Correio Braziliense
A mobilização popular do segundo turno
compensou a fragilidade da aprovação governamental e devolveu centralidade à
defesa da democracia na reeleição de Lula
A discussão sobre a composição do novo governo Lula e sua política econômica
remete-se a controvérsias históricas da esquerda: como combinar identidade
própria, mobilização popular e alianças com forças que não compartilham seu
projeto? Vladimir Lênin, o líder bolchevique, e Antonio Gramsci, o maior
marxista ocidental, protagonizaram esse debate na Rússia autocrática de 1905 e
na Itália fascista da década de 1930. Entre ambos e a Constituição de 1988, há
uma distância intransponível.
Em Duas táticas da social-democracia na revolução democrática (Boitempo), Lênin
sustentava que a burguesia liberal russa não levaria até o fim a luta contra o
czarismo. Temia mais a iniciativa dos trabalhadores do que a sobrevivência da
autocracia. Caberia ao proletariado, aliado ao campesinato, dirigir a revolução
democrática. A questão era quem comandaria a transformação, antes mesmo da
passagem ao socialismo. Isso admitia convergências circunstanciais com
liberais, mas recusava a subordinação política a eles. Essas teses permanecem
vivas na esquerda brasileira.
Nos seus Cadernos do Cárcere (Civilização Brasileira), a partir da experiência
bolchevique, Gramsci percebeu que as sociedades ocidentais exigiam outra
estratégia. O poder se sustentava também em partidos, igrejas, sindicatos,
imprensa e associações. A transformação dependeria de uma prolongada disputa de
direção na sociedade civil, a “guerra de posição”. Conquistar o governo seria
insuficiente sem construir consentimento e ampliar alianças. Sua reflexão abriu
caminhos para as esquerdas democráticas mundo afora.
A distinção decisiva, ainda hoje, está entre hegemonia e hegemonismo. A
primeira exige capacidade de incorporar demandas dos aliados e formular um
interesse comum. O segundo pretende subordiná-los à conveniência do partido
dominante. Há profundas diferenças entre combater uma autocracia e governar uma
democracia pluralista. Nesta, uma aliança democrática pressupõe reconhecer a
legitimidade, a autonomia e o revezamento de liderança entre os parceiros.
A história brasileira mostra que a cooperação entre esquerda, centro
democrático e liberais pode produzir avanços duradouros. No governo Juscelino
Kubitschek, a aliança PSD-PTB combinou desenvolvimento e competição política,
com apoio comunista à candidatura, embora o PCB permanecesse ilegal. Nos anos
1990, Fernando Henrique Cardoso reuniu uma coalizão de centro e centro-direita
em torno da estabilização. A esquerda dividiu-se: enquanto setores participaram
dessa construção, o PT fez oposição.
Essas experiências foram distintas, mas mostram que o progresso pode resultar
de compromissos entre forças concorrentes. A estabilização monetária e a
proteção social acabaram incorporadas a uma trajetória que atravessou
diferentes governos. Há também uma continuidade democrática entre a mobilização
pelo impeachment de Fernando Collor, em 1992, e a convergência que derrotou
Jair Bolsonaro em 2022: adversários reconheceram uma tarefa comum. A presença
de Geraldo Alckmin na chapa de Lula simbolizou essa possibilidade.
Escolha estratégica
Os fracassos também ensinam. Em 1964, setores da esquerda subestimaram a
correlação de forças, trataram compromissos como capitulações e contribuíram
para o isolamento de João Goulart. Obviamente, isso não diminui a
responsabilidade dos golpistas pela destruição da democracia. Em 2016, a crise
econômica, os erros do governo Dilma Rousseff e a desagregação de sua coalizão
abriram caminho ao impeachment. O traço comum foi a perda de sustentação
política e social.
Esse problema reaparece quando a esquerda rejeita alianças programáticas com
democratas de outras correntes, mas aceita acordos de conveniência para obter
maioria parlamentar. No primeiro mandato de Lula, combinou intransigência no
discurso com dependência do Centrão na administração cotidiana. Como a frente
ampla de 2022 não se consolidou como um bloco programático, a estabilidade
governamental ficou sujeita a negociações fragmentadas por cargos, recursos e
influência.
Agora, a mobilização popular do segundo turno, por meio das redes sociais e
grandes manifestações de rua, compensou a fragilidade da aprovação
governamental e devolveu centralidade à defesa da democracia na reeleição de
Lula. Eleitores escolheram Lula para impedir o avanço autoritário sem necessariamente
aderir ao PT ou aprovar integralmente seu governo. Diante disso, a esquerda
precisa evitar o exclusivismo e atravessar fronteiras políticas.
O historiador Alberto Aggio, no seu livro A construção da democracia no Brasil:
1985-2025 (FAP-Annablume), ajuda a compreender essa tensão ao identificar na
“economia do afeto” e na “cultura do rechaço” as principais características do
lulismo e do PT, respectivamente. O vínculo emocional com Lula amplia suas
possibilidades de interlocução; a identidade do PT construída pela simples
rejeição aos adversários pode estreitá-las. “Governar com o povo” leva a duas
orientações distintas: privilegiar a relação carismática entre presidente e
eleitores ou fortalecer a participação por meio de instituições, organizações
autônomas e representação política. É possível juntar as duas coisas? E como
governar com redes sociais sob controle das big techs?
A divergência econômica também faz parte dessa escolha. Desenvolvimentistas
enfatizam investimento público, crédito e transformação produtiva, enquanto
sociais-liberais ressaltam estabilidade, sustentabilidade fiscal e condições
para o investimento privado. Combater a desigualdade gera uma tensão dialética
entre distribuição de renda e capacidade de financiamento para obter
crescimento. Equilibrar as contas implica em escolhas: quem paga e quais
despesas preservar. Trocando em miúdos, a nova composição ministerial mostrará
se Lula pretende compartilhar a construção desse programa ou apenas acomodar
apoios.
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