O Globo
Este é um assunto complicado e chato, mas
mudará a cara da política nacional e, se bobear, realizará o sonho do cacique
que quer mandato sem ter voto
No meio da quizumba provocada por Flávio
Bolsonaro, o presidente da Câmara, Hugo Motta,
reuniu líderes para começar a desenhar um projeto de reforma eleitoral. Parece
bobagem, mas pode resultar numa tunga parcial do direito de escolha dos
parlamentares. É um
assunto complicado e chato, mas mudará a cara da política nacional e, se
bobear, realizará o sonho do cacique que quer mandato sem ter voto.
A novidade viria com a criação do voto
distrital. O país seria dividido em distritos e os candidatos disputariam as
cadeiras no mano a mano. Quem tiver mais votos, ganha. É o sistema americano.
Simples, antigo e eficaz.
Falta dizer quem vai desenhar os distritos. Tome-se um exemplo grosseiro do Rio de Janeiro. Se o distrito tiver um formato, do Leblon à Barra da Tijuca, a Rocinha pobre nunca elegerá um deputado. Desenhando-se o distrito em outro sentido, indo de São Conrado e da Gávea até Cidade de Deus, a banda próspera da cidade nunca elegerá um deputado.
Superada essa questão, já surgiu outro
problema. O modelo seria distrital, porém misto. Os partidos teriam candidatos
para o mano a mano dos distritos e também uma lista de notáveis que poderiam
receber votos em qualquer distrito.
Até aí tudo bem. Contudo, vai aparecer o
modelo das listas fechadas, organizadas pelas caciquias dos partidos. Os
afortunados receberiam a cadeira a partir da ordem de uma lista organizada
pelos caciques. Sem um só voto. Essa gracinha já circulou duas vezes no
Congresso e foi rejeitada.
As conversas de Motta estão no início, e o
novo sistema entraria em vigor em 2030 para funcionar plenamente em 2034.
Podendo-se replicar o sistema simples dos americanos, vai-se complicar com o
único objetivo de eleger maganos que não receberam votos.
O modo Bolsonaro de golpe
Durante a trama golpista de 2022/23, o
general Augusto Heleno deu uma preciosa aula de Ciência Política, não foi
ouvido e deu no que deu.
Em julho de 2022, antes da eleição, em uma
reunião da cúpula do governo Bolsonaro, ele disse:
“Não vai ter revisão no VAR. Então, o que
tiver que ser feito é antes das eleições. Se tiver que dar um soco na mesa, é
antes das eleições. Se tiver que virar a mesa, é antes das eleições”.
Tentaram depois da eleição e deu no que deu.
Na atribulada história nacional só Getulio Vargas,
em 1930, derrubou Júlio Prestes, presidente eleito.
Em 1955, Café Filho e Carlos Luz queriam
impedir a posse de Juscelino Kubitschek, e o general Henrique Lott
defenestrou-os.
Os dois Bolsonaro desafiaram essa escrita.
Inutilidade
Com sua inesgotável confiança no poder da
polícia, o ministro Alexandre de Moraes decidiu mandar apreender os passaportes
de Flávio Bolsonaro. É o velho “faço-porque-posso”.
Deu a Flávio a aura de perseguido e ele, com
a família e os passaportes, está nos Estados Unidos. E seu documento italiano
continua válido.
Caso clássico de atravessar a rua para
escorregar na casca de banana da outra calçada.
Tarcísio na pista
Como era de se prever, o governador Tarcísio
de Freitas entrou na disputa pela Presidência em 2030, sem fanfarra e com
cautela, disse o seguinte na quinta-feira:
“A gente tem que ver qual é o cenário do
momento e, claro, vou estar terminando o segundo mandato aqui no estado de São
Paulo. Terminando bem o segundo mandato, obviamente abre uma possibilidade (de
disputar a Presidência). Mas isso é uma coisa que você avalia em grupo, não
sozinho”.
Pelo andar da carruagem, a cada dia aparecerá
mais gente disposta a ajudá-lo a avaliar.
Devagar e sempre
Os Bolsonaro terão dois representantes no
Senado: Michelle e o filho Carlos. Os bons modos de Valdemar Costa Neto e de
Rogério Marinho terão trabalho para acostumá-los à etiqueta da Casa.
Conta a acertar
Em 2022, para atrapalhar a vida de eleitores
nordestinos, o então diretor da Polícia Rodoviária Federal, Silvinei Vasques, concebeu
uma malha de barreiras. Foi imediatamente ameaçado de prisão pelo ministro
Alexandre de Moraes. Vasques está preso na Papuda.
Quatro anos depois, numa operação mais
refinada, pelo menos 60 mil viagens não aconteceram. Por enquanto, as empresas
foram multadas. Só?
Sacrilégio
Flávio Bolsonaro poderia ter poupado o
público da sua comparação com o general francês Charles de Gaulle. Em 1940, os
alemães entraram em Paris, e De Gaulle fugiu para liderar a Resistência a
partir de Londres.
Viveu modestamente, com a mulher e a filha
que sofria da síndrome de Down. Davam-lhe tão pouca importância que não
gravaram seu primeiro apelo aos franceses. O escritor Romain Gary achou que era
um pseudônimo. Ele se impôs.
Aquela barra era tão pesada que o general
Leclerc, comandante da tropa francesa que entrou em Paris, nem Leclerc se
chamava. Em 1940 ele era o capitão Philippe de Hauteclocque, um rico
aristocrata. Quando chegou a Londres, virou Leclerc para poupar a família de
represálias alemãs.
Diplomacia
Lá se foi o romance do governo Trump com os
Bolsonaro que há um ano provocava tempestades e trovoadas.
Os diplomatas prevaleceram. Foram vários os
fatores que levaram a isso, o principal é o horror epidérmico que Donald Trump
tem aos perdedores.
O diplomata que definiu a vitória de Lula
como “definitiva” e “surpreendente” sabia o que estava fazendo.
No pico da ditadura, quando o adido militar
americano circulava com desenvoltura junto à tigrada, o cônsul em São Paulo,
Frederic Chapin, mandava relatórios sistemáticos para Washington contando
prisões, torturas e assassinatos.
Em dezembro de 1976, Chapin mandou um recado
ao cardeal Paulo Evaristo Arns avisando que haveria uma operação contra o PCdoB
em São Paulo.
Era o massacre da Lapa, onde foram
assassinados Pedro Pomar e Ângelo Arroyo.
Padrão Einstein
Enquanto os Bolsonaro seguem com suas
estripulias, o ministro Alexandre Padilha encontrou-se com Cláudio Lottenberg,
seu sucessor designado por Flávio Bolsonaro. Abraçaram-se.
No evento, Padilha anunciou recursos da ordem de R$ 3,95 bilhões para hospitais de alta qualidade. Eles são a contrapartida de serviços dos hospitais pelos benefícios tributários que recebem.

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