segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Vorcaro é o intérprete da elite do Brasil que votou ontem, por Miguel de Almeida

O Globo

Nas oferendas do ex-banqueiro, não há cor ideológica. Ele fareja quem pode fraquejar

‘Numa terra radiosa vive um povo triste’, escreveu meu herói Paulo Prado na página inicial de “Retrato do Brasil — ensaio sobre a tristeza brasileira”, em 1928. Fazendeiro de café, rico e sofisticado, ele foi um dos patrocinadores da Semana de Arte de 1922. Sua tese: a luxúria e a cobiça dos colonizadores haviam produzido nossa tristeza. Quase um século depois, numa festa em Trancoso, litoral sul baiano, Daniel Vorcaro trouxe as provas. O tema era a Amazônia, os convidados usavam adereços indígenas e, segundo a Polícia Federal (PF), a bagunça vinha com garotas de programa. O regabofe destinava-se a amolecer autoridades federais.

Preso na Papudinha, Vorcaro desfruta tempo livre para ler Paulo Prado ou outros intérpretes do Brasil, como Sílvio Romero, Antônio Cândido e Sérgio Buarque de Holanda. No mesmo ano de “Retrato do Brasil”, Mário de Andrade apresentou “Macunaíma” como “o herói sem nenhum caráter”, e Vorcaro tratou de encarnar o subtítulo. Fez a expedição antropológica imaginada pelos autores, com um método próprio resumido por ele à PF numa única palavra: business.

A lista de autoridades enredadas no escândalo do Master colabora com a investigação intelectual de quem procurou traduzir o país. “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, esquadrinha o brasileiro como “homem cordial”, quase sempre mal lido. Designa quem não suporta a impessoalidade dos códigos e transforma o público em coisa de família. O contrato com o escritório da mulher de Alexandre de Moraes é uma espécie de “cordialidade com CNPJ”. Em lugar de querer participar do clube, tão ao gosto dos arrivistas, Vorcaro mostrou desprezo por quem corrompia; escolheu alugar o poder e não comprá-lo. Preferiu o leasing.

Ao contrário do que defendeu Sílvio Romero, não é possível creditar à nossa mestiçagem as causas do despautério. A profusão de escândalos, de golpes e o descaramento dos gatunos não passa pela mistura de raças. Também não dá para atribuir ao Jeca inicialmente imaginado por Monteiro Lobato em 1914, visto como preguiçoso, incapaz de plantar mais de uma mandioca por dia. Alertado pela campanha sanitarista, Lobato foi grande ao admitir que o Jeca não era indolente, mas estava doente, sofria com vermes. O “amarelão” subiu para Brasília. O urupê, o fungo usado pelo escritor como metáfora, apodrece por dentro a madeira e agora viceja no Planalto Central.

A quantidade de mensagens e assuntos tratados por Vorcaro, aí incluídos os áudios de seus interlocutores pedindo dinheiro, corrobora a tese de Roberto DaMatta. O antropólogo consagrou a pergunta “Você sabe com quem está falando?”. O banqueiro sabia sempre, por isso colocou o preço na mesa: contratos milionários e mimos diversificados, de mulheres estrangeiras a uísque e aeronaves.

Os valores destinados a seus “irmãos”, postos numa planilha, conferem hierarquia aos alvos, e todos viram serviçais de gorjeta: o flanelinha, o ascensorista e o carregador de malas. Alguns se contentam com uma viagem à Disney junto da mulher e dos filhos — caso daquele funcionário do Banco Central. Vorcaro alegou ser um “agrado”. Perto do Ciro Nogueira — esqui em Courchevel e mesadas —, o servidor é um pé-rapado. Na ordem levantada pela PF, dou desconto ao olhar casmurro de Toffoli: o escritório da mulher de Moraes saiu-se melhor. Mas o ministro pode se animar: a família e os amigos de “KN” —quem seria? — ficaram com menos porque trabalhavam com remuneração baseada em performance.

Nas oferendas de Vorcaro, não há cor ideológica. Ele fareja quem pode fraquejar. Flávio tomou dele milhões para o filme “Dark Horse”, sobre seu pai; o candidato é investigado pela PF no caso. Lula recebeu o banqueiro no Planalto, levado pelas mãos de Guido Mantega, consultor do Master a R$ 1 milhão por mês. Paulo Prado patrocinou a Semana de 22; Vorcaro, a inédita hagiografia do capitão. Como mandam os advogados, todos seguem a praxe e negam irregularidades.

Muitas vezes me pergunto se Vorcaro foi um inovador ou um imitador. Em 1925, o vigarista Victor Lustig, fingindo ser funcionário de um ministério francês, reuniu em segredo um grupo de comerciantes de ferro-velho. Comunicou que a Torre Eiffel seria vendida pela prefeitura como sucata. Um deles, para garantir o negócio, subornou o pretenso funcionário público. Ao descobrir se tratar de um golpe, o corruptor não pôde denunciar a propina à polícia. Lustig vendeu a Torre Eiffel a um esperto; o banqueiro alugou a República.

Vorcaro não interpretou o país, mas a elite que fala em nome dele. Ontem o Brasil escolheu os dois finalistas. Ambos conhecem o método.

 

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