Folha de S. Paulo
Existe uma lei de ferro da política que
escapa aos cientistas, sociólogos e filósofos: o eleitor detesta estar farto
Acima de tudo, Trump perdeu a graça; já faz
dez anos que o aturamos, e toda a gente abaixo dele é mais chata ainda
Escrevo antes
de saber os resultados das eleições nos EUA, mas não é de hoje que estou
confiante de que a saturação com o trumpismo vai desencadear uma contrarreação
—e, aliás, escrevi na semana passada isso mesmo, dizendo que o início
dessa revolta contra a extrema direita foi no Brasil.
Sociólogos, economistas, filósofos e cientistas políticos procuram desde há muito leis gerais para as mudanças na opinião pública: se é a inflação, se é o desemprego, se é a falta de crescimento econômico, se é a sua distribuição.
Mas antes disso tudo, digo eu, há que considerar um fator básico da natureza humana: o aborrecimento. Os humanos detestam estar fartos, de saco cheio, entediados, cansados de sempre o mesmo. E essa é uma lei de ferro da história da humanidade. Chega a um ponto em que o pessoal não aguenta mais.
Isso vale para bons e maus políticos, de
esquerda e de direita, mas vale sobretudo para aqueles que, de tanto abusarem
da economia da atenção, mais desgastam os nossos recursos cognitivos. A partir
daí, é só em ditadura que eles conseguiriam governar. Não havendo essa
possibilidade, é inevitável que a certa altura já ninguém os consiga tolerar
mais. Esse momento está chegando para Donald Trump
e o trumpismo.
Claro, há
a guerra no Irã, há a inflação, o preço do combustível e o custo do apoio
ao governo de Binyamin
Netanyahu (de quem também os israelenses revelaram estar fartos). Mas acima
de tudo Trump perdeu a graça. Já faz dez anos que o aturamos. Hoje Trump é um
chato. E toda a gente abaixo dele no seu movimento é mais chata ainda, e nem
sequer é genuíno.
Presidentes com quatro mandatos e dominando
uma era inteira da política do seu país em democracia, como Roosevelt e Lula,
têm de saber dominar a arte de aparecer mas também a de não aparecer. Deixar o
eleitorado descansar e ter saudades deles. Essa é uma arte para muito poucos, e
por isso esta é uma categoria com apenas dois exemplos (fora de microestados):
precisamente Roosevelt e Lula, ninguém mais. De resto, vale a dinâmica do
encantamento, da saturação e do aborrecimento.
(Sei que é simplório, mas gosto de pensar na
derrocada de personagens autoritárias e carismáticas exatamente nestes termos.
Sempre me fascinou a maneira como Robespierre dominou a política francesa no
tempo do Terror com absoluta preponderância psicológica até ao dia em que
alguém na Convenção o confrontou diretamente dizendo aquilo que todos pensavam,
mas não tinham coragem de afirmar: que estavam fartos dele. Um dia
depois a sua cabeça já estava cortada.)
O problema deste mecanismo básico da política
é que as pessoas têm em geral de experimentar primeiro para se fartar depois.
As Américas tiveram nesta década uma cura de autoritarismo, de que os seus dois
maiores países começam a libertar-se. O resto do continente demorará ainda.
Mas na Europa ainda há quem não tenha passado
por isso.
E em 2027 teremos eleições na França. Aí os chatos são os outros; e temo
que os franceses decidam entrar numa aventura de que toda a União Europeia
acabará pagando o preço. Não há país no mundo que mais deteste estar farto.

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