Correio Braziliense
A rejeição pode motivar o voto útil, mas isso
não assegura uma decisão ainda hoje, quando “memes” e “deepfakes” chegarão ao
auge na disputa pela Presidência
O primeiro turno das eleições chega ao momento decisivo, hoje, com campanhas de
“boca de urna” proibidas nas ruas, mas com disputas intensas pela Presidência,
pelos governos estaduais e pelo Senado por meio das redes sociais. Parte da
mobilização migrou das praças para os celulares, ou seja, para a palma das
mãos, uma tendência que já vinha se demonstrando desde as eleições de 2018. A
novidade é a intensa utilização da inteligência artificial, seja nas campanhas
oficiais, seja na produção de memes e fake news nas redes sociais.
Voto útil
Há francos favoritos. Em São Paulo, Tarcísio de Freitas alcançou 60% dos votos
válidos no Datafolha de 3 de outubro, contra 35% de Fernando Haddad; na Quaest
do mesmo dia, eram 60% e 36%. No Piauí, Rafael Fonteles tinha 55% das intenções
totais, ante 25% de Joel Rodrigues, no levantamento divulgado em 17 de
setembro. A vitória exige mais da metade dos válidos. Na Quaest no Rio de
Janeiro, considerando votos válidos, Eduardo Paes tem 49 %; e Douglas Ruas, 40
%. Pode dar primeiro turno.
A disputa do Senado, em razão da crise de confiança no Supremo Tribunal Federal
(STF), ganhou outra dimensão. Serão renovadas 54 das 81 cadeiras. O que está em
jogo não é apenas representar cada estado, em pé de igualdade com os demais,
está se decidindo também a futura composição do STF. O controle de duas vagas
envolve governabilidade, indicações ao Supremo e processos de impeachment de
seus ministros. As disputas estão acirradas. No Datafolha de 3 de outubro, por
exemplo, São Paulo tinha Guilherme Derrite e André do Prado com 22% cada,
Marina Silva com 21% e Simone Tebet com 20% dos votos válidos. No Rio, Benedita
da Silva registrava 26%, Carlos Portinho, 19%, e Carlos Jordy, 18% dos votos
válidos. Em Minas, Marília Campos tinha 21%, Carlos Viana, 19%, Domingos Sávio,
17%, e Aécio Neves, 13% dos votos válidos.
Nas redes, Banco Master, INSS, conflitos religiosos, acusações de interferência
estrangeira e a proibição das bets alimentam ataques sucessivos. Mas as
prioridades dos eleitores têm raízes concretas. Na Nexus, a economia motiva 40%
dos eleitores do Sul, 37% do Norte/Centro-Oeste e 36% do Sudeste. No Nordeste,
a saúde lidera com 35%, seguida da rejeição a um candidato, com 29%, da
economia, com 28%, e da educação, com 27%. Corrupção pesa para 39% no Sul e 32%
no Sudeste. As polêmicas ganham força quando encontram essas preocupações.
Na Presidência, a tendência é um segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro. A
Nexus de 28 de setembro mostrou Lula com 42% dos votos totais, Flávio com 37% e
os demais somando 16%; 87% dos que escolheram candidato disseram não pretender
mudar. A atenção capturada nas telas, porém, precisa se transformar em voto na
urna. Ou seja, o dedo “maior de todos” é que decide a eleição na urna
eletrônica. É verdade que o voto útil pode antecipar escolhas motivadas pela
rejeição, mas sua existência não assegura uma decisão ainda hoje, quando a
mobilização digital chegará ao auge. A não ser que o Sobrenatural de Almeida,
como diria Nelson Rodrigues, entre em campo. Assim é a nossa democracia.

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