Folha de S. Paulo
Populista se esmerou em ser derrotado nas
urnas ao fazer tudo ao contrário do que prometeu
Não é nada mau para o mundo que o presidente
dos EUA tenha sua força política interna abalada
Donald Trump
deu aula de como perder uma eleição. Transformou em motivo para a derrota nas
legislativas de meio de mandato a
frustração das promessas essenciais que o levaram de volta à Casa Branca.
Eleito para recuperar a prosperidade americana, reduzir o custo de vida e manter os EUA afastados de guerras distantes, acabou produzindo resultados inversos.
Os republicanos, no que se afigura como um
colapso, perderam
o controle da Câmara e do Senado e sofreram derrotas impensáveis em estados
tradicionalmente conservadores.
Bem, esperemos que desta vez ninguém escreva
um artigo com o título "é a economia, estúpido". Sim, Trump prometeu
reduzir a inflação e promover crescimento. Na contramão, lançou uma ofensiva
tarifária errática, que encareceu produtos e insumos usados pelas empresas
americanas.
A política externa agravou o problema. O
America First, uma das marcas de seu movimento, expressava a promessa de romper
com as constantes intervenções do país em conflitos longínquos. Faz tempo que a
maioria dos norte-americanos não quer saber de atoleiros militares em lugares
que nem conseguem apontar no mapa.
Trump dizia que encerraria rapidamente as
guerras na Ucrânia e em Gaza. Acabou, porém, envolvendo seu país, ao lado de Binyamin
Netanyahu, de Israel,
num conflito
sem sentido contra o Irã.
O ataque teve consequências que Washington
não conseguiu controlar. A interrupção do tráfego pelo estreito de Hormuz
provocou uma disparada dos preços dos combustíveis. A guerra chegou aos postos
de gasolina, aos custos de transporte e a outros preços.
Pesquisas no dia do pleito revelam que 9 em
cada 10 apontaram o custo
de vida como fator importante ou decisivo para seu voto.
Há ainda a dimensão política e institucional.
O presidente fez do confronto permanente um método de governo, desafiou limites
ao exercício do poder e transformou a truculência contra imigrantes em
espetáculo de intimidação e terrorismo.
Nesse contexto, uma série de novidades fez
história, como a Geórgia
ter escolhido a democrata Keisha
Lance Bottoms, primeira mulher negra eleita governadora de um estado
norte-americano, e Michigan ter consagrado Abdul
El-Sayed, o primeiro muçulmano a chegar ao Senado. No Novo México, a
democrata Deb
Haaland tornou-se a primeira mulher indígena eleita governadora.
Seria precipitado interpretar o resultado
como a adesão dos americanos a um novo projeto democrata. De certa forma, como
na eleição presidencial brasileira em que o antibolsonarismo deu a vitória a
Lula, o antitrumpismo derrotou o populista. O fiasco terá consequências
internas e externas.
Embora os EUA continuem sendo a nação mais
poderosa do planeta, Trump já não será o autocrata arrogante e disruptivo com
apoio popular. Não é nada mau para o mundo que esse tipo desprezível e perigoso
de liderança tenha sofrido revés tão expressivo. Por fim, a permanecer a onda
democrata, Flávio Bolsonaro ainda terá algum tempo para fazer novos planos de
viagem.

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