domingo, 1 de novembro de 2026

Duas táticas de esquerda: hegemonismo do PT ou aliança com os liberais, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A mobilização popular do segundo turno compensou a fragilidade da aprovação governamental e devolveu centralidade à defesa da democracia na reeleição de Lula

A discussão sobre a composição do novo governo Lula e sua política econômica remete-se a controvérsias históricas da esquerda: como combinar identidade própria, mobilização popular e alianças com forças que não compartilham seu projeto? Vladimir Lênin, o líder bolchevique, e Antonio Gramsci, o maior marxista ocidental, protagonizaram esse debate na Rússia autocrática de 1905 e na Itália fascista da década de 1930. Entre ambos e a Constituição de 1988, há uma distância intransponível.

Em Duas táticas da social-democracia na revolução democrática (Boitempo), Lênin sustentava que a burguesia liberal russa não levaria até o fim a luta contra o czarismo. Temia mais a iniciativa dos trabalhadores do que a sobrevivência da autocracia. Caberia ao proletariado, aliado ao campesinato, dirigir a revolução democrática. A questão era quem comandaria a transformação, antes mesmo da passagem ao socialismo. Isso admitia convergências circunstanciais com liberais, mas recusava a subordinação política a eles. Essas teses permanecem vivas na esquerda brasileira.

Nos seus Cadernos do Cárcere (Civilização Brasileira), a partir da experiência bolchevique, Gramsci percebeu que as sociedades ocidentais exigiam outra estratégia. O poder se sustentava também em partidos, igrejas, sindicatos, imprensa e associações. A transformação dependeria de uma prolongada disputa de direção na sociedade civil, a “guerra de posição”. Conquistar o governo seria insuficiente sem construir consentimento e ampliar alianças. Sua reflexão abriu caminhos para as esquerdas democráticas mundo afora.

A distinção decisiva, ainda hoje, está entre hegemonia e hegemonismo. A primeira exige capacidade de incorporar demandas dos aliados e formular um interesse comum. O segundo pretende subordiná-los à conveniência do partido dominante. Há profundas diferenças entre combater uma autocracia e governar uma democracia pluralista. Nesta, uma aliança democrática pressupõe reconhecer a legitimidade, a autonomia e o revezamento de liderança entre os parceiros.

A história brasileira mostra que a cooperação entre esquerda, centro democrático e liberais pode produzir avanços duradouros. No governo Juscelino Kubitschek, a aliança PSD-PTB combinou desenvolvimento e competição política, com apoio comunista à candidatura, embora o PCB permanecesse ilegal. Nos anos 1990, Fernando Henrique Cardoso reuniu uma coalizão de centro e centro-direita em torno da estabilização. A esquerda dividiu-se: enquanto setores participaram dessa construção, o PT fez oposição.

Essas experiências foram distintas, mas mostram que o progresso pode resultar de compromissos entre forças concorrentes. A estabilização monetária e a proteção social acabaram incorporadas a uma trajetória que atravessou diferentes governos. Há também uma continuidade democrática entre a mobilização pelo impeachment de Fernando Collor, em 1992, e a convergência que derrotou Jair Bolsonaro em 2022: adversários reconheceram uma tarefa comum. A presença de Geraldo Alckmin na chapa de Lula simbolizou essa possibilidade.

Escolha estratégica

Os fracassos também ensinam. Em 1964, setores da esquerda subestimaram a correlação de forças, trataram compromissos como capitulações e contribuíram para o isolamento de João Goulart. Obviamente, isso não diminui a responsabilidade dos golpistas pela destruição da democracia. Em 2016, a crise econômica, os erros do governo Dilma Rousseff e a desagregação de sua coalizão abriram caminho ao impeachment. O traço comum foi a perda de sustentação política e social.

Esse problema reaparece quando a esquerda rejeita alianças programáticas com democratas de outras correntes, mas aceita acordos de conveniência para obter maioria parlamentar. No primeiro mandato de Lula, combinou intransigência no discurso com dependência do Centrão na administração cotidiana. Como a frente ampla de 2022 não se consolidou como um bloco programático, a estabilidade governamental ficou sujeita a negociações fragmentadas por cargos, recursos e influência.

Agora, a mobilização popular do segundo turno, por meio das redes sociais e grandes manifestações de rua, compensou a fragilidade da aprovação governamental e devolveu centralidade à defesa da democracia na reeleição de Lula. Eleitores escolheram Lula para impedir o avanço autoritário sem necessariamente aderir ao PT ou aprovar integralmente seu governo. Diante disso, a esquerda precisa evitar o exclusivismo e atravessar fronteiras políticas.

O historiador Alberto Aggio, no seu livro A construção da democracia no Brasil: 1985-2025 (FAP-Annablume), ajuda a compreender essa tensão ao identificar na “economia do afeto” e na “cultura do rechaço” as principais características do lulismo e do PT, respectivamente. O vínculo emocional com Lula amplia suas possibilidades de interlocução; a identidade do PT construída pela simples rejeição aos adversários pode estreitá-las. “Governar com o povo” leva a duas orientações distintas: privilegiar a relação carismática entre presidente e eleitores ou fortalecer a participação por meio de instituições, organizações autônomas e representação política. É possível juntar as duas coisas? E como governar com redes sociais sob controle das big techs?

A divergência econômica também faz parte dessa escolha. Desenvolvimentistas enfatizam investimento público, crédito e transformação produtiva, enquanto sociais-liberais ressaltam estabilidade, sustentabilidade fiscal e condições para o investimento privado. Combater a desigualdade gera uma tensão dialética entre distribuição de renda e capacidade de financiamento para obter crescimento. Equilibrar as contas implica em escolhas: quem paga e quais despesas preservar. Trocando em miúdos, a nova composição ministerial mostrará se Lula pretende compartilhar a construção desse programa ou apenas acomodar apoios.

Nenhum comentário:

Postar um comentário