sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Efeito Trump ao contrário, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

‘Nova direita’ da América do Sul sofre com crises, queda de popularidade e derrota de Trump

As voltas que o mundo dá... O trono do imperador Donald Trump começa a ruir e já há sinais de que, assim como puxou para cima a tal “nova direita” na América do Sul, passe a puxar para baixo a partir de agora. Aliás, como está acontecendo neste momento no Paraguai e foi previsto aqui na coluna em maio.

O Brasil foi o líder da resistência à invasão americana na região e consolidou espetacularmente essa posição com a eleição de Lula e a derrota de Flávio Bolsonaro, comemoradas por governos, entidades e cidadãos ao redor do mundo, inclusive nos EUA, como vitória da democracia e da soberania.

Do outro lado, estão praticamente todos os demais países sul-americanos, inclusive dois vizinhos-chave e parceiros do Brasil no Mercosul, Argentina e Paraguai, não apenas aliados de Trump, mas subservientes às suas vontades, que, convenhamos, são quase sempre inaceitáveis. Trump vai ter de enfrentar a maioria democrata, pedidos de impeachment e eleitos muito simbólicos, como um gay, um muçulmano, vários latinos e três governadores em especial: a primeira negra e a primeira indígena no país e o primeiro negro na Flórida. Tudo que ele rejeita.

Mas não é só isso. Trump se julgava dono do mundo e não consegue segurar nem o partido Republicano. O presidente da Câmara vai renunciar ao cargo. Parlamentares querem a demissão do secretário de Defesa, Pete Hegseth. A mídia prevê Marco Rubio fora do Departamento de Estado para cuidar da própria campanha presidencial.

Trump tem, ainda, que sair das guerras em que se meteu, sem tempo, pois, para sequestrar o presidente, assumir o controle do petróleo local, atacar embarcações ao gosto dos EUA ou desestruturar o comércio mundial com tarifaços.

Depois do Paraguai, onde o presidente Santiago Peña tenta renunciar para não sofrer impeachment, a “nova direita” de Javier Milei (Argentina), José Antonio Kast (Chile), Rodrigo Paz (Bolívia) e Daniel Noboa (Equador), já vem perdendo popularidade e deve ficar de barbas de molho. O que tem mais a se preocupar com os dissabores de Trump é Milei, com aprovação desabando e o risco Argentina disparando. Quem vai financiar suas maluquices? E vai insistir em Trump como referência?

Lula, portanto, recupera liderança no Mercosul e boas condições para conversar com Trump, possivelmente, em 15 de dezembro, na reunião de presidentes do G-20, na Flórida. Onde, aliás, o Itamaraty torce para que ele seja mais “badalado” do que o anfitrião.

Mas Lula que não suba no salto alto... O equilíbrio das contas e as previsões de crescimento, inflação e juros não são questões distantes, são do bolso, da casa e da vida de cada brasileiro.

 

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