Folha de S. Paulo
Cena no Rio condensa herança escravista e
hierarquia racial
Multidão em São Paulo expressa diversidade
etária e alegria
É possível que, na origem latina, imagem signifique apenas a aparência de alguma coisa. Com seu domínio no mundo atual, porém, ela tanto representa algo existente como permite uma compreensão da realidade. Isso vem a propósito de duas imagens destinadas a ficar na história crítica das campanhas pela última eleição presidencial. Uma, na passeata bolsonarista na Barra da Tijuca (RJ), mostrava um negro fantasiado de diabo, em cores vermelhas, tridente na mão, acorrentado por um branco, que invectivava contra satanás e o PT. A outra, na avenida Paulista (SP), coberta de bandeiras e roupas vermelhas, exaltava Lula.
Visibilizando muitas coisas de uma só vez,
toda imagem é sintética. A cena carioca, em sua chocante sordidez, apreende o
brutalismo do poder escravista remanescente na lembrança escrita, ainda quando
condenatória. Depois, a atual hierarquização racial, subsistente na contratação
de um negro para uma teatralização degradante. No todo, a concretização de um
conceito: o fascismo da cor.
Já a cena paulista, talvez a maior
manifestação urbana avaliada em termos numéricos (14 quarteirões), é também
sinóptica por mostrar na enorme multidão diversidade etária, gestualidade
expressiva e alegria nos rostos. Não era gente em busca de curtidas, mas uma
imagem de povo politicamente ativo como subjetividade histórica. "Há
política a partir do momento em que existe a esfera de aparecimento de um
sujeito, o povo, cujo atributo particular é ser diferente de si mesmo,
internamente dividido" (Jacques Rancière).
É verdade que Marx desmontou, com a luta de
classes, a mitologia liberal do povo. Mas qualquer que seja o nome atribuído a
essa pretensa unidade ("povo" é o preferido pelo Estado democrático
moderno, vocacionado a persistir em sua substância parlamentar), crucial é
perceber que a política não prescinde de um sujeito coletivo.
Esse sujeito é uma forma dinâmica. Mais do
que ser, povo é tornar-se, um processo que produz seu próprio sujeito. Foi o
que sintetizou a imagem da avenida Paulista: o rompimento da anterior paralisia
popular, evidenciado em cenas de igual intensidade no Rio de Janeiro, em
Salvador, nas capitais nordestinas e em numerosas outras cidades. O povo
produziu-se nas ruas e nas redes.
Vale refletir sobre por que isso só ocorreu
no segundo turno eleitoral. Houve, certo, clara mudança de protagonismo, com o avassalador
"exército do Lula", que inflamou em uníssono as redes e as
ruas: os 10 milhões de "soldados" corresponderam
ao número da diferença vitoriosa.
Mas um fato sensível despertou a massa de sua letargia. Antes, a consciência progressista estava tomada pelo cansaço de palavras gastas, que já não faziam mais efeito, inclusive a noção abstrata de luta contra a extrema direita ou o fascismo. De repente, porém, a presença concreta do perigo fascista, por lucidez plural, corporificou-se como imagem viva, mobilizando o medo. Jovens e idosos compreenderam. Então a massa, tornada povo por espontânea estratégia das ruas, pautou o Brasil, se não o mundo, contra a catástrofe de uma dinastia miliciana.

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