sábado, 7 de novembro de 2026

O indecifrável diálogo entre economia e política, por Marcus Pestana

Quis o destino que eu frequentasse esses dois universos:  o da política e o da economia. Às vezes parece conversa de bêbado – um mar de incompreensões e mal-entendidos. As motivações são semelhantes, mas os caminhos nem sempre se encontram. Toda corporação profissional tem lá sua linguagem complexa e hermética como proteção defensiva de seu campo específico de conhecimento. Data a máxima vênia é a senha dos advogados para barrar o acesso de intrusos à sua órbita de ação. Basta indicar talimogene laherparepvec, identificar um sinal patognomônico ou diagnosticar uma tromboangeite obliterante para um médico demarcar campo com leigos metidos à auto diagnose e automedicação.

Os economistas não são diferentes. Sempre há um déficit primário, uma taxa neutra de juros, um quantitative easing ou um custo de oportunidade para demonstrar a sabedoria superior aos simples mortais. No diálogo com os agentes econômicos privados flui um pouco melhor. Mas quando se trata de política econômica, os economistas têm que convencer quem tem voto para decidir. O diálogo obrigatório e complexo entre os economistas, o presidente da República e os parlamentares do Senado e da Câmara se torna inevitável, e muitas vezes indecifrável.

A maioria dos políticos não especialistas não domina os tortuosos caminhos da teoria econômica. Tendem a achar que o orçamento público é como coração de mãe ou saco sem fundo, sempre cabe uma nova despesa a partir de uma nova prioridade incontornável e inadiável. Sempre haverá uma solução, já que os economistas não passam de seres insensíveis, frios e viciados em dizer não. Muitos congressistas, meus colegas, adotavam um conceito salvador e mágico: vontade política. Se algo não era realizado era por falta dela e não por restrição orçamentária. Já os economistas mandavam logo uma irresponsabilidade fiscal na cara dos congressistas, antes de uma análise mais profunda da proposta, que muitas vezes tinha algo interessante a partir da sensibilidade do político sobre a realidade cotidiana da população. Neste ambiente, quase um pulo para a Torre de Babel, uns não querendo ouvir, outros não sabendo falar.

Uma ideia corrente, no senso comum e no meio político, é de que o aumento do gasto público é sempre, em toda e qualquer situação, positivo. Você injeta renda através do governo no bolso das pessoas, elas vão na mercearia e compram alimentos, o dono da mercearia compra do produtor rural, que compra trator, a fábrica de tratores compra chapa de aço e pneus, cujas empresas pagam salários e impostos, e a corrente da prosperidade está formada. Parece lógico. Aí vêm os chatos desmancha prazeres dos economistas falar em falhas de mercado, capacidade ociosa ou não, demanda efetiva, assimetria de informação e setoriais, pressões inflacionárias, juros futuros. Pronto, a confusão está armada.

Muitas vezes, os políticos estão certos. Os economistas se escodem atrás de seus sistemas de equações, modelos de projeção e certezas absolutas. A economia é um campo de conhecimento, não uma ciência. Há muito de interferência da subjetividade humana – coletiva e individual, expectativas, ambições e temores. Há muitas áreas cinzentas entre a não invisível do mercado e a mão visível do Estado. Em vários momentos, as melhores intenções levam aos piores resultados. O ativismo governamental a partir de 2009, no afã de gerar empregos e renda para a população, com o Brasil surfando na marolinha da crise global, gerou a maior recessão da nossa história, de 2014 a 2016. É a famosa distância entre intenção e gesto. Os efeitos positivos de uma determinada política pública são roubados pela inflação, juros altos, desemprego.

Nenhum comentário:

Postar um comentário