Folha de S. Paulo
Diversificar as formas de participação
popular na tomada de decisão é caminho para fortalecer a democracia
Nos EUA, eleitores decidiram diretamente
sobre financiamento de habitação e tributação
Você concordaria com a emissão de títulos
públicos para financiar programas de habitação popular? Concordaria com a
criação de um programa de financiamento para aquisição de imóveis por famílias
de renda média? E com a manutenção de uma tributação mais elevada de imposto
de renda para pessoas de alta renda, cuja arrecadação tributária será
destinada à educação pública e à saúde?
Esses são exemplos reais que os cidadãos da Califórnia, nos Estados Unidos, votaram nas eleições deste ano. Diferentemente do Brasil, os eleitores de diversos estados no país norte-americano escolhem não apenas seus representantes, mas também decidem sobre o financiamento de políticas públicas, tributação, regras eleitorais, entre outros.
Esse modelo de democracia direta não está
imune a críticas. Muitas vezes, o eleitor precisa tomar uma decisão com base em
informações limitadas, que podem ser apresentadas de forma parcial e enviesada
e sem evidências rigorosas de efetividade.
No Brasil, decisões dessa natureza ficam, em
regra, a cargo dos representantes eleitos. O voto, portanto, constitui o
principal instrumento de participação na nossa democracia. Mas não é o único.
Para participação direta, há a possibilidade
de realizar plebiscitos ou referendos, em que a população pode decidir sobre
questões de interesse público. Contudo, no nível nacional, desde a
redemocratização, foram realizados apenas um plebiscito, para definição da
forma e do sistema de governo, e um referendo, referente ao Estatuto
do Desarmamento. Além disso, não há um mecanismo que permita que cidadãos
submetam diretamente uma proposta de lei à votação nacional.
Outros instrumentos são mais frequentes.
Abaixo-assinados expressam mobilização coletiva e buscam pressionar o poder
público. Consultas públicas permitem que cidadãos apresentem opiniões sobre
proposições legislativas em tramitação. A Constituição
prevê ainda a apresentação de projetos de lei de iniciativa popular, desde que
cumpridos requisitos mínimos de apoio do eleitorado.
Apesar de relevantes para a ampliação do
debate público, estes instrumentos não determinam a decisão governamental. A
aprovação das medidas continua dependendo do processo legislativo. Outra
possibilidade é o orçamento participativo, mais comum no nível local, em que
alguns modelos incluem poder efetivo de escolha da população sobre uma parcela
do orçamento.
Na esteira da mobilização
social —e digital— vista no segundo turno das eleições presidenciais deste
ano, diversificar as formas de participação popular na formulação e na tomada
de decisão sobre políticas públicas é um caminho possível para fortalecer a
democracia. Neste processo, é preciso entender quem de fato tem acesso aos
mecanismos disponíveis, identificando barreiras econômicas, digitais,
informacionais, territoriais ou educacionais. Ampliar a participação exige
criar condições para que grupos sub-representados tenham voz.
De toda forma, a democracia não deveria se
limitar à escolha periódica de representantes. Afinal, um mecanismo de
participação pode não ser vinculante e, ainda assim, ter relevância democrática
se obrigar o poder público a justificar suas escolhas. Participar não é
necessariamente decidir, mas uma democracia se fortalece quando o povo tem mais
oportunidades de influenciar o que é decidido em seu nome.

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