terça-feira, 3 de novembro de 2026

Vorcaro pronto para delatar, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Passada a eleição presidencial, o clima é de ‘ou salvam-se todos ou não se salva ninguém’

Depois das eleições e de duas tentativas fracassadas de delação premiada, a expectativa é que Daniel Vorcaro, do Banco Master, refaça sua estratégia e se disponha a contar, não o que lhe interessa, como tentou fazer, mas o que interessa à Polícia Federal e à verdade: fatos, nomes, locais, valores e o máximo de provas possíveis.

Uma coisa era Vorcaro abrir a boca sem saber quem seria presidente, outra é falar agora, depois da derrota do “irmão” Flávio Bolsonaro e da vitória de Lula para um quarto mandato. Ele pode, por exemplo, sentir-se livre para contar toda a história do Dark Horse. A começar de uma pergunta básica: a grana era mesmo para o filme?

Nesta semana que, de fato, começa na terça-feira, está no radar policial, jurídico e político um possível depoimento do pastor Fabiano Zettel, o faz-tudo (e o sabe-tudo) do cunhado Vorcaro. Todas as atenções estão voltadas para saber se será o início da nova estratégia do próprio Vorcaro.

Se o resultado da eleição abre caminho para Vorcaro entregar Flávio, pode não ser suficiente para que ele dê os detalhes mais sórdidos de suas relações financeiras, de amizade e de orgias com ministros do Supremo.

Flávio perde poder, mas os ministros continuam lá, pelo menos por ora.

Vorcaro é fator central na tensa relação entre Congresso e ministros do STF, sobretudo os mais enrolados com Vorcaro: Alexandre de Moraes, Cássio Nunes Marques e Dias Toffoli. Um é considerado “lulista”, o outro, bolsonarista, e o terceiro oscilou de um lado para o outro e não tem apoio de nenhum dos dois.

A percepção em Brasília é de que é muito difícil que todos os três escapem totalmente ilesos depois das provas reunidas pela PF e já públicas. Mas eles vão lutar com todas as suas armas e, entre elas, estão suas conexões com o próprio Congresso.

Principal alvo do Senado, Moraes é não só amigo de Davi Alcolumbre, que está em campanha para se reeleger presidente da casa legislativa, como tem uma boa moeda de troca com o PL e seus aliados: o futuro de Jair, Flávio e Eduardo Bolsonaro passa pelo STF. Logo, tudo é muito intrincado.

Sem contar exemplos como dois senadores. Ciro Nogueira, ex-chefe da Casa Civil de Bolsonaro, é enrolado com Vorcaro, e Weverton Rocha, ex-vice-líder do governo Lula e amigo de Flávio, é suspeito de lavagem de dinheiro do escândalo do INSS.

O ano de 2027 vai chegando num clima de “ou salvem-se todos, ou não se salva ninguém”, com muito silêncio em público, mas muitas conversas nos bastidores e todos os lados sabendo que Vorcaro é uma bomba capaz de explodir qualquer tipo de acordo.

 

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