição de salário e com manutenção do teto de oito horas diárias. A regra valerá também para os contratos em vigor, com transição em duas etapas: 60 dias após a publicação da emenda constitucional, o limite semanal cai para 42 horas; depois de mais 12 meses, chegará a 40 horas semanais.

Com isso, os trabalhadores terão direito à escala “5x2”, que prevê dois dias de descanso remunerado durante a semana, sendo um preferencialmente aos domingos. Atualmente, parte dos trabalhadores têm direito a apenas um dia de descanso.

A compensação de horários e a redução da jornada por acordo ou convenção coletiva continuam permitidas. Uma lei complementar poderá estabelecer medidas transitórias para mitigação de impacto para microempreendedores individuais, as microempresas e as empresas de pequeno porte, todas cadastradas no Simples Nacional.

Contratos públicos em vigor que envolvam emprego direto de mão de obra poderão passar por um reequilíbrio econômico-financeiro para compensar a redução da jornada. A proposta prevê que essa revisão precisa ser formalizada em até um ano após a publicação da emenda constitucional do fim da escala 6x1.

Ao longo da tramitação, representantes de entidade e empresários se colocaram contra a proposta. A avaliação é que o fim da escala 6x1 vai aumentar os custos da mão de obra e pode ter impacto negativo sobre a atividade econômica. Especialistas também afirmam que o projeto ignora a baixa produtividade, levando ao fechamento de vagas.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) emitiu nota lamentando a decisão. "Na avaliação do setor industrial, a medida aprovada causará perdas econômicas, demissões, repasse de custos para a população e inflação em todo o país. Para a CNI, a mudança aprovada em pleno período eleitoral representa um retrocesso para o Brasil, que já sofre com baixa produtividade e falta de competitividade no mercado internacional", diz a nota.

Alcolumbre fala em compromisso

Na abertura da sessão, Alcolumbre defendeu que o debate considere as diferentes realidades da economia. “Precisamos ouvir quem trabalha e quem emprega, considerando os pequenos negócios e os diversos setores da nossa economia. É natural que existam posições diferentes. É legítimo que haja dúvidas e preocupações”, afirmou.

O presidente do Senado ressaltou ter cumprido o compromisso de levar a proposta à votação. “Cumpri o compromisso de colocar a matéria em votação e agora a decisão cabe ao plenário do Senado Federal”, declarou. “Cada um votará com a sua consciência, com o seu coração e com o seu livre arbítrio. Respeitar essa liberdade é respeitar a decisão soberana do plenário. E esta é, sim, a responsabilidade da presidência do Senado Federal”, acrescentou.

Alcolumbre também destacou a expectativa dos trabalhadores em relação à mudança. “Neste momento, milhões de brasileiros, milhões de trabalhadores e trabalhadoras estão acompanhando esta sessão com esperança. São pessoas que conhecem na própria rotina o valor de um dia a mais de descanso”, disse.

Nenhum comentário:

Postar um comentário