Folha de S. Paulo
Maioria democrata no Congresso poderia
fortalecer pedidos de apuração sobre fuga de Flávio Bolsonaro e tarifas
Especialistas veem possibilidade de mais
freios internos às vontades do presidente sem mudança imediata na diplomacia
Washington - As
eleições de meio de mandato dos Estados
Unidos, nesta terça-feira (3), podem aumentar a pressão sobre o governo de Donald Trump
em temas que afetam diretamente o Brasil, como as
tarifas comerciais, as sanções e a atuação americana na América
Latina.
Uma eventual vitória dos democratas
na Câmara abriria caminho para investigações sobre decisões da Casa Branca,
incluindo a concessão de vistos a Flávio
Bolsonaro (PL) e a possível participação de autoridades americanas em sua
saída do Brasil após a derrota para Lula (PT).
Embora possa não significar necessariamente
uma alteração na política do republicano em relação ao seu maior vizinho ao
sul, especialistas avaliam que a mudança reforçaria a fiscalização sobre o
Executivo.
Parlamentares democratas intensificaram o envio de cartas ao Departamento de Estado, manifestando incômodo com a política americana para o Brasil. Em setembro, um grupo de 31 congressistas cobrou do governo Trump o compromisso de não interferir nas eleições brasileiras e reconhecer o resultado.
Na última sexta-feira (30), outros 25
deputados exigiram
explicações sobre a atuação do governo americano na fuga de Flávio do
Brasil e entrada nos EUA. Depois, uma carta de três deputados do CPC (sigla em
inglês para "bancada progressista do Congresso") exigiu que Trump
reconhecesse a vitória
de Lula.
Interlocutores do Congresso avaliam que o
grupo, que reúne cerca de cem parlamentares, poderá ganhar mais integrantes em
janeiro com a chegada dos eleitos nas midterms, como é chamado o pleito do meio
de mandato.
Para Mark Langevin, analista sênior da
consultoria Horizon Engage, uma maioria democrata deverá se empenhar em
investigar as circunstâncias da concessão do visto americano a Flávio e buscar
detalhes sobre a atuação do secretário de Estado, Marco Rubio,
no episódio.
O alcance dessas iniciativas, porém,
dependeria do resultado eleitoral. Mesmo que os democratas conquistassem as
duas Casas, enfrentariam obstáculos para aprovar leis contrárias à vontade de
Trump.
Nesta terça, os americanos elegerão os 435
deputados e cerca de um terço do Senado (35 de 100). Hoje, os republicanos
controlam as duas Casas e dão a Trump uma base favorável.
Para Nick Zimmerman, pesquisador sênior do
Inter-American Dialogue e ex-diretor para Brasil e Cone Sul da Casa Branca de Barack Obama,
a grande mudança em caso de maioria democrata no Legislativo seria a abertura
de investigações sobre o governo republicano.
Guardadas as diferenças entre os sistemas
americano e brasileiro, seria como instalar comissões parlamentares de
inquérito (CPIs) para apurar a atuação do governo. "Seria um monte de
investigações, de cartas exigindo mais informações para tentar montar uma
narrativa política e eleitoral de corrupção [contra o governo Trump]",
afirma. Segundo ele, os democratas poderiam usar o material reunido para
fortalecer sua posição na disputa presidencial de 2028.
A política tarifária de Trump, que gerou
atritos com o Brasil no segundo mandato, poderia entrar na mira parlamentar.
Zimmerman afirma que uma maioria democrata poderia investigar os critérios
utilizados pelo governo americano para estabelecer tarifas, negociar exceções e
atender a interesses de grupos de lobby.
As investigações não seriam necessariamente
direcionadas ao Brasil, mas poderiam envolver negociações comerciais com o
país. "Isso poderia ter consequências para atores específicos ou poderia
acabar tendo um impacto na política tarifária daqui para a frente do governo
Trump", afirma.
Bruna Santos, diretora do Brazil Program do
Inter-American Dialogue, também considera que o comércio seria uma das áreas
afetadas por uma mudança no Congresso. Segundo ela, uma maioria democrata
ampliaria a fiscalização sobre a política tarifária de Trump e poderia levar o
governo americano a ponderar mais as suas decisões.
Santos cita propostas em discussão que buscam
ampliar o controle do Legislativo sobre a imposição de tarifas. Uma delas prevê
mecanismos de notificação ao Congresso, enquanto outra condicionaria
determinadas medidas comerciais à aprovação parlamentar.
"Uma nova maioria democrata vai elevar o
custo político, mas a reversão é muito pouco provável", afirma, citando a
necessidade de apoio bipartidário nas duas Casas para fazer avançar algumas
medidas e derrubar eventuais vetos presidenciais. "Eu acho isso pouco
provável."
Lucas de Souza Martins, professor da
Universidade Temple, avalia que o Departamento de Estado poderia se tornar um
dos alvos da fiscalização parlamentar. Segundo ele, a atuação
de Marco Rubio na América Latina ganharia destaque diante da possibilidade
de o secretário disputar a Presidência em 2028. "Se você ataca a política
externa do Rubio, especificamente na América Latina, você vai resvalar no
Brasil", afirma.
Bruna Santos avalia que uma vitória democrata
poderia ter um efeito contrário ao esperado na política externa americana.
Diante de maiores obstáculos para implementar sua agenda doméstica, Trump
poderia concentrar ainda mais esforços nas relações com outros países.
"Ele vai se voltar para onde ele tem
maior margem de manobra", afirma a pesquisadora. Na avaliação dela, a
América Latina poderia ganhar ainda mais espaço na agenda do republicano,
justamente porque a política externa é uma área em que o Executivo dispõe de
maior autonomia.
O aumento da fiscalização parlamentar,
portanto, não significaria necessariamente uma redução das pressões americanas
sobre o Brasil.
Zimmerman concorda que uma derrota eleitoral
poderia alterar a relação de forças em Washington, mas ressalta que a reação de
Trump seria imprevisível. Segundo ele, um revés republicano poderia afastar
aliados de Trump, de olho em 2028.
"Não digo que a perda de influência dele
necessariamente seria boa para o Brasil nem necessariamente ruim, mas poderia
mudar um pouco o ambiente maior em Washington", afirma Zimmerman. Para
ele, Trump poderia reagir com conciliação ou agressividade, a depender do tema.

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