O Globo
As eleições de meio de mandato de terça-feira
nos Estados Unidos enterraram ciclo de aberrações
O vocabulário de Donald Trump nunca foi muito
além da quinta série do ensino fundamental. Mas sua personalidade carismática e
a ausência de freio em manipular fantasias populares encontravam seguidores
ávidos por promessas. Conseguiu ser eleito duas vezes para a Casa Branca
sapecando superlativos absolutos à frente de afirmações fraudulentas. Até
tornar-se um chato, como cunhou o historiador português Rui Tavares. E
ostensivamente corrupto.
As eleições de meio de mandato de terça-feira enterraram este ciclo de aberrações. Desta vez, os superlativos resultam de números, e eles são invertidos — apontam não apenas para o colapso histórico de um governo que quase arruinou 250 anos de democracia, como tiraram da letargia cívica a sociedade diversa que compõe os Estados Unidos da América.
Para além da multidão de marcos inéditos que
continuam a emergir — primeiro senador muçulmano, primeiros governadores
hispânicos no Texas e na Califórnia, primeiro senador abertamente gay, primeiro
governador negro da Flórida, prefeitos socialistas nas três principais cidades
dos Estados Unidos etc. —, um fator merece destaque. Nenhuma dessas barreiras
quebradas foi sustentada em campanhas “identitárias”. As barreiras foram
quebradas não pela representatividade dos candidatos, mas porque fizeram
campanhas em torno de salários estagnados e enriquecimento no topo, da
corrupção no governo e da malfadada guerra ao Irã. Milhões de
eleitores negros, hispânicos, asiáticos e de outras minorias romperam
preferências partidárias e identitárias à procura de candidatos que priorizaram
a saúde, a educação e a qualidade de vida no país.
Sinal, talvez, de que a sociedade americana
tenha ingressado num estágio mais avançado e amadurecido de representatividade
identitária. Como assinalou o New York Times, Gina Hinojosa levou 20 minutos de
seu discurso de vitória como governadora eleita no Texas até referir-se ao fato
de representar os mais de 40% da população de hispânicos e latinos do estado.
Apenas o epidemiologista muçulmano Abdul El-Sayed
— que conquistou a maioria dos eleitores do Michigan para representá-los no
Senado — cedeu à tentação de um comentário feito para irritar. Em seu discurso
de vitória, demorou uma eternidade na pronúncia árabe de seu nome completo —
Abdulrahman Mohammed El-Sayed — e, dirigindo-se ao vice-presidente JD Vance,
acrescentou duas estocadas:
— Mas pode me chamar de senador, habibi.
Vance, como todo vice-presidente dos Estados
Unidos, tem a dupla função de presidente do Senado no governo Trump. E habibi é a expressão árabe para
“meu querido”.
Com Nova York, Los Angeles e Washington agora
em mãos de prefeitos socialistas democráticos, e perdas assombrosas de
republicanos em estados como Carolina do Sul ou Mississippi, restou a Trump
aceitar de pronto o resultado das urnas e distribuir correndo a
responsabilidade pelo derretimento do movimento Make America Great Again
(Maga):
— Meu nome não constava da cédula. Se
estivesse, teríamos uma vitória AVASSALADORA! — escreveu em seu perfil oficial
da rede Truth Social.
Uma semana antes, ainda repetia um mesmo
apelo em sentido oposto:
— Votem como se meu nome estivesse na cédula.
Estava. O 3 de novembro de 2026 foi um
plebiscito contra Donald Trump e seu compadrio de bilionários. Saiu cara a
vassalagem do Partido Republicano a um presidente que a História já registra
como o mais nocivo para o país e o mundo dos pontos de vista moral, militar,
constitucional e da economia global.
O primeiro a descer do barco foi seu vice.
Afoito para sair ileso como candidato republicano em 2028, Vance não esperou 24
horas para apontar a responsabilidade pela derrota do partido: a amaldiçoada
guerra desencadeada (e perdida) pela dobradinha Trump-Benjamin
Netanyahu contra o Irã. Divulgou longo arrazoado explicando a derrota em
tom de comentarista independente, como se não fosse vice-presidente do
desastre. O embaixador israelense na ONU, Danny Danon, ainda procurou salvar a
pele de Netanyahu junto à opinião americana com uma afirmação-bomba em
entrevista à rede noticiosa i24News:
— A guerra contra o Irã foi uma decisão dos
Estados Unidos.
Pelo visto, ali ninguém segura mais a mão de
ninguém.
E é bom irem se preparando para o amanhã.
Embora nenhuma liderança do Partido Democrata tenha assumido tom de vanglória e
jactância pela vitória, o devido processo da lei para apurar responsabilidades
da era Trump já vem sendo preparado. Robert Garcia, deputado democrata reeleito
pela Califórnia, deverá assumir a presidência do Comitê de Supervisão e Reforma
Governamental da Câmara em janeiro.
— Focaremos em quatro áreas com precisão de
raio laser — declarou na semana passada.
A saber: 1) análise dos crimes financeiros da
família Trump; 2) abusos cometidos pelo ICE e pelo Departamento de Segurança
Interna (vale lembrar que é do mesmo Garcia a carta endereçada ao secretário de
Estado Marco Rubio pedindo que Flávio
Bolsonaro seja imediatamente devolvido ao Brasil para responder à Justiça
brasileira); 3) corrupção corporativa da era Trump; 4) reabertura do todos os
arquivos do caso Epstein.
Cabeças rolarão (o primeiro da fila tende a ser o secretário da Defesa Pete Hegseth), outras talvez saltem com ou sem paraquedas (secretário de Estado Marco Rubio) e nem Elon Musk (o segundo maior perdedor destas eleições depois de Trump) estará a salvo do raio laser democrata. É bom não desperdiçar este momento de energia cívica criativa. Nos Estados Unidos e no Brasil após eleições de arromba, é bom livrar-se dos vícios que quase afundaram o partido vencedor.

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