Correio Braziliense
No Brasil, direitos sociais avançaram antes
da consolidação dos direitos civis e políticos, fortalecendo a expectativa de
proteção pelo Estado e pelo governante
A campanha presidencial mudou de terreno. A
controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida e os embates em torno do caso Master e do Judiciário, que dominaram a reta de
chegada do segundo turno, cederam espaço ao preço da comida, à renda, à
criminalidade e às condições da educação e da saúde. A disputa sobre a ordem
institucional continua, mas precisa responder à pergunta sobre o cotidiano dos
eleitores: quem pode melhorar suas vidas?
Depois de perder o primeiro turno, Lula recuperou a iniciativa ao combinar mobilização nas ruas, medidas administrativas e articulação legislativa. Desonerações de combustíveis, renegociação de dívidas, apoio aos pequenos empreendedores e anúncio de auxílio a universitários aproximam sua campanha das necessidades imediatas. Parte dessas iniciativas está em execução; outra depende do Congresso, do Orçamento ou de um novo mandato. Seus críticos enxergam mais deficit fiscal e oportunismo eleitoral nesses benefícios.
Na defensiva, apesar do favoritismo, Flávio Bolsonaro procura neutralizar a narrativa petista
de que promoverá um "tesouraço" nos direitos sociais. Promete
preservar benefícios e melhorar programas, com incentivos à qualificação dos
beneficiários. Ao mesmo tempo, anuncia um ajuste fiscal expressivo. A conta não
fecha. Como compatibilizar redução de despesas, diminuição de impostos e
ampliação da proteção social? Negar cortes não substitui contas exequíveis.
É nesse terreno que ressurge a palavra
populismo, empregada como pejorativo. Seu uso indiscriminado confunde proteção
social, irresponsabilidade fiscal e autoritarismo. São questões diferentes. Uma
política popular pode ser necessária, financiável e democrática, ao passo que
uma promessa apresentada como técnica pode esconder escolhas autoritárias e
regressivas, marca registrada no novo "iliberalismo".
É preciso considerar o populismo como parte
de um processo histórico. O populismo russo ("narodniks") surgiu no
final do século XIX, entre intelectuais que buscavam no campesinato e nas
comunidades agrárias um caminho alternativo de transformação social. Não
constitui um molde diretamente transportável para Vargas, Perón ou os
candidatos brasileiros de hoje. Ao atravessar continentes, o populismo mudou de
significado.
Na América Latina, o populismo foi uma via de
modernização pelo alto, deu início a uma revolução passiva: promoveu a
urbanização, a industrialização e a entrada dos trabalhadores na política. Lideranças
personalistas, Estados fortes e coalizões entre classes combinaram incorporação
social com controle da participação. Houve conquistas materiais efetivas, mas
também tutela sindical, repressão e limites ao pluralismo. No Estado Novo de
Getúlio Vargas, inclusão e autoritarismo coexistiram. Em 1964, porém, havia
populismo na democracia. Seu colapso nos levou à ditadura militar.
Conflito distributivo
O argentino José María Aricó, intérprete do
populismo, partiu da ideia de que a política latino-americana não comporta
esquemas importados que tratam suas experiências como desvios de uma trajetória
europeia. Reconhecer a força histórica do populismo e suas contradições não
significa reduzir à simples manipulação o apoio dos trabalhadores aos
governantes.
No Brasil, com a Revolução de 1930, direitos
sociais avançaram antes da consolidação dos direitos civis e políticos,
fortalecendo a expectativa de proteção pelo Estado e pelo governante. Aquilo
que deveria ser direito impessoal se apresentava, porém, como favor
presidencial, marca registrada do carisma de Vargas. Assim, o exercício da
cidadania foi subordinado à gratidão.
A crítica acadêmica ao populismo, que está na
gênese do PT e sua "cultura do rechaço", na definição do historiador
Alberto Aggio, promoveu um apagamento do papel dos trabalhadores pré-1964,
embora o trabalhismo traduzisse interesses, escolhas e negociação na relação
com Vargas. O falecido sociólogo Luiz Werneck Vianna, estudioso do assunto,
destacou que a modernização no Brasil incorporou o trabalho à ordem jurídica
enquanto restringia sua autonomia por mecanismos corporativos.
Lula encarna uma tradição de inclusão pelo
consumo, pelo emprego e pela transferência de renda. Sua trajetória sindical e
partidária, porém, o separa do velho paternalismo varguista. O componente
populista aparece quando sucumbe ao transformismo e/ou personaliza conquistas
coletivas, simplifica restrições econômicas ou apresenta sua permanência como
garantia exclusiva dos direitos. A crítica a Lula deve cobrar resultados,
financiamento e continuidade institucional.
Flávio tenta incorporar a promessa
distributiva à identidade bolsonarista, que é essencialmente
"iliberal", ou seja, propõe uma "ditadura da maioria"
sustentada pelo voto. Por outro lado, percebe que o antipetismo pode mobilizar
a direita, mas não dispensa segurança material. Seu "neopopulismo"
oferece benefícios enquanto mantém uma narrativa de combate às instituições que
limitaria a vontade popular. Seu iliberalismo se torna mais visível quando suas
críticas têm objetivo de deslegitimar a Constituição de 1988.
Entretanto, os principais problemas do país são objetivos para Lula e Flávio. Na inflação, preservar renda sem alimentar desequilíbrios; na segurança, enfrentar facções com inteligência e coordenação; na educação e na saúde, assegurar aprendizagem, atendimento e recursos. Como há um grave conflito distributivo, que concentra renda e reproduz as desigualdades, o eleitor precisa saber quem pagará essa conta. E como transformar necessidades em direitos duradouros, sem exigir submissão a quem governa. É aí que o viés autoritário também surge pela via do populismo.

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