Correio Braziliense
Um dia de queda de 13,88% não diz que a
economia brasileira piorou na madrugada de domingo para segunda. Diz que muita
gente estava do mesmo lado e que o lado perdeu
Toda segunda-feira depois de eleição produz o
mesmo espetáculo retórico. De um lado, manchetes que tratam uma queda de bolsa
como sentença sobre o futuro do país. De outro, uma tentativa igualmente
apressada de negar que algo relevante tenha acontecido. Os dois erros têm a
mesma raiz: confundir o preço de um dia com uma tese sobre a economia.
Vale começar pelo que efetivamente ocorreu.
Na segunda-feira, o Ibovespa caiu 13,88%, e o dólar subiu 8,21%. São números
enormes, os maiores em décadas, e não há nenhum interesse em minimizá-los. Mas
número grande não é sinônimo de diagnóstico grave. É preciso perguntar o que
aquele preço estava medindo.
A resposta é direta para quem conhece a mecânica: media a posição dos investidores, não a saúde da economia. O primeiro turno havia produzido um rali ancorado na expectativa de vitória da oposição e de ajuste fiscal mais duro. O capital estrangeiro entrou pesado nessa tese, com R$ 19,13 bilhões líquidos em outubro até o dia 22. Quando o resultado contrariou a aposta, todo mundo precisou sair pela mesma porta ao mesmo tempo. E quando todo mundo vende junto, o preço que se forma na abertura não é a média das avaliações sobre o Brasil, é o preço de uma fila.
Há uma prova simples de que a segunda-feira
não foi um julgamento sobre os fundamentos, e ela está no mesmo dia. O Boletim
Focus, divulgado naquela própria segunda, cortou a projeção de inflação de
2026, reduziu a de crescimento e baixou a do dólar de fim de ano. A mesma
comunidade de analistas que vendeu ação afirmou, por escrito e na mesma data,
que a inflação será menor do que se projetava na sexta-feira. Um mercado que
estivesse diagnosticando deterioração econômica não faria isso. Um mercado que
está ajustando posição faz exatamente isso.
Também é preciso dizer o que o marketês não
costuma dizer: volatilidade eleitoral é rotina, não exceção. O país passou por
isso em 2002, em 2018 e em 2022, com o mesmo roteiro de ajuste brusco, digestão
e retorno gradual aos fundamentos. O circuit breaker acionado na abertura é um
procedimento operacional previsto, desenhado justamente para interromper movimentos
desordenados. Sua ativação indica atipicidade de volatilidade, não
inviabilidade do mercado.
Dito isso, o rigor obriga a apontar o que de
fato merece atenção, e não é o Ibovespa. É a curva longa de juros. O DI para
janeiro de 2031 saiu de 12,64% para 15,48% em uma sessão, alta de 289
pontos-base, e o Tesouro cancelou leilões para não vender títulos a preço de
estresse. Aí está o sinal relevante: o mercado disse, com dinheiro e com prazo,
que considera o ajuste fiscal uma questão em aberto. Prêmio de risco não é
pânico, é preço. E preço de risco fiscal, ao contrário do preço de uma ação em
dia de eleição, tem consequência real sobre o custo da dívida pública e, por
consequência, sobre o crédito de todos.
Para o pequeno negócio, a hierarquia de
preocupações é ainda mais concreta e mais modesta. O empresário não precisa
formar opinião sobre a bolsa. Precisa saber três coisas: quanto custa o
dinheiro que ele toma, quanto custa o insumo que ele importa e quanto o cliente
dele consegue comprar. Na segunda-feira, o insumo ficou mais caro por algumas
horas e o dinheiro pode ficar mais caro por alguns meses, se o Copom
interromper os cortes em 4 de novembro. Isso é o que importa, e isso se
administra com renegociação, com linha garantida e com disciplina de caixa.
O que não se administra é a tentação de ler o
noticiário como se ele fosse um indicador. Um dia de queda de 13,88% não diz
que a economia brasileira piorou na madrugada de domingo para segunda. Diz que
muita gente estava do mesmo lado e que o lado perdeu. A economia real, aquela
que gera emprego e fatura no balcão, não muda de posição em uma sessão. Ela
muda quando o crédito muda, e o crédito muda quando o risco fiscal muda. É por
isso que o termômetro certo nunca foi o índice da bolsa. É a curva de juros, e
é com ela que se deve discutir política econômica, sem histeria e sem
autoengano.
Recusar o alarmismo não é fingir que nada
aconteceu. É dizer com precisão o que aconteceu, e essa é uma disciplina mais
difícil do que qualquer um dos dois extremos.
*Giovanni Beviláqua — doutor em economia pela Universidade de
Brasília (UnB) e professor do IDP

Muito bom! Os apostadores se deram mal...
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