Os economistas não são diferentes. Sempre há
um déficit primário, uma taxa neutra de juros, um quantitative easing ou um custo
de oportunidade para demonstrar a sabedoria superior aos simples mortais. No
diálogo com os agentes econômicos privados flui um pouco melhor. Mas quando se
trata de política econômica, os economistas têm que convencer quem tem voto para
decidir. O diálogo obrigatório e complexo entre os economistas, o presidente da
República e os parlamentares do Senado e da Câmara se torna inevitável, e
muitas vezes indecifrável.
A maioria dos políticos não especialistas não
domina os tortuosos caminhos da teoria econômica. Tendem a achar que o
orçamento público é como coração de mãe ou saco sem fundo, sempre cabe uma nova
despesa a partir de uma nova prioridade incontornável e inadiável. Sempre
haverá uma solução, já que os economistas não passam de seres insensíveis,
frios e viciados em dizer não. Muitos congressistas, meus colegas, adotavam um
conceito salvador e mágico: vontade política. Se algo não era realizado era por
falta dela e não por restrição orçamentária. Já os economistas mandavam logo
uma irresponsabilidade fiscal na cara dos congressistas, antes de uma análise
mais profunda da proposta, que muitas vezes tinha algo interessante a partir da
sensibilidade do político sobre a realidade cotidiana da população. Neste
ambiente, quase um pulo para a Torre de Babel, uns não querendo ouvir, outros
não sabendo falar.
Uma ideia corrente, no senso comum e no meio
político, é de que o aumento do gasto público é sempre, em toda e qualquer
situação, positivo. Você injeta renda através do governo no bolso das pessoas,
elas vão na mercearia e compram alimentos, o dono da mercearia compra do
produtor rural, que compra trator, a fábrica de tratores compra chapa de aço e
pneus, cujas empresas pagam salários e impostos, e a corrente da prosperidade
está formada. Parece lógico. Aí vêm os chatos desmancha prazeres dos
economistas falar em falhas de mercado, capacidade ociosa ou não, demanda
efetiva, assimetria de informação e setoriais, pressões inflacionárias, juros
futuros. Pronto, a confusão está armada.
Muitas vezes, os políticos estão certos. Os
economistas se escodem atrás de seus sistemas de equações, modelos de projeção
e certezas absolutas. A economia é um campo de conhecimento, não uma ciência.
Há muito de interferência da subjetividade humana – coletiva e individual,
expectativas, ambições e temores. Há muitas áreas cinzentas entre a não
invisível do mercado e a mão visível do Estado. Em vários momentos, as melhores
intenções levam aos piores resultados. O ativismo governamental a partir de
2009, no afã de gerar empregos e renda para a população, com o Brasil surfando
na marolinha da crise global, gerou a maior recessão da nossa história, de 2014
a 2016. É a famosa distância entre intenção e gesto. Os efeitos positivos de
uma determinada política pública são roubados pela inflação, juros altos,
desemprego.

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