quarta-feira, 21 de outubro de 2026

"Trump, me mate!", por Rodrigo Craveiro

Correio Braziliense

Fico pensando que tipo de patriota pede ao líder da maior potência do planeta para que realize um ataque nuclear contra o país onde vive.

Não foi essa frase, mas o sentido era o mesmo. Durante ato em apoio ao candidato da extrema-direita no Brasil, um apoiador teve a "ideia" de levar até a Avenida Paulista um míssil inflável no qual podia se ler a frase "Trump nuke Brazil". Algo como "Trump, jogue uma bomba nuclear no Brasil". A imagem me embrulhou o estômago. Fico pensando que tipo de patriota pede ao líder da maior potência do planeta para que realize um ataque nuclear contra o país onde vive. Tudo para demonstrar aversão ao presidente brasileiro.

A oposição logo tratou de culpar um "infiltrado". Fato é que o tal "míssil" deveria ter sido impedido de entrar na Paulista, e seu dono, levado para prestar depoimento na delegacia. Sim, porque aqui existe algo que transgride, viola a fronteira da liberdade de expressão.

Ao longo de 21 anos de Correio, tive contato com os efeitos de um bombardeio atômico. Entrevistei sobreviventes do ataque a Hiroshima, além de um dos homens que lançaram a bomba sobre a cidade japonesa. Os depoimentos de quem escapou com vida naquela manhã de 6 de agosto de 1945, uma segunda-feira, descrevem cenas dantescas. Fui à casa de Toshie Shoji, aqui em Brasília. Falei com Takashi Morita, que vivia em São Paulo, onde faleceu aos 100 anos, em 2024. As entrevistas foram feitas em 2005, no 60º aniversário do ataque nuclear. Dez anos depois, escutei Kunihiko Bonkohara, então com 85 anos, e Junko Waranabe, 82.

Os hibakushas me contaram sobre feridos tentando matar a sede, causada pela radiação, em rios da cidade cobertos de corpos. Falaram da chuva preta tomada pela radiação, das pessoas pulverizadas pela explosão, da destruição, do horror. Também em 2005 entrevistei Theodore "Dutch" Van Kirk, um dos tripulantes do bombardeiro Enola Gay. Seis décadas depois, ele me garantiu que não sentia remorso nem arrependimento e que faria tudo de novo.

Talvez por desconhecimento histórico, aliado a uma dose de sandice e fanatismo, o manifestante do míssil inflável desejasse ver o próprio país queimando como Hiroshima. Algo como: "Trump, me mate!". Tentei encontrar sentido figurado naquela mensagem escrita no tal míssil. Não consegui. Parece um desejo genuíno de submissão — em sua versão extrema e extremista — aos EUA. A aversão a um político não deveria ser licença para a ignorância. Também me parece contraditório que bandeiras de Israel e dos EUA desfilem em meio a protestos de "patriotas". Parece contrassenso. Tenho procurado lógica nisso. Sinceramente, em vão.

Soberania é inegociável. Assim como a proteção de um país contra a ameaça de agressões externas. Espero que, qualquer que seja a voz proclamada pelas urnas, no próximo domingo, o futuro do Brasil continue a ser ditado pelos brasileiros. Que nenhuma liderança política apoie qualquer tipo de intervenção dos EUA em nossa nação.

 

2 comentários:

  1. Um patriota especial, certamente bolsonarista, o PATRIOTÁRIO...

    ResponderExcluir
  2. Se Flávio infelizmente vencer, quem vai mandar no Brasil?
    -O povo brasileiro, que o elegeu?
    -Jair Bolsonaro, que indicou o primogênito pra substituí-lo?
    -Donald Trump, a quem Flávio é tão submisso?

    ResponderExcluir