sábado, 7 de novembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Revés extremista

Por CartaCapital

O simbolismo da derrota de Trump e dos percalços de Benjamin Netanyahu

Vermelha no Brasil, a onda mudou de cor ao chegar aos Estados Unidos. O azul do Partido Democrata coloriu o mapa da “América” na terça-feira 3 e impôs uma derrota incontestável a Donald Trump. Insatisfeitos com o custo de vida, os rumos da guerra no Irã e a transformação da Casa Branca em um guichê de negócios, os eleitores norte-americanos decidiram impor os primeiros limites aos delírios imperiais de um presidente que havia ultrapassados todas as linhas vermelhas da compostura e da decência. Caberá à oposição entender não só o voto de confiança, mas a responsabilidade de comandar a Câmara dos Deputados e do Senado e oferecer uma alternativa competitiva de poder. Sob Trump, os EUA se tornaram uma ameaça ainda maior à liberdade, ao multilateralismo e à paz mundial. E sem conseguir reverter o lento, porém inexorável, declínio político e econômico do país. Nero moderno, o republicano incendeia a nação e joga a culpa nos outros – nos aliados “incompetentes”, nos “comunistas”, nos imigrantes.

Os efeitos práticos da vitória democrata levarão tempo para serem percebidos. O simbolismo é, no entanto, imediato. Em menos de duas semanas, a Internacional Fascista sofreu baques monumentais em sua estratégia de fincar os tentáculos nos quatro cantos do planeta. A reeleição de Lula, associada à resistência de Claudia Sheinbaum, torna diminuto, irrelevante, o controle do quintal latino-americano, o brinquedo de Marco Rubio. Sem o Brasil e o México, restam os entulhos. Em Israel, um surpreendente comparecimento às urnas da população palestina dificulta a permanência de Benjamin Netanyahu no poder, embora seja quase impossível uma coalizão entre a frente de apoio ao general Gadi Eisenkot e os partidos árabes que aumentaram de tamanho no Knesset. De qualquer maneira, Bibi sai enfraquecido. Ao lado de Trump, o primeiro-ministro israelense forma o alto-comando da extrema-direita global, a quem os títeres prestam continência e devoção.

Com Trump “obliterado” pelos democratas e na eventual aposentadoria de Netanyahu, sobram os bobos da corte da ultradireita. Por falar nisso, em outubro do próximo ano, os argentinos irão às urnas. Javier Milei afunda na impopularidade na mesma proporção em que empurra o país à recessão e à miséria. Seus dias na Casa Rosada parecem contados. Daqui a duas semanas, o espanhol Pedro Sánchez, rara liderança progressista na Europa, enfrenta uma disputa eleitoral antecipada. O PP, tradicional legenda de direita, aparece à frente nas pesquisas. O primeiro-ministro da Espanha aposta, porém, na estratégia de André Janones e une mobilização nas ruas e uma campanha criativa nas redes sociais para se manter no poder em meio a uma grave crise de habitação. A permanência de Sánchez significaria outro triunfo das forças democráticas contra o extremismo. Como o mundo tem feito o “L”, nada é impossível.

Daqui a dois anos, os EUA voltam às urnas para eleger o próximo presidente. Tempo suficiente para os democratas se unirem em torno de uma candidatura capaz de enterrar o fantasma do trumpismo e do MAGA.

Logo, logo, Eduardo e Flávio Bolsonaro terão de planejar uma nova fuga. 

A era Trump acabou?

Por Revista Será?

A vitória avassaladora dos democratas nas eleições dos Estados Unidos sinaliza um esgotamento do trumpismo na política norte-americana e mesmo um possível declínio do domínio de Donald Trump sobre o Partido Republicano. Para o Brasil, mesmo que não haja alteração da política externa e das agressões de Trump, a derrota eleitoral do trumpismo acaba com os sonhos dos bolsonaristas de algum apoio norte-americano a Flávio Bolsonaro. O bolsonarismo e trumpismo podem afundar juntos. O Brasil e o mundo respiram aliviados. A sorte do planeta é que o narcisismo patológico do presidente da maior potência econômica e militar levou-o a cometer tantas barbaridades e desvarios que o eleitor norte-americano votou em massa contra o seu governo.

Com a sua espantosa petulância, Trump disse que, se seu nome estivesse nas cédulas, os democratas não teriam vencido as eleições. Aconteceu exatamente o contrário, a votação esmagadora dos democratas, assumindo maioria confortável na Câmara de Deputados e no Senado e nos governos estaduais, expressa a rejeição dos eleitores norte-americanos ao desequilibrado, arrogante, corrupto e nefasto presidente. Os candidatos republicanos que não foram eleitos devem ter percebido que Trump é o responsável direto pelo massacre eleitoral do Partido Republicano: o eleitorado votou contra a guerra no Irã, as tarifas alfandegárias e a perseguição aos imigrantes que provocaram a elevação dos preços.

A derrota provocou uma “onda de revolta contra o presidente americano” dentro do Partido Republicano (News do Meio), como evidencia a declaração do vice-presidente JD Vance, três dias depois dos resultados, culpando Trump pela derrota do Partido Republicano, confirma a cobrança dos republicanos. “A guerra foi a razão da nossa derrota”, declarou Vance, acrescentando que a campanha estava desconectada do sofrimento nacional com a disparada dos preços. Numa tentativa de distanciando do presidente Trump, visando as próximas eleições presidenciais, Vance defendeu medidas que permitiram recuperar os eleitores republicanos, incluindo o fim da guerra do Irã. Embora ele seja tão trumpista quanto o próprio Trump, sua crítica reflete o descontentamento interno no Partido Republicano.

O cientista político Yascha Mounk foi contundente na sua análise: “a era Trump acabou”. Ele advertiu, contudo, que não se pode esperar o retorno ao velho normal (https://writing.yaschamounk.com). Com mais dois anos de mandato e com o orgulho ferido, o grande narcisista pode fazer “coisas ainda mais extremas” no restante do seu governo. Segundo Mounk os democratas têm agora a responsabilidade de impedir que Trump provoque mais danos aos Estados Unidos e ao mundo. Por enquanto, ao menos dá para respirar.

Aumento de teto dos MEIs amplia rombo da Previdência

Por O Globo

Além da irresponsabilidade fiscal da medida, programa já estava desvirtuado — e isso só vai piorar

A partir de 2027, o presidente Luiz Inácio da Silva terá de lidar com os problemas que criou para si mesmo no afã de promessas proferidas durante a campanha à reeleição. Entre as “bondades” eleitoreiras, ganharam destaque agrados aos microempreendedores individuais (MEIs). Em vez de reduzir a pressão sobre as contas públicas, o governo aumentou.

Pelo projeto aprovado no Congresso às vésperas do segundo turno, poderá integrar o programa de impostos reduzidos quem faturar até R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil a partir de 2028 (hoje o limite está em R$ 81 mil). É certo que haverá mais inscritos, entre eles quem trabalha com carteira assinada, quem tem empresa no lucro presumido e quem aderiu ao Simples, outro programa subsidiado.

Não satisfeito em estimular adesões, o governo também perdoou integralmente dívidas de MEIs com a União vencidas até 13 de outubro de 2026 — medida que, além de abrir mão de receita, incentiva a inadimplência. Doravante mais MEIs atrasarão o pagamento dos poucos impostos que recolhem, à espera de novos perdões. Por fim, o governo ainda resolveu distribuir dinheiro a fundo perdido aos MEIs, por meio do PixMEI, transferência anual de até R$ 5 mil sem contrapartida.

Cada uma dessas “bondades” evidentemente cobrará seu preço do Orçamento. O PixMEI custará, pelas estimativas, algo como R$ 5 bilhões em quatro anos. O perdão das dívidas não sairá por menos de R$ 3 bilhões, entre 2027 e 2029. Em termos de impacto nas contas públicas, nada será pior que o aumento do teto. Participantes do MEI pagam menos tributos, entre eles a contribuição para a Previdência Social. Uma projeção estima que haverá 500 mil novas adesões a partir do ano que vem. O resultado na Previdência será um déficit adicional entre R$ 60 bilhões e R$ 98 bilhões até o fim do século, segundo estimativa do economista Rogério Nagamine Costanzi. Uma mulher de 20 anos que trabalhe como MEI até os 62 receberá uma aposentadoria muito superior ao valor com que terá contribuído para o INSS. A diferença poderá chegar a R$ 140 mil. “O MEI é muito subsidiado”, afirma Nagamine.

A irresponsabilidade fiscal da medida fica patente quando se lembra que, no ano passado, o Tesouro teve de desembolsar R$ 320 bilhões para honrar os compromissos do INSS. As despesas da Previdência equivalem a 8% do PIB e, com o envelhecimento da população, essa conta só aumentará. Mas a ampliação do teto dos MEIs reflete não apenas incúria com o dinheiro público. “O aumento do faturamento agravará ainda mais o problema de focalização que o programa tem”, diz Nagamine.

Antes das “bondades” eleitoreiras, já estava evidente que o MEI havia sido desvirtuado. Quando foi criado, em 2008, tinha como meta tirar da informalidade os brasileiros de baixa renda. Com o teto alto, passou a atrair profissionais de renda elevada, com carteira assinada. Cerca de um terço dos atuais integrantes migrou diretamente do regime CLT para o MEI. O aumento no teto contribuirá para atrair gente com mais anos de estudo, até com curso superior. É um desvirtuamento completo da natureza do programa. Em nenhum momento o governo se interessou pelas dezenas de estudos acadêmicos que apontam as falhas crônicas do MEI. E as medidas eleitoreiras conseguiram piorar muito o que já era bastante ruim.

Poder de veto de Trump limitará regulação de plataformas digitais

Por O Globo

Iniciativas com maior chance de prosperar virão não do Congresso democrata, mas de governos estaduais

:A retomada do controle democrata sobre o Congresso americano foi vista como oportunidade para reverter políticas de Donald Trump, em particular os obstáculos impostos à regulação das plataformas digitais e da inteligência artificial (IA). Os papéis de empresas ligadas a tecnologia ou IA desabaram em Wall Street depois da eleição de terça-feira. Mas as iniciativas com maior chance de prosperar não deverão vir do Capitólio, e sim de governos estaduais democratas, como já ocorre na Califórnia. A onda azul tomou ao menos cinco governos antes em mãos republicanas — ou sete, a depender do resultado da eleição no Kansas e no Alasca—, e os democratas governarão até 30 dos 50 estados americanos a partir de janeiro.

Em Washington, mesmo com Câmara e Senado solidamente sob controle democrata, será difícil que qualquer projeto avance sem a anuência de Trump, cujo poder de veto é quase absoluto. Ele já deixou clara sua estratégia. Publicou uma foto em que usa um boné com a palavra “veto” e afirmou ao New York Post: “Acho que vou me tornar o Sr. Veto”. A Constituição americana exige maioria de dois terços em cada uma das Casas para derrubar um veto presidencial (290 dos 435 deputados e 67 dos cem senadores). Mesmo com a ampliação de cadeiras nas últimas eleições, os democratas sozinhos não atingiram tal patamar. E historicamente não tem sido fácil derrubar vetos presidenciais. De 1789 a 2026, apenas 7,3% caíram.

Ainda que estejam sujeitos aos humores do “Sr. Veto”, os congressistas americanos não estão de mãos atadas. Parlamentares poderão exercer fiscalização, solicitar documentos ou instalar comissões de inquérito. Foi o que já fizeram no passado, por vezes expondo próceres do Vale do Silício a situações constrangedoras diante das câmeras.

Independentemente disso, a expressiva vitória democrata nos estados gera expectativa de mudança na regulação. Temas como inteligência artificial, data centers, combate a monopólios, proteção de crianças e adolescentes ou remuneração de produtores de conteúdos tendem a ganhar visibilidade. Um exemplo está na Califórnia, onde leis sensatas entraram em vigor há pouco tempo, a despeito da pressão de todas as empresas do Vale do Silício lá sediadas.

Desde antes da eleição presidencial, o Vale do Silício se aproximou do trumpismo, numa tentativa de afastar as iniciativas de regulamentação que partiam da gestão Joe Biden. Mas os bilhões investidos na campanha eleitoral não foram suficientes para impedir o repúdio a Trump. Reeleito senador na Geórgia, Jon Ossoff usou o discurso da vitória para cutucar o setor. A governadora eleita do Texas, Gina Hinojosa, defendeu moratória para data centers, fim de incentivos fiscais e a exigência de que empresas banquem seus custos de energia. De um jeito ou de outro, o tema haverá de se impor. E qualquer decisão tomada nos Estados Unidos, país onde as gigantes digitais estão sediadas, terá impacto no mundo todo.


Nenhum comentário:

Postar um comentário