O Povo (CE)
Com a retomada do controle das duas casas legislativas, o Partido Democrata foi capaz de impor uma derrota política inquestionável a Donald Trump, que vem amargando um índice de popularidade decrescente
O resultado das eleições norte-americanas
ofereceu uma surpresa mesmo a quem já antecipava a possibilidade de uma
"onda azul". Retomando o controle das duas casas legislativas, o
Partido Democrata foi capaz de impor uma derrota política inquestionável a
Donald Trump, que vem amargando um índice de popularidade decrescente à medida
que inflação e piora das condições gerais de vida avançam.
A diminuição da abstenção e as manifestações de massa puxadas por estudantes que vimos por lá ecoaram a energia e o humor que testemunhamos por aqui semanas antes. Em países da Europa, como Espanha e França, e junto aos nossos vizinhos, como a Argentina, a esperança de um revigoramento do que se convencionou chamar de centro-esquerda democrática é mais perceptível, especialmente em contexto de crise compartilhada nos países do Ocidente.
O Brasil, nesse sentido, foi um exemplo
interessante de que a democracia é capaz de encontrar saídas para reagir a
projetos autoritários. Mobilização popular, articulação partidária, engajamento
da sociedade civil aparecem como recursos poderosos, em sociedades em que a
democracia já se consolidou como cultura política.
A eleição desponta periodicamente como um
exercício de teste: diante do espelho, a sociedade escolhe o futuro que deseja
para si, o que está de acordo ou não com seu projeto de vida boa. Para todos os
efeitos, 2026 foi um ano que nos provou que o voto ainda importa, ainda é
manifestação de poder, e que há alternativas possíveis ao radicalismo político.
Por tudo que temos testemunhado, podemos
respirar um pouco, reconhecendo que a captura das liberdades adquiridas é mais
desafiadora do que parece. Mesmo com a intervenção de grandes empresas de
tecnologia, mesmo com uma cooperação transnacional observada com os grupos de
extrema direita, há uma força que resiste, e que se relaciona justamente com o
amadurecimento da consciência política.
Por mais que se insista que a sociedade
brasileira é ideologicamente polarizada, não há como negar que, em certas
pautas, há uma maioria muito sólida: a maioria da sociedade brasileira não está
disposta a renunciar à rede de proteção social conquistada ao longo de décadas
de desenvolvimento. O direito à educação de qualidade, o direito à saúde, a
proteção mínima ao trabalhador, a garantia da previdência, a defesa forte da
soberania nacional não são pautas controversas para o brasileiro. Todos querem
viver bem, com dignidade e qualidade de serviços públicos.
Divergências políticas são saudáveis e dão brilho à experiência de um país livre. Por isso, não deixa de ser um alívio constatar que, superadas as nossas diferenças, continuamos acreditando no potencial de um governo do povo para o povo.
*Doutora em Direito (USP) e professora da Universidade Federal do Ceará

Nenhum comentário:
Postar um comentário