O Estado de S. Paulo
O novo governo terá a possibilidade de lançar
na mesa alguns temas de unidade nacional
As eleições trouxeram novidades substanciais
para os dois lados. À esquerda, o extraordinário movimento dos eleitores que
deram mais 10 milhões de votos a Lula abre a possibilidade para um mandato mais
rico do que os outros. À direita, a segunda derrota de um Bolsonaro em eleições
majoritárias deve trazer um momento de recomposição e busca de novos nomes para
liderar a corrente política.
Em alguns países do mundo com sistema parlamentarista, eleitores costumam votar num presidente à direita e num Congresso à esquerda, em busca de equilíbrio. No Brasil, não parece ter havido essa intencionalidade. Mas o fato de o Congresso ter representado uma guinada maior para os conservadores pode ter contribuído para uma importante variável: o medo da volta dos Bolsonaro ao poder central. Essa variável já era alta nas pesquisas, mas certamente cresceu diante do perigo de concentração de poder num candidato que muitos consideram imaturo, temor reforçado pela performance de Flávio nos debates.
O campo que se abre para Lula parece mais
amplo do que o aberto em 2022. Não apenas pela intensa mobilização do segundo
turno, mas também pela análise da votação. Tudo indica que os eleitores do
campo da direita que, no primeiro turno, votaram em Cury, Zema, Renan e Caiado,
no segundo turno, preferiram majoritariamente Lula.
Isso significa que a possibilidade de uma
política de frente pode isolar a direita mais radical e realizar o trabalho que
não foi possível em 2022. Bolsonaro foi derrotado e condenado, mas sua
influência permaneceu intensa entre os que se opunham ao governo.
Um dos problemas centrais do governo que
começa é econômico. As eleições suscitaram muitas promessas. A expectativa com
as políticas sociais é alta. Como cumprir o prometido num contexto de redução
de despesas?
Ao que se depreende de seus discursos, Lula
não fará o ajuste fiscal que o chamado mercado espera dele. Ele foi bastante
explícito no seu discurso na Espanha ao comentar o declínio da social
democracia que governa com uma visão econômica neoliberal. Na campanha, então,
foi mais específico e popular, chamando de “babaquice” a preocupação com
superávits.
Mas isso não significa que não se tentará
algum tipo de ajuste, com a condição de que não sacrifique as políticas sociais
nem pese de qualquer forma sobre as populações mais vulneráveis.
Uma pretensão desse tipo vai depender de
criatividade, algo que os economistas brasileiros, em outras circunstâncias, já
demonstraram, criando o Plano Real. Sugestões de leigos também não faltam:
enxugamento da máquina por meio da revolução digital, combate aos
supersalários, por exemplo.
O processo precisa ser bemsucedido, caso
contrário, há o perigo de aumento da inflação, que pode atingir os pobres e
frustrar também eleitores da classe média que votaram em solidariedade a eles.
Ao menos foi o que ouvimos em inúmeras declarações de voto nas redes sociais.
O governo reduziu o desmatamento e é
considerado um grande interlocutor no diálogo planetário sobre o meio ambiente.
Hospedou a COP e prepara para apresentar ao mundo, na Turquia, um mapa do
caminho para reduzir emissões e combater as mudanças climáticas.
O lugar do Brasil na política internacional é
o de um dos líderes nos esforços globais pelo meio ambiente, sobretudo no
empenho para manter em pé as florestas tropicais, daqui, da África e da Ásia.
Isso tudo não significa que o caminho será
fácil. Em primeiro lugar, o Orçamento continua sendo dividido com o Congresso.
Como realizar projetos de campanha, se o dinheiro é parcialmente pulverizado
nas mãos de deputados e senadores? Lula chegou a mencionar o uso de emendas
parlamentares para financiar seu projeto de transporte coletivo grátis no fim
de semana. Seriam R$ 16 bilhões, quase um terço das verbas que o Congresso terá
à sua disposição. Mas quem convenceria os deputados e senadores?
De qualquer forma, a relação do governo com o
Congresso majoritariamente conservador será algo especial. Na verdade, o
Congresso sempre teve maioria de direita, e em todos os seus quatro mandatos,
Lula terá de encarar esse problema. Experiência não falta, assim também como
não faltam tropeços nessa trajetória acidentada.
O que pode atenuar esse processo é a
habilidade política. O Brasil, nos últimos, anos esteve dividido de forma muito
severa. O novo governo terá a possibilidade de lançar na mesa alguns temas de
unidade nacional, desses em que todos votam diante de um inimigo comum, um
grande desastre natural, uma agressão estrangeira.
Não é possível prever tudo o que acontecerá
nos próximos anos. As correntes políticas diferentes vão sobreviver. Mas a
partir de 2030 possivelmente, os grandes líderes carismáticos não estarão na
linha de frente. É uma perda, mas também uma situação com novas possibilidades.
Elas podem ser aumentadas ainda pelas
mudanças na conjuntura internacional. Hungria e Polônia já não são as mesmas,
os EUA vivem uma semana decisiva para o futuro do país. A derrota de Trump nas
eleições de meio termo pode ser um grande passo para um novo tempo.

Político não precisa e nem deve ter carisma,na minha insignificante opinião.
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