Folha de S. Paulo
As vitórias no primeiro turno não garantem à
direita o predomínio da oposição nas atividades legislativas
O Parlamento não se conduz pela lógica da
eliminação do adversário que preside as disputas eleitorais
No domingo, 18 de outubro, enquanto a direita
já se organizava em torno da presumida vitória dali a uma semana, Gilberto
Kassab lançava olhar de águia sobre o debate na
Band que terminara no zero a zero e vaticinava: "Vai ganhar o Lula".
Segundo o presidente do PSD, era o que dizia a curva ascendente das intenções de voto nas pesquisas, diante do empate. Essa avaliação explica por que o partido não se afobou na corrida do centrão rumo a Flávio Bolsonaro (PL) e manteve a neutralidade, preferindo equilibrar-se entre as duas canoas em disputa na regata.
O desempenho da oposição ao governo de Luiz Inácio
da Silva (PT) nas eleições
legislativas e governos estaduais —com destaque para o feito
do PL para Câmara e Senado—
provocou a sensação inicial de que o Congresso estaria irremediavelmente
dominado pelo bolsonarismo a partir de 2027 e nos quatro anos seguintes.
O ambiente pós-eleições mostra que não é bem
assim. Os movimentos dos companheiros de aliança no segundo turno —entre os
quais o partido do
derrotado— sinalizaram aos radicais o risco do isolamento. Bem
adequada ao momento é a metáfora das abóboras que se acomodam após o tranco na
carroça.
O fracasso na disputa presidencial permitiu
um reequilíbrio na correlação de forças. Os governistas ganharam um fôlego
inesperado e o centrão foi resgatado do encolhimento para a retomada do papel
de protagonismo como fiel da balança.
A oposição, por sua vez, pode perfeitamente
assegurar a relevância obtida nas urnas se souber se organizar como alternativa
e não como agente da destruição.
O Parlamento não se conduz pela dinâmica da
eliminação do adversário, que preside as disputas eleitorais. A lógica ali é a
da construção de consensos, sem os quais nenhuma das correntes em jogo consegue
avançar. Por paradoxal que pareça, é positivo o desequilíbrio entre as escolhas
do eleitorado para o Legislativo e o Executivo: favorece a arquitetura do
entendimento e impede a concentração de poder.

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