Correio Braziliense
Fico pensando que tipo de patriota pede ao
líder da maior potência do planeta para que realize um ataque nuclear contra o
país onde vive.
Não foi essa frase, mas o sentido era o
mesmo. Durante ato em apoio ao candidato da extrema-direita no Brasil, um
apoiador teve a "ideia" de levar até a Avenida Paulista um míssil
inflável no qual podia se ler a frase "Trump
nuke Brazil". Algo como "Trump, jogue uma bomba nuclear
no Brasil". A imagem me embrulhou o estômago. Fico pensando que tipo de
patriota pede ao líder da maior potência do planeta para que realize um ataque
nuclear contra o país onde vive. Tudo para demonstrar aversão ao presidente
brasileiro.
A oposição logo tratou de culpar um "infiltrado". Fato é que o tal "míssil" deveria ter sido impedido de entrar na Paulista, e seu dono, levado para prestar depoimento na delegacia. Sim, porque aqui existe algo que transgride, viola a fronteira da liberdade de expressão.
Ao longo de 21 anos de Correio, tive contato com os
efeitos de um bombardeio atômico. Entrevistei sobreviventes do ataque a
Hiroshima, além de um dos homens que lançaram a bomba sobre a cidade japonesa.
Os depoimentos de quem escapou com vida naquela manhã de 6 de agosto de 1945,
uma segunda-feira, descrevem cenas dantescas. Fui à casa de Toshie Shoji, aqui
em Brasília. Falei com Takashi Morita, que vivia em São Paulo, onde faleceu aos
100 anos, em 2024. As entrevistas foram feitas em 2005, no 60º aniversário do
ataque nuclear. Dez anos depois, escutei Kunihiko Bonkohara, então com 85 anos,
e Junko Waranabe, 82.
Os hibakushas
me contaram sobre feridos tentando matar a sede, causada pela radiação, em rios
da cidade cobertos de corpos. Falaram da chuva preta tomada pela radiação, das
pessoas pulverizadas pela explosão, da destruição, do horror. Também em 2005
entrevistei Theodore "Dutch" Van Kirk, um dos tripulantes do
bombardeiro Enola Gay. Seis décadas depois, ele me garantiu que não sentia
remorso nem arrependimento e que faria tudo de novo.
Talvez por desconhecimento histórico, aliado
a uma dose de sandice e fanatismo, o manifestante do míssil inflável desejasse
ver o próprio país queimando como Hiroshima. Algo como: "Trump, me
mate!". Tentei encontrar sentido figurado naquela mensagem escrita no tal
míssil. Não consegui. Parece um desejo genuíno de submissão — em sua versão
extrema e extremista — aos EUA. A aversão a um político não deveria ser licença
para a ignorância. Também me parece contraditório que bandeiras de Israel e dos
EUA desfilem em meio a protestos de "patriotas". Parece contrassenso.
Tenho procurado lógica nisso. Sinceramente, em vão.
Soberania é inegociável. Assim como a
proteção de um país contra a ameaça de agressões externas. Espero que, qualquer
que seja a voz proclamada pelas urnas, no próximo domingo, o futuro do Brasil
continue a ser ditado pelos brasileiros. Que nenhuma liderança política apoie
qualquer tipo de intervenção dos EUA em nossa nação.

Um comentário:
Um patriota especial, certamente bolsonarista, o PATRIOTÁRIO...
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