O Globo
Há um potencial de confusão que virá do
Congresso. Com a nova composição do Senado, a crise com o STF está contratada
Cada eleição conta uma história. A de 2026
contará a história de um desastre político-institucional. Seu legado pesará
sobre a vida nacional. A esperança não compareceu ao debate, e o desejo de
mudança se escorou na antipolítica. Atarantada, a opinião pública fracassou em
influenciar políticos a olhar o horizonte e indicar as saídas do labirinto. Com
a crise, os três Poderes estão prostrados. Não bastasse isso, o sagrado e as
paixões religiosas foram arrastados para o conflito.
Estratégia de comunicação dos partidos, uma vitória no primeiro turno era improvável. A disputa ficará mais tensa e agressiva: o segundo turno não se presta à construção de unidade, mas à guerra de rejeições. Vota-se contra. Mais que fazer crer em Deus, o objetivo é aguçar o medo do diabo. Independentemente de quem será eleito, dividido o país entrou na eleição e dividido permanecerá.
As relações de Daniel Vorcaro e o escândalo
do Banco Master falam por si. Seu efeito mais nocivo foi o abraço de afogado do
banqueiro nas instituições do país.
Pior que esperar pouco do Congresso é
constatar o potencial da confusão que virá dali. Com a nova composição do
Senado, a crise com o STF está contratada. O fisiologismo apequenou o
Legislativo, a imoderação e a imaturidade continuarão a caracterizar sua
cenografia, tornando-o incapaz de mediar a crise, pois é parte dela. Do
Centrão, não virão senão mais exigências de espaços de poder e recursos. Em aliança
com a oposição — qualquer que seja —, suas lideranças seguirão a buscar os
próprios interesses.
Seja quem for o presidente, ele terá
dificuldades para chegar ao equilíbrio fiscal — pelo menos, em termos
ortodoxos. Cortar dos pobres traz custos políticos junto a quem decide
eleições. E o corporativismo (público e privado) atuará contra quem afete seus
privilégios. De impasses e sobressaltos viverá o governo, a não ser que
entregue, contrariado ou não, seu controle aos magnatas do Parlamento — o que tampouco
garante o ajuste.
Na Suprema Corte, a disputa eleitoral invadiu
gabinetes, turmas e plenário. Conexões entre ministros, candidatos e
empresários fragilizam o tribunal como freio e contrapeso do sistema. Sem
liderança, não haverá acordo entre ministros. A anistia a condenados pelo 8 de
Janeiro será o aditivo explosivo do conflito. Depois, CPIs e processos de
impeachment à mancheia. Reformar o STF é fundamental, mas o ruim pode piorar.
Um princípio de conflito religioso se
espalhou pela atmosfera. Pequena, mas atuante, parcela do neopentecostalismo
rejeita a laicidade estatal e revela pretensão hegemônica sobre outras
denominações. A desconfiança inter-religiosa está no ar. A liberdade de culto é
inegociável, mas a instrumentalização da fé e o oportunismo eleitoral já são
fatos consumados.
No front internacional, com ajuda interna,
interesses externos ficaram explícitos. Diante da complexidade geopolítica, o
simplismo faz o país e o mundo retroagirem aos anos 1950. Em um clima de Guerra
Fria ressuscitada, um novo tipo de imperialismo se expande. Navegar nesse mar é
preciso. Mas não será renunciando à soberania que se atravessará a tempestade.
A distensão (ou não) parece, porém, depender mais da eleição de meio de
mandato, nos Estados Unidos, que da disputa no Brasil.
Na essência, as propostas agora colocadas se
opõem radicalmente. Mas se equivalem na dificuldade de diálogo para além de
suas bolhas e na incapacidade de elaborar projetos que incidam sobre a
realidade nacional, no contexto mundial. Construir muros e derrubar pontes é
buscar a vertigem e alimentar os minotauros do labirinto. Ao final, seja quem
for o vencedor no segundo turno, o desastre de 2026 requer esforço de
concertação. Isso só será possível com democracia.
*Carlos Melo, cientista político, é professor e
coordenador do Observatório da Política do Insper

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