Donald Trump pediu aos americanos que votassem nas eleições de meio de mandato como se seu nome estivesse nas urnas. Foi atendido. A derrota republicana de 3 de novembro devolveu aos democratas o controle das duas Casas do Congresso e atingiu estados que pareciam protegidos pela fidelidade ao presidente. As urnas impuseram um limite ao seu poder. Mas seria precipitado confundir esse resultado com o encerramento dos riscos de seu governo.
Os números dão a dimensão da mudança. Até o fechamento das edições de quinta-feira, o bloco democrata tinha 54 cadeiras asseguradas no Senado, contra 44 republicanas, com duas disputas pendentes. Conquistou sete cadeiras antes ocupadas pelos republicanos, incluindo as do Texas, Kansas, Ohio e das duas Carolinas. Na Câmara dos Representantes, já havia conquistado 237 das 435 cadeiras, com a apuração ainda em andamento.
O partido do presidente costuma perder espaço
nas eleições realizadas na metade do mandato. Essa regularidade, porém, é
insuficiente para explicar o alcance do resultado. Trump voltou à Casa Branca
prometendo prosperidade, segurança e o resgate dos americanos esquecidos pelas
elites. Dois anos depois, recebeu a cobrança daqueles que esperavam uma melhora
concreta em suas condições de vida.
Uma pesquisa da agência de notícias
Associated Press ajuda a compreender esse julgamento. Cerca de quatro em cada
dez eleitores apontaram a economia como principal problema do país; três em
cada dez mencionaram a situação da democracia. O custo de vida e as suspeitas
de corrupção envolvendo o governo também tiveram peso expressivo na decisão do
voto. A eleição reuniu insatisfação material e preocupação com o exercício do
poder.
As tarifas sobre produtos importados e os
efeitos da guerra no Irã sobre o custo de vida contribuíram para desgastar a
credibilidade econômica do presidente e contrariaram sua promessa de colocar os
interesses dos americanos em primeiro lugar. O próprio vice-presidente, JD
Vance, atribuiu a derrota ao conflito, expondo divergências dentro do governo.
Essa cobrança alcançou também a política
migratória, um dos pilares da vitória de Trump há dois anos. As operações
federais provocaram reações, especialmente depois da morte de dois cidadãos
americanos em confrontos com agentes em Minneapolis. As ações do ICE, órgão
federal de fiscalização migratória, expuseram a violência dos métodos
empregados para cumprir a promessa de deportações em massa.
Ainda não é possível determinar quanto as
operações de deportação influenciaram o voto hispânico. A insatisfação com a inflação
também pesou nessa escolha. Candidatos democratas defenderam o controle das
fronteiras e condenaram os abusos cometidos pelo governo, mostrando que
segurança e respeito aos direitos podem fazer parte de uma mesma política
migratória.
A vitória reúne sob a mesma maioria correntes
que divergem sobre impostos, imigração, política externa e estratégia de
oposição. Essa diversidade também contribuiu para ampliar o alcance eleitoral
do partido. Progressistas e centristas conseguiram vencer em realidades distintas,
convergindo na crítica a Trump e na prioridade ao poder de compra. Sustentar
essa convergência no Congresso será mais difícil do que a construir na
campanha.
Por isso, nenhuma das alas deveria
interpretar a vitória como autorização para impor sua agenda às demais. O
desafio será transformar a amplitude da coalizão eleitoral em capacidade de
atuação parlamentar.
A campanha apresentou sinais de revisão, com
maior prioridade ao custo de vida e menor ênfase nas controvérsias culturais. A
defesa da igualdade de direitos é indispensável, mas sua força política se
enfraquece quando vem acompanhada de patrulhamento e condenação moral de quem
diverge. O desafio dos democratas é conciliar esse compromisso com propostas
capazes de reunir eleitores com preocupações e valores diferentes.
Também é preciso dimensionar corretamente o
poder conquistado. Os democratas terão a maioria parlamentar a partir de
janeiro. A responsabilidade pela condução do Executivo continuará com Trump,
que conserva instrumentos poderosos para bloquear seus adversários.
O presidente fez questão de lembrar isso ao
publicar a imagem de um boné vermelho com a palavra “Veto”. O gesto traduz uma
realidade institucional: para derrubar um veto presidencial, são necessários
dois terços dos votos em cada Casa do Congresso, separadamente. Com todos os
parlamentares votando, seriam 290 deputados e 67 senadores. A maioria democrata
está longe de assegurar, sozinha, esses números.
A história mostra a força desse instrumento.
Segundo os registros do Senado, desde 1789 o Congresso derrubou apenas 112 dos
1.533 vetos presidenciais regulares. No primeiro mandato de Trump, somente um
de seus dez vetos foi superado, sobre a legislação de defesa. Mesmo antes de
enfrentar o veto, os democratas precisarão negociar: pelas regras atuais do
Senado, superar a obstrução à tramitação de boa parte dos projetos exige 60
votos.
Os democratas poderão investigar abusos,
fiscalizar gastos, bloquear nomeações e negociar prioridades orçamentárias.
Terão também de apresentar alternativas para os problemas que mobilizaram os
eleitores. A anunciada agenda de cem dias voltada ao custo dos alimentos, dos
combustíveis e da saúde será testada pela consistência das propostas e pela
capacidade de construir apoio para aprová-las.
Isso exigirá negociar com republicanos e
enfrentar o dilema de um governo dividido. O orçamento e as decisões sobre
endividamento podem abrir espaço para acordos, mas também produzir impasses que
comprometam o funcionamento da administração. O primeiro semestre de 2027
deverá testar esse equilíbrio. Os enfrentamentos poderão gerar novas tensões,
inclusive na economia, enquanto governo e oposição buscam formas de convívio
institucional.
A dimensão internacional exige cautela ainda
maior. Um presidente enfraquecido no Congresso continua dispondo de ampla
capacidade de ação sobre diplomacia, comércio e emprego das forças militares.
Existem limites legais e poderes legislativos de controle. Sua existência,
porém, não impede decisões presidenciais com consequências imediatas para
aliados, adversários e para a economia mundial.
A relação com a OTAN ilustra essa diferença.
A legislação americana impede a retirada unilateral dos Estados Unidos da
aliança, exigindo aprovação legislativa. Mas a confiança entre os aliados pode ser
abalada sem que haja uma retirada formal. Declarações, ameaças e decisões sobre
cooperação militar já são capazes de produzir insegurança.
A derrota eleitoral tampouco garante uma
revisão das tarifas ou uma mudança de rumo no Irã. Trump poderá buscar acordos
para preservar sua influência, mas, acuado internamente, também poderá dobrar a
aposta na confrontação externa. Esse risco precisa entrar no cálculo de
governos e aliados.
Para o Brasil, a nova maioria abre
interlocução e possibilidades de pressão sobre as tarifas, sem garantir sua
retirada. Lula faria bem em explorar essas oportunidades com firmeza e
prudência. Tripudiar sobre a derrota de Trump poderia oferecer-lhe um pretexto
para uma nova escalada contra o país.
Pelas regras constitucionais atuais, Trump
não poderá ser eleito novamente em 2028: a 22ª Emenda proíbe uma terceira
eleição presidencial, mesmo em mandatos não consecutivos. Mas ele continuará
tentando influenciar a escolha do sucessor e os rumos do Partido Republicano.
Sua ausência da próxima cédula não significa o desaparecimento das forças
políticas que mobilizou.
Os democratas terão de se preparar para essa
disputa sem organizar toda a sua atuação em torno do presidente. Investigar
abusos é um dever. Transformar a fiscalização em espetáculo permanente pode
devolver a Trump o domínio da atenção e dificultar a construção de uma
alternativa com identidade própria.
Trump recebeu um limite. Os democratas
receberam uma oportunidade. Aproveitá-la exigirá construir unidade em meio às
próprias divergências, usar com firmeza os instrumentos do Congresso e oferecer
propostas que conquistem a confiança dos americanos. A derrota do presidente
abriu esse caminho. Não assegurou seu desfecho.

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