O Globo
Presidente pediu que eleitores fossem às
urnas como se ele estivesse nas cédulas e se tornou o maior derrotado da noite.
Com o controle do Senado e da Câmara, democratas se posicionam melhor para 2028
Os americanos apressaram em dois anos o fim da era Trump nesta terça-feira de 3 de novembro. Milhões de eleitores, em todas as regiões dos Estados Unidos, repudiaram em alto e bom som a segunda temporada de Donald Trump na Casa Branca. Ao superar todas as projeções de uma onda azul, em referência à cor da oposição, o Partido Democrata também venceu disputas importantes para governos de estados que serão decisivos no Colégio Eleitoral em 2028, incluindo a primeira governadora negra do país, Keisha Lance Bottoms, e a primeira latina do Texas, Gina Hinojosa. Cadeiras mantidas pelos republicanos há meio século ou mais no Legislativo migraram para o outro lado no que se configura um tsunami, com consequências imediatas não só para a política interna do país como também para a expansão global do trumpismo.
Em renovada e extensa coalizão, com potências
no novo Senado dos mais variados matizes ideológicos, à esquerda, entre elas Troy Jackson
no Maine e James
Talarico no Texas; ao centro, com Jon Ossoff na
Geórgia e Roy Cooper na
Carolina do Norte; e à direita, com Annie Andrews
na Carolina do Sul e o pastor Adam Hamilton
no Kansas, o Partido Democrata se aproveitou de forma cirúrgica da
desaprovação recorde à Casa Branca em um pleito de meio de mandato, na casa dos
65%, para alavancar candidaturas nada homogêneas, porém capazes, de forma
uníssona, de convencer o eleitor de que abraçariam a mudança por eles desejada.
Câmara: Projeções indicam que democratas
podem conquistar até 255 cadeiras das 435 que estavam em jogo, 40 a mais do que
nas eleições de 2024;
Senado: Perto do final da noite, a estimativa
era de 55 cadeiras sob controle democrata, de um total de 100, 8 a mais do que
em 2024;
Governos estaduais: Se ao final das eleições
de 2024 os democratas comandavam 23 estados, agora terão, no mínimo, 26 estados,
sem contar os Legislativos locais
Os temas centrais da campanha democrata, que
pautou o pleito, foram os três estelionatos eleitorais mais crassos de Trump.
Na campanha de 2024, ele prometeu que não entraria em guerras do outro lado do
planeta, como seus antecessores, republicanos e democratas. Veio o Irã e suas
sequelas, as mais danosas para os republicanos, com o recorde dos preços da
gasolina e do diesel.
Também garantiu que os bolsos dos americanos
ficariam mais cheios com sua nova política econômica. Os tarifaços ajudaram a
acelerar a alta do custo de vida, complicaram a economia dos estados
fronteiriços com Canadá e México, entre eles Texas, Maine e Michigan, e ainda
alvejaram o setor agrícola, eliminando um baú de votos à direita. Por fim, o
presidente também garantiu, em mensagem especialmente cara ao crescente
eleitorado latino, que fecharia as fronteiras, impedindo a entrada de
criminosos no país, que seriam os alvos das ações da Polícia de Imigração (ICE,
na sigla em inglês). O que se viu foi a criação de uma polícia especial que
respondia apenas à ala nativista da Casa Branca, livre de investigações
internas e punições e que repetidamente entrou em conflito com trabalhadores,
imigrantes legais e até cidadãos, como se registrou nas mortes em Minneapolis.
Em 2024, quando venceu a então
vice-presidente Kamala Harris por apenas 1,5% do voto popular, Trump proclamou
ter recebido um mandato popular inédito para mudar de forma decisiva o país.
Montou um ministério radicalizado. Se aproveitou da apatia dos democratas,
acéfalos, de um Congresso comandado por republicanos que, com exceções contadas
nos dedos de uma mão, se dividiram entre os que lhe diziam “sim” ou “sim,
senhor”, e da covardia das instituições mais representativas da opinião pública
para implantar a agenda radical proposta pelos Projeto 2025. Fortalecido
internamente, anunciou uma nova estratégia de segurança nacional que define a
América Latina como seu quintal. Invadiu a Venezuela, sequestrou o ditador Nicolás
Maduro, ameaçou Cuba e interferiu em eleições na região, inclusive a
brasileira, avançando candidaturas da direita mais extrema.
A vitória maiúscula dos democratas nesta
terça-feira sugere um mandato real. O maior tento da oposição versão 2026 foi
conversar com cada estrato da nova coalizão de forma específica. É uma vitória
composta de muitos retornos.
O dos latinos, presenciada pelo GLOBO no
Texas. O das mães dos subúrbios. O da ênfase social do cristianismo, com a
liderança ativa da Igreja Católica liderada pelo primeiro Papa americano que
abriu suas portas para os imigrantes perseguidos país afora e a aliança com
denominações protestantes que, não por acaso, agora contam com três senadores
democratas. Talarico, do Texas, e Hamilton, do Kansas, se juntarão ao reverendo
Raphael Warnock, da Geórgia. Embora só dispute a reeleição em 2028, o homem que
comandou o templo liderado um dia por um certo Martin Luther King Jr. tomou
para si a tarefa de reorganizar o eleitorado negro no sul do país. Seu
chamamento foi para uma reação em alto e bom som ao ataque do Trump 2.0 à
comunidade ao impulsionar o redesenho dos distritos eleitorais no país que
dificultaram a eleição de deputados negros. A eliminação das seções eleitorais
nas universidades com maioria de alunos negros gerou marchas de até duas horas
com os jovens unidos em torno do mesmo slogan: “Tirem as mãos
de meus votos”.
A Casa Branca, de forma patética, reagiu se
desdizendo e balbuciando que os partidos governistas sempre perdem fôlego em
pleitos de meio de mandato e que sempre saem menos fortes quando Trump não
compete, como se o presidente não tivesse implorado, seguidamente, para os
eleitores imaginaram que ele estava lá. Foi exatamente o que fizeram.
É ingênuo imaginar que Donald Trump
passará os próximos dois confortável no papel de rainha de Inglaterra enquanto
senta na cadeira mais poderosa do planeta. Bem a seu estilo, já avisou que será
o “senhor veto”, barrando qualquer tentativa de os democratas comandarem a
pauta nacional do Congresso. O horizonte anuncia mais caos e com os dois lados
do tabuleiro político americano em intensa transformação.
Os democratas precisam encontrar um nome capaz de unificar aspirações tão distintas, unidas pela defesa do processo democrático e opostas à crueldade, ao cinismo e à corrupção do outro lado. E os republicanos agora é que se vêem, após uma década, acéfalos. E com dois líderes ambiciosos que saem quase tão chamuscados do pleito quanto o presidente. O vice JD Vance após compactuar com peças de propaganda deplorável que expôs o abuso sexual sofrido pela agora governadora eleitora de Ohio, Amy Acton. E o secretário de Estado, Marco Rubio, viu seu maior ativo eleitoral, o voto hispânico, migrar veloz para o outro lado, inclusive em seu quintal real, a Flórida, em disputas vencidas por seus aliados em margens muito mais apertadas do que as previstas. O tsunami azul não poupou ninguém do outro lado.

Os estudantes, idosos e todos os de bom senso no Brasil deram o tom ao mundo. Enfim, estadunidenses se valendo desse senso. Precisou Obama subir ao palco para o tiro de misericórdia! Parabéns ao colunista e ao blog generoso e espetacular!
ResponderExcluirMuito bom! Com Eduardo Bananinha, Flávio Bananão e Ramagem do seu lado, Trump e os milionários cúmplices mostraram até onde estão dispostos a ir pra defender seus criminosos preferidos.
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