domingo, 4 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Democracia brasileira demonstra vigor

Por O Globo

Brasileiros irão pacificamente às urnas votar para presidente pela décima vez consecutiva

Algo de revigorante acontecerá hoje para a democracia brasileira: enquanto os candidatos e coligações que disputam votos se dilaceram, muitas vezes com ataques de baixo nível, os eleitores demonstram maturidade. O que se verá hoje nas seções eleitorais não pode ser confundido com apatia. É um eleitorado pacífico, ordeiramente em fila para fazer sua escolha. O comportamento estridente da classe política contrasta com a maturidade dos brasileiros, demonstração inequívoca da força deste que é o período democrático mais longevo do país. São dez eleições presidenciais consecutivas — e a democracia resiste.

Os brasileiros seguem confiantes na solidez das instituições e na força do voto para promover as mudanças necessárias ao país. Ao escolher seus candidatos, todos sabem que definirão os rumos do Brasil pelos próximos quatro anos. Os eleitos segundo regras acatadas por todos serão os protagonistas nos Executivos estaduais e federal, nas Assembleias Legislativas e no Congresso. Como mostram os números mais recentes, o registro de candidaturas neste ano caiu em relação ao último pleito — 20.988, ante 29.262 há quatro anos. Em 2022, houve 20,7 candidatos por vaga de deputado federal e 16 por vaga de estadual. Neste ano, as proporções caíram para 15 e 11. A queda foi provocada por mudanças positivas na legislação, que proibiram coligações em eleições proporcionais, têm reduzido o número de partidos e incentivado a formação de federações.

É preciso que cada um saiba avaliar, de acordo com sua consciência, quem dentre os candidatos merece ser mantido nos cargos ou trocado, quem apresentou um histórico político bom ou quem entre os novatos parece promissor. O voto não pode ser transferido por procuração. É prerrogativa exclusiva e solitária de cada eleitor. Deve ser exercido com responsabilidade, seriedade, confiança e, acima de tudo, esperança.

Longe dos olhos de familiares, amigos, chefes ou líderes religiosos, cada um de nós poderá exercer a liberdade de escolher quem lhe parecer mais apto para os cargos de deputado estadual, governador, deputado federal, senador (duas vagas) e presidente da República. Se houver segundo turno para governador ou presidente, a votação será realizada no próximo dia 25. Ao fim, o Brasil terá completado 37 anos ininterruptos de eleições livres.

A quantidade de brasileiros aptos a votar nunca foi tão grande. Ao todo, são 158,7 milhões, 2,3 milhões a mais que em 2022. O enorme volume de eleitores faz do Brasil a quarta maior democracia do mundo e impõe desafios logísticos. Felizmente, nos quesitos organização, tecnologia e confiabilidade, o trabalho do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e dos diversos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) é uma referência no mundo todo. Nas semanas que antecederam o pleito, mais de 560 mil urnas eletrônicas foram distribuídas pelas 27 unidades da Federação. Os quatro modelos foram amplamente testados e lacrados.

Diferentemente do que aconteceu em 2022, ninguém duvida que os resultados das urnas serão respeitados — isso é de impressionar, num país que vive um escândalo financeiro que atinge políticos de todos os lados do espectro partidário, assim como ministros do Supremo. Naquele ano, acampamentos diante de quartéis militares foram mobilizados para uma tentativa de golpe de Estado que felizmente foi debelada. Os culpados foram julgados, hoje cumprem suas penas, e a democracia foi preservada.

Naquela ocasião, o Judiciário cumpriu o papel que lhe é reservado pela Constituição. Hoje, infelizmente, tem ultrapassado essa fronteira com diversas decisões questionáveis, como as que levaram a TV Globo a cancelar o último debate entre os candidatos previsto para a última quinta-feira. Espera-se que essas derrapagens sejam passageiras e que os magistrados saibam corrigir seus erros quando os recursos forem julgados. Será importante para as eleições futuras.

Embora seja uma lástima que a mais alta Corte do país tenha deixado chegar o dia da eleição sem promover o necessário exame dos atos de seus magistrados, tal fato não incendiou nem incendiará os eleitores. Porque eles sabem que esse exame foi apenas adiado e não tardará.

Como em muitas outras democracias, existe por aqui a percepção de que a classe política falha ao entregar as promessas de campanha e, uma vez no poder, envolve-se em mais escândalos do que seria aceitável. Pois hoje é o dia de lembrar que ninguém chega aos palácios e centros de poder apenas porque quer — está lá graças ao voto dos brasileiros.

Apesar de a campanha ter sido marcada por um debate de ideias muitas vezes indigente, o eleitor ainda tem a oportunidade de fazer um exercício de reflexão. Qual o histórico dos candidatos que se apresentam à reeleição e dos que buscam o cargo pela primeira vez? Qual a viabilidade de suas propostas? A imprensa tem cumprido seu papel. Não apenas de informar a sociedade, buscando revelar todo tipo de erro ou ilegalidade, mas também analisando decisões acertadas. Agora chegou a hora de cada um exercer seu direito de votar e cumprir o dever de participar da política. A voz das urnas deve ser ouvida.

Eleição presidencial acirrada tem a ganhar com 2º turno

Por Folha de S. Paulo

No Datafolha, Lula tem 45%, e Flávio, 42% dos votos válidos, em empate técnico

Confronto de ideias foi prejudicado pela ausência de debates, escândalo do Banco Master, crise no Supremo e medidas eleitoreiras

Na véspera da abertura das urnas, o Datafolha indica que a acirrada disputa presidencial, liderada por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), será provavelmente definida em segundo turno, dentro de quatro semanas.

Cabe a ressalva de que a confirmação de tal cenário está sujeita a migrações de voto de última hora e, não menos importante, à taxa de abstenção dos eleitores, crescente nos últimos anos. O que se pode afirmar com certeza é que a eleição terá a ganhar com mais uma rodada da corrida entre os principais candidatos.

Lula tem 42% das intenções totais de voto, ante 40% de Flávio. Excluídos sufrágios nulos e em branco, como na contagem oficial, o placar é de 45% a 42%, o que caracteriza empate, na margem de erro, sem que ninguém consiga a maioria das preferências.

Ambos desrespeitaram o eleitorado ao recusar a participação em debates até aqui, subordinando o confronto aberto de ideias, obrigatório na democracia, a suas estratégias e conveniências.

O episódio mais recente foi especialmente grave. A decisão do petista de faltar também ao derradeiro debate antes do primeiro turno, promovido pela TV Globo, ganhou o suporte de aliados de ocasião em cortes superiores.

A ministra Estela Aranha, por ele indicada ao TSE, proibiu a emissora de exibir a cadeira vazia reservada ao presidente; no Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, sob pretexto descabido, contrariou entendimentos do TSE e de sua colega Cármen Lúcia e forçou a participação de Renan Santos (Missão) no evento, cancelado após a desistência de Flávio com a mudança de última hora nas regras do jogo.

A discussão de programas de governo, ademais, foi ofuscada pelo escândalo do Banco Master e pela crise inaudita do STF, dois fenômenos associados que afetaram os postulantes ao Planalto.

Flávio, mais diretamente —o senador pelo Rio foi flagrado em mensagens amáveis ao corruptor e ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ao qual pediu cerca de R$ 130 milhões, em tese para o filme laudatório a seu pai. Tornou-se investigado no caso, o que foi omitido pelo ministro André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro ao STF e responsável pelo inquérito.

Um contrato de valor similar foi firmado pelo Master com o escritório da mulher de Alexandre de Moraes, que no Supremo liderou o processo para a correta condenação do ex-presidente por tentativa de golpe de Estado —e que em mais de uma ocasião esteve alinhado a Lula, assim como Dias Toffoli, outro parceiro em negócios de Vorcaro.

Também contribuiu para conturbar a campanha a enxurrada de medidas eleitoreiras tomadas pelo petista, que, a exemplo de seu antecessor, abusou da caneta presidencial e deixou os custos para a administração seguinte. Tudo isso —e mais as propostas dos candidatos, em particular para o urgente ajuste das contas públicas— poderá ser mais bem avaliado em um segundo turno.

Crise entre Rússia e Europa entra em nova e perigosa etapa

Por Folha de S. Paulo

Putin usa carta da ameaça nuclear após chanceler polonês sugerir pressão militar da Otan sobre Kaliningrado

Atos de guerra híbrida se multiplicam; tensão deve ser contida para minimizar risco de entrechoques que possam levar a cenários mais sombrios

Vladimir Putin é o vilão do establishment europeu pelo menos desde 2008, quando usou a força para conter as ambições da minúscula Geórgia, que buscava virar um Estado da aliança militar Otan.

De lá para cá, o autocrata russo só alimentou sua fama. Anexou a Crimeia quando um presidente pró-Kremlin foi derrubado em Kiev, em 2014, e completou o serviço com a desastrosa invasão total da Ucrânia oito anos depois.

A guerra disseminou a percepção, que antes era restrita ao Leste Europeu, de riscos provenientes de Moscou. Até as neutras Suécia e Finlândia aderiram à Otan.

Ao mesmo tempo, o retorno de Donald Trump à Casa Branca abriu uma era de desengajamento americano da defesa europeia e do apoio aos ucranianos, aumentando a preocupação nas capitais continentais.

Segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, de Londres, o gasto militar europeu cresceu mais de 90% em termos nominais entre 2021, ano anterior à invasão da Ucrânia, e 2026.

Num continente marcado por séculos de conflitos e duas guerras mundiais, desconfianças antigas já se apresentam, não menos porque quem puxa o dispêndio é a outrora ameaçadora Alemanha.

Nesse sentido, Putin vai colhendo parcialmente uma vitória estratégica: ele ampliou diferenças entre aliados ocidentais que vê como hostis, e o impacto econômico de sua guerra impulsiona partidos de ultradireita simpáticos à Rússia em toda a Europa.

A disputa se acirra com incidentes de guerra híbrida —quando o agressor camufla sua identidade em atos menores. Houve tentativa de explodir aviões na Alemanha, incêndio em fábrica militar na Estônia e disrupções de aeroportos com drones.

Em todos os casos, a Europa acusa a Rússia, que dá de ombros e denuncia suposta russofobia. Ao mesmo tempo, ambos os lados escalam sua presença bélica em áreas como o Báltico e o Ártico. Países da Otan falam em risco de ataque iminente, algo que até a aliança descarta.

Mas o alarmismo tem custo. Há duas semanas, o chanceler polonês sugeriu que a Otan deveria exercer pressão militar sobre o exclave russo de Kaliningrado, entre seu país e a Lituânia.

Além de inútil para tirar o foco russo da Ucrânia, a ideia serviu para Putin sacar sua carta nuclear, lembrando que qualquer ação contra o território será respondida até com armas atômicas.

É improvável que isso ocorra, mas a tensão precisa ser contida para minimizar o risco de entrechoques acidentais que possam levar a cenários mais sombrios.

A democracia está nas mãos do eleitor

Por O Estado de S. Paulo

Votar é condição necessária, mas insuficiente para fortalecer a democracia. O Brasil que emergirá das urnas não é um país pronto. Será o que seus cidadãos decidirem fazer dele após a eleição

Neste domingo, mais de 158 milhões de brasileiros estão aptos a escolher o presidente da República, 27 governadores, 54 senadores, 513 deputados federais e os integrantes das Assembleias Legislativas e da Câmara Legislativa do Distrito Federal. É o dia mais solene da democracia, quando o poder é exercido diretamente por quem de fato o detém. Mas é um erro assumir que esse nobre compromisso cívico se esgota na saída da cabine de votação. O voto é condição necessária para uma democracia saudável, mas está longe de ser suficiente.

Reconheçamos que o cardápio oferecido ao eleitor é uma ode ao desalento. Treze candidatos disputam a Presidência da República, mas a campanha foi capturada pela polarização estéril entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que aos 80 anos concorre ao cargo pela sétima vez e é o símbolo maior do atraso brasileiro, e Flávio Bolsonaro (PL), que pouco tem a oferecer ao País além do fato de ser o herdeiro de um pai inelegível e condenado por golpe de Estado. Quase nada se debateu sobre o que importa para o País: o descontrole das contas públicas, a escalada do crime organizado, a baixa produtividade da economia, a qualidade da educação pública e a posição do Brasil diante dos desafios globais, entre outras questões prementes. Prevaleceram a lógica tribal da ameaça existencial representada pelo lulismo e pelo bolsonarismo, a agressão e a desinformação. O eleitor foi estimulado a rejeitar Lula ou Flávio, não a votar com paixão e esperança em um projeto de país.

Para a Câmara dos Deputados, são mais de 7 mil candidatos. A profusão de nomes, no entanto, não se traduz em representação reconhecida como tal à luz de um sistema político que não favorece a aproximação entre eleitores e eleitos. Os 30 partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral receberam quase R$ 5 bilhões do Fundo Eleitoral – as dez legendas mais bem aquinhoadas concentraram 84% dessa dinheirama dos contribuintes, que se soma ao Fundo Partidário. Confortáveis com o derrame de dinheiro fácil, os caciques partidários se sentem desobrigados a se aproximar dos eleitores fora dos ciclos eleitorais. Consequência: as legendas se assumem cada vez mais como empresas a serviço de seus proprietários, não como organizadoras dos interesses sociais a serem mediados pela política na democracia representativa.

O resultado desse divórcio está à vista de todos. Políticas públicas não raro são capturadas por interesses partidários ou lobbies setoriais. O Orçamento da União é tratado como butim a ser repartido entre comparsas de um assalto aos interesses nacionais. O Congresso se move por emendas bilionárias sem transparência nem critérios republicanos de alocação, enquanto serviços essenciais para a população pagadora de impostos escorchantes seguem sofríveis em muitas áreas. Escândalos de corrupção e conflitos de interesses se sucedem sem causar muito mais do que um mal-estar difuso na sociedade, como se fossem paisagem, quase traços inerentes à identidade brasileira. A normalização de práticas e comportamentos inaceitáveis de certas autoridades talvez seja o pior sintoma da crise moral da Nação.

A boa notícia é que, por mais desalentador que seja, nada disso é destino escrito em pedra. O rumo da democracia brasileira está nas mãos de cada eleitor, pois não se trata de um regime que funciona por inércia. Depende fundamentalmente de cidadãos que acompanhem o mandato de quem elegeram, que cobrem coerência entre promessas e práticas, que se organizem em associações, entidades de classe e movimentos, que ocupem o debate público com argumentos e que não tenham medo de confrontar suas convicções pessoais com a verdade dos fatos. Por fim, o vigor da democracia depende de que os eleitores voltem a tratar a ética e a moralidade pública como valores inegociáveis na política.

É esse o apelo que O Estado de S. Paulo faz a seus distintos leitores. Hoje, rogamos que compareçam às suas seções eleitorais imbuídos desse espírito cívico, conscientes do poder que têm. E, conhecidos os resultados, que cada cidadão tome para si as rédeas da democracia. O Brasil que emergirá das urnas não é um país pronto. Será o que seus cidadãos decidirem fazer dele.

O Senado no tribunal da História

Por O Estado de S. Paulo

O Senado tem imensa parcela de responsabilidade pela perversão do STF que ameaça a República, e os senadores eleitos hoje serão julgados amanhã por suas ações – ou omissões – diante dela

Hoje a disputa presidencial domina a atenção, mas o eleitor também renovará dois terços de uma instituição decisiva da República. O Senado representa os Estados, atravessa governos e participa da escolha de altas autoridades. Sua importância nesta quadra histórica aparece com especial nitidez diante da crise do Supremo Tribunal Federal (STF).

O Senado não foi concebido para ecoar comoções e se dobrar a chantagens. O mandato longo, oito anos, dá aos senadores horizonte para examinar, denunciar e, se necessário, punir. Sem independência e brio perante o Planalto, o Supremo e suas próprias lideranças, suas prerrogativas constitucionais viram ornamentos.

Foi o que ocorreu por tempo demais nas indicações ao STF e outros órgãos, como a Procuradoria-Geral da República. A rejeição tornou-se tão improvável que as sabatinas se rebaixaram a um cerimonial protocolar. Um escrutínio cujo resultado é predeterminado muda o comportamento de quem escolhe, minimizando o custo de nomes cuja principal virtude é o alinhamento político-ideológico ao presidente. A rejeição de Jorge Messias, indicado por Lula, mostrou que o Senado ainda sabe dizer não. A rinha nos bastidores entre Lula e o presidente da Casa, Davi Alcolumbre, porém, impede confundir a recuperação de um poder com a recuperação de sua função.

Quanto mais o Supremo se pervertia numa arena política, mais essa negligência se subvertia em cumplicidade. Ao deixar o Senado para integrar o Supremo, Flávio Dino observou sem corar que partidos recorrem ao STF como “uma terceira Casa legislativa”. O próprio Dino turbinou as perversões do Supremo, contribuindo para fabricar leis no lugar do Legislativo e ditar políticas públicas no lugar do Executivo.

Jair Bolsonaro afirmou que seus dois indicados, Kassio Nunes Marques e André Mendonça, representavam “20%” do que ele gostaria de ver decidido. Lula indicou seu advogado, Cristiano Zanin, e justificou a indicação de Dino por sua “cabeça política”. O próximo presidente deve fazer quatro indicações.

O custo de filtros frouxos salta aos olhos. O escândalo do Banco Master condensa uma crise que vem de longe e se aprofunda a cada dia: poderes individuais exorbitantes, instrumentos de exceção convertidos em rotina, conflitos de interesse e divisões semelhantes a facções políticas. Sobre três ministros – Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Nunes Marques – pesam indícios graves de malfeitos. O plenário rachou e as investigações foram bloqueadas, deixando a Corte de costas para a população e à beira de uma guerra intestina.

O Senado tem grande parcela de culpa nesse “estado de coisas inconstitucional” e deve reparos à Nação. Ele também será julgado pelos eleitores. As próximas sabatinas terão de examinar conhecimento, independência e temperamento com rigor compatível com o poder entregue a cada senador. O Congresso também precisa ocupar o espaço que lhe cabe, em vez de terceirizar conflitos ao STF e depois reclamar de ativismo. E precisa deliberar sobre como preencher o vazio entre a autocontenção dos ministros e o impeachment com regras de integridade e responsabilização, sem transformar parlamentares em revisores de sentenças.

O impeachment de ministros do STF precisa continuar excepcional, mas não pode ser tabu. Divergência jurisprudencial jamais pode justificá-lo, mas condutas predatórias tampouco devem ser protegidas pelo temor de um conflito entre Poderes – muito menos por traficâncias travestidas de “pacificação”. A harmonia republicana não só admite, como pode exigir confronto. Às vezes, instituições se preservam porque uma delas impõe à outra os limites que esta rompeu. Isso pode ser traumático e doloroso, mas doenças letais frequentemente exigem terapias traumáticas e dolorosas.

O Senado de que o País precisa deve ser radicalmente comprometido com a independência e a autoridade do Supremo. Por isso, terá de ser severo com quem abusa de seus poderes – sem revanchismo, mas também sem hesitação. Os maiores inimigos do STF estão hoje dentro do próprio STF, e, por causa deles, a maior ameaça à República é a sua própria Suprema Corte. Os 54 senadores eleitos hoje receberão instrumentos para puni-los. Resta saber se terão critério, independência e coragem para usá-los.

Uma eleição civilizada

Por O Estado de S. Paulo

Num país refém da polarização, São Paulo mostra que a política ainda pode ser escolha, não trauma

Os paulistas vão às urnas com um luxo raro na política brasileira: podem ver seu candidato perder sem concluir que isso é o fim do mundo. Isso não torna a escolha indiferente. As divergências entre Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad são marcantes. São Paulo, porém, chega às urnas com instituições, infraestrutura e capacidade administrativa que reduzem o espaço para aventuras e permitem que a disputa seja sobre como governar melhor.

Esse patrimônio não caiu do céu, nem é exclusivo dos paulistas. Outros Estados também acumularam instituições capazes e administrações razoáveis. São Paulo, contudo, parte de uma posição especialmente confortável. A própria oferta eleitoral ajuda. Tarcísio e Haddad pertencem aos campos que hoje dividem o País, mas nenhum é improviso eleitoral. Ambos governaram, apresentam propostas substantivas e aceitam o confronto público. A disputa teve ataques e recorreu a Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro a todo momento. Mas, diferentemente da campanha nacional, houve debates, e eles se centraram em políticas públicas, serviços e resultados.

As diferenças são expressivas. Tarcísio chega ao fim do mandato com uma gestão marcada por estímulo à participação privada e investimentos em infraestrutura. A desestatização da Sabesp foi seguida por investimentos de R$ 15,2 bilhões em 2025, mais que o dobro do ano anterior. A Tabela SUS Paulista ampliou o volume de cirurgias eletivas. Há ressalvas do Tribunal de Contas e resultados mistos em segurança ou educação. Eles bastam para afastar triunfalismos, mas não para apagar um balanço positivo – o que se reflete nas pesquisas.

Haddad, por sua vez, foi prefeito, ministro da Educação e da Fazenda e tem experiência suficiente para ser levado a sério. Consoante a agenda petista, propõe maior atuação direta do Estado e demonstra disposição para rever os contratos firmados por Tarcísio e até sustar concessões ou reverter privatizações. Sua passagem pela Prefeitura da capital, encerrada sob forte reprovação, e sua ligação orgânica com o PT dão ao eleitor material para julgar o pacote que viria com sua chegada ao Palácio dos Bandeirantes. Seria um retrocesso, mas não uma aventura.

É aí que São Paulo ilumina, por contraste, a política nacional. Haddad continua petista, e Tarcísio segue ligado ao bolsonarismo. No Estado, porém, essas facções foram obrigadas a discutir escolas, hospitais, trens, polícia e saneamento. Na eleição presidencial, pela terceira vez, lulopetismo e bolsonarismo voltam a dominar a disputa, com Lula e Flávio Bolsonaro empatados mais uma vez no topo da rejeição. Os programas foram soterrados sob uma batalha campal travada por rancores recíprocos, temores existenciais e golpes abaixo da linha da cintura.

A democracia aceita combates duros e até se fortalece com eles, desde que sejam pautados por alternativas bem definidas, propostas consistentes e instituições capazes de suportar a alternância sem dramatização permanente. O pleito paulista mostra que posições podem ser defendidas com firmeza sem que as alternativas sejam tratadas como calamidade. É um conforto que não elimina os desafios e riscos da escolha, mas a torna mais civilizada. E é um sinal de que o Brasil não está condenado a repetir indefinidamente escolhas muito difíceis.

Para exercer e celebrar a democracia

Por O Povo (CE)

Este domingo, 4 de outubro, deve ser, acima de tudo, um dia de exercer a democracia. É uma data em que os brasileiros podem exercer livremente o direito de escolher seus representantes, acompanhar a votação, fiscalizar o processo eleitoral e, ao fim, respeitar a decisão soberana expressa nas urnas eletrônicas. Uma eleição é, mais do que uma disputa entre candidaturas, uma manifestação da vontade popular, sendo também um dos momentos mais importantes da vida republicana.

É certo que a democracia pressupõe participação, pluralidade, divergência e liberdade de expressão. Mas também é verdade que exige responsabilidade, equilíbrio e respeito às regras que sustentam a convivência em sociedade. Desse modo, é natural que uma eleição desperte paixões, mobilize grupos de diferentes matizes ideológicos e provoque debates intensos. O que não deve ocorrer é que as divergências se transformem em intolerância, intimidação, violência ou tentativas de desestabilizar o processo democrático.

O Grupo de Comunicação O POVO contribuiu para que o cidadão pudesse ter elementos a fim de construir sua avaliação quanto aos candidatos. Foi realizada, em agosto e em setembro, uma série de sabatinas e debates com os candidatos ao Senado pelo Ceará e ao Governo do Estado. O primeiro debate, a propósito, com os postulantes ao Governo, foi realizado em edição histórica na Região do Cariri. O segundo debate com os candidatos ao Governo ocorreu em Fortaleza, seguido por outro com aqueles que disputam as vagas ao Senado.

Entende-se que é essencial que eleitores, partidos, candidatos, autoridades e instituições compreendam a responsabilidade que têm neste momento. O ambiente das eleições, por vezes tenso, precisa ser de segurança e respeito. Seria ideal que as diferenças políticas não rompessem ou perturbassem os laços de convivência entre familiares, amigos, vizinhos e demais cidadãos que, apesar de pensarem de maneiras distintas, compartilham o mesmo espaço democrático.

Também é fundamental compreender que o resultado das urnas deve ser respeitado. A democracia não consiste apenas em participar quando as expectativas são confirmadas. Ela se manifesta, sobretudo, na capacidade coletiva de reconhecer as regras do jogo, aceitar os resultados legitimamente proclamados e preservar as instituições. A alternância de poder e a possibilidade de escolha são elementos fundamentais do sistema democrático.

Que, neste dia 4 de outubro, prevaleçam o bom senso, a responsabilidade e o espírito público. No fim das contas, o que deve prevalecer é a democracia. A eleição se encerra com a apuração, mas a responsabilidade de construir um país democrático é contínua. Defender a democracia é compreender que ela pertence a todos, não apenas aos vencedores de uma eleição. 

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