terça-feira, 17 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Robôs de IA violam leis de direitos autorais

Por O Globo

De sete chatbots testados, Grok foi o mais contumaz no desrespeito a produtores de conteúdo jornalístico

O Grok, robô de inteligência artificial da xAI, de Elon Musk, violou de forma contumaz os direitos autorais de conteúdos jornalísticos em teste realizado pela reportagem do GLOBO. O teste foi aplicado com a versão gratuita de sete chatbots diferentes — além do Grok, ChatGPT (OpenAI), Gemini (Google), Claude (Anthropic), Perplexity, DeepSeek e MetaAI. Os sete foram submetidos a indagações sobre conteúdo restrito a assinantes dos jornais O GLOBO, Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e Zero Hora. Em todos os casos, o Grok entregou o texto completo escrito por colunistas, sem alterações. Em apenas um outro caso o DeepSeek reproduziu uma coluna literalmente, enquanto nos demais os robôs em geral ofereceram resumos detalhados, muitas vezes com paráfrases pouco diferentes do original. Apenas Perplexity e Claude informaram que o acesso às colunas era restrito aos assinantes ou estava bloqueado por barreira (paywall), procurando resumir fatos a partir de conteúdos abertos. A ferramenta da Meta alegou impossibilidade técnica para obter o conteúdo.

Habermas e a Reconstrução ética da economia, por Giovanni Beviláqua*

Correio Braziliense

Sob essa perspectiva, os pequenos negócios não são meras unidades estatísticas ou engrenagens de baixa produtividade; eles são, em essência, os últimos redutos do Mundo da Vida na economia.

A partida de Jürgen Habermas, em 14 de março de 2025, aos 96 anos, não representa apenas o fim da trajetória de um dos últimos gigantes da filosofia do século XX, mas marca o momento em que sua obra deixa de ser uma promessa teórica para se tornar uma necessidade prática urgente. Em um mundo fragmentado por crises de alteridade e pela tecnocracia asfixiante, Habermas nos legou a bússola da racionalidade comunicativa, uma ferramenta indispensável para quem busca repensar a economia a partir de sua base: os pequenos negócios e o desenvolvimento territorial.

O núcleo da provocação habermasiana reside na tensão dialética entre o "Sistema" e o "Mundo da Vida". Para o pensador, o Sistema — composto pelo mercado e pelo Estado — opera sob uma lógica instrumental, centrada na eficácia, no lucro e no poder. Já o Mundo da vida é o espaço da cultura, da identidade e da solidariedade, onde a linguagem serve ao entendimento e não apenas ao resultado. O grande drama da modernidade, segundo ele, é a "colonização do mundo da vida", um processo patológico onde a frieza dos números e a burocracia tentam silenciar as relações humanas espontâneas e os valores compartilhados.

Habermas e a imprensa, por Merval Pereira

O Globo

Habermas definia como dupla função do que chamava de “imprensa de qualidade” atender à demanda por informação e formação

Esfera pública é um conceito difundido pelo filósofo alemão Jürgen Habermas (falecido no sábado aos 96 anos). Define o espaço em que os assuntos públicos são discutidos pelos atores, públicos e privados, levando à formação da opinião pública, que reflete os anseios da sociedade civil, pressionando os governos. Esse conceito é fundamental para compreendermos o papel do jornalismo, que Habermas entendia como mediação entre Estado e sociedade civil. Ele definia como dupla função do que chamava de “imprensa de qualidade” atender à demanda por informação e formação.

Eleições de 2026, cenário e riscos, por Míriam Leitão

O Globo

Em pouco mais de seis meses, o Brasil irá às urnas. Será uma eleição com temas difíceis e, se a guerra continuar, a conjuntura econômica será adversa

Faltam sete meses, um pouco menos, para as eleições. É cedo para o senador Flávio Bolsonaro achar que os acontecimentos continuarão a favorecê-lo e é tarde para o governo não ter uma estratégia eficiente de campanha. Será uma eleição com temas difíceis e, se a guerra continuar, uma conjuntura adversa. A oposição já começou a manipular o assunto da classificação das facções de traficantes como organizações terroristas. Se adotada pelos Estados Unidos será perigoso para o Brasil e pode reduzir a cooperação entre Polícia Federal e FBI, mas a oposição dirá que o governo defende bandidos. O presidente Lula é o favorito nesta eleição, porém tem muito trabalho pela frente, e não haverá espaço para erros.

Os desafios da direita democrática, por Pedro Doria

O Globo

Quando alguém com o sobrenome Bolsonaro se põe em campanha, já surge com pelo menos 20% das intenções de voto

Celso Rocha de Barros, do podcast Foro de Teresina e colunista da Folha de S. Paulo, é um dos melhores analistas políticos brasileiros. Ele vem puxando, nas últimas semanas, um debate muito importante. Em sua opinião, não apareceu uma alternativa à família Bolsonaro pelo flanco direito por responsabilidade da própria direita. Para ele, quando seus principais líderes não condenam com clareza o golpismo do ex-presidente Jair Bolsonaro, não surge alternativa.

Houve resistência. O ex-governador paulista João Doria se bateu de peito aberto contra o ex-presidente. Alguns deputados federais, também. O MBL ensaiou participar de um pedido de impeachment. Agora está distante e muita gente não lembra, mas o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), foi para a rua defender o distanciamento social no princípio da pandemia. Todos os que enfrentaram Bolsonaro sofreram derrotas eleitorais acachapantes. Ou recuaram. Todos sabem que Bolsonaro não é um bom confrade político. É desleal, trai sem dó, não cumpre acordos. Não bastasse, é um paranoico que vê conspirações por toda parte. Todo mundo compreende que Bolsonaro só confia na própria família. Golpista é só um dos adjetivos que cabem a Bolsonaro.

O voo de Pegasus, os jacobinos e a encruzilhada do caso Master, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Se optar pela delação premiada, Daniel Vorcaro poderá revelar conexões entre empresários, autoridades e operadores financeiros, um strike político

A troca de advogados do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, repercute intensamente em Brasília: pode escalar ainda mais o escândalo, que envolve o sistema financeiro, autoridades públicas e o próprio Supremo Tribunal Federal (STF). O empresário passou a considerar a hipótese de uma delação premiada, sobretudo após a formação de maioria no STF para manter sua prisão, e isso deixou seus parceiros à beira de um ataque de nervos. Se isso ocorrer, atingirá o coração da República. É um homem-bomba.

A sedução de Vorcaro, por Fernando Gabeira

O Globo

Seduzir políticos e juízes para o consumo de luxo seria uma forma de viciá-los num estilo de vida do qual não poderiam mais se afastar

A festinha promovida por Daniel Vorcaro em Londres já foi muito abordada nas redes sociais. Não voltarei a ela para fazer considerações morais. Ela custou US$ 640 mil, consistiu na degustação de uísque Macallan, charutos e alguma comida. Deve ter sido financiada com dinheiro roubado aos aposentados e pequenos investidores.

Vorcaro e Mansur unidos contra a República, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

A unificação da defesa mostra que Master e Reag vão jogar juntos contra o sistema financeiro, a política, o judiciário e os reguladores

José Luis de Oliveira Lima já advogava para Daniel Vorcaro em outros processos criminais. Na sexta passou a acumular mais um caso, o do Master. Foi Vorcaro quem indicou o advogado para João Carlos Mansur em 2025 quando dono da Reag foi alvo da Operação Carbono Oculto, que investigou a lavagem de dinheiro no mercado de combustíveis.

Na Compliance Zero, operação na qual Vorcaro estreou o xadrez, Mansur foi alvo de busca e apreensão. Pesou a suspeita de que o Master atribui seu patrimônio a cotas de fundos da Reag, que, pobremente regulada pela CVM, oculta bens e valores.

Esta relação Master-Reag, Vorcaro-Mansur, agora alinhavada pelo mesmo advogado, é um desdobramento nada lateral da investigação em curso. Pierpaolo Bottini, o ex-advogado de Vorcaro, já fez delações mas é, principalmente, advogado de personagens alvos do mecanismo, desde a Lava-Jato.

Os alvos de Flávio Dino, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Aplausos ao fim de férias eternas para juízes corruptos, mas a crise do STF continua

Pode não ser assim, mas a impressão é de que só no Brasil acontecem coisas inaceitáveis, e à luz do dia, tais como desembargador corrupto ser “punido” com aposentadoria remunerada, filhas de militares serem sustentadas pelo Estado pelo resto da vida, os Poderes rasgarem a Constituição com salários acima do teto e o Legislativo se lambuzar com emendas que chegaram a R$ 31 bilhões em 2025.

Delação no clube do uísque, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Daniel Vorcaro pode delatar – não há restrição formal a que o faça, ainda que seja o líder da máfia. Pode delatar, tanto mais ante a maioria formada para que permaneça preso. O banqueiro, obstrutor da Justiça de almanaque, é a própria encarnação “do perigo da liberdade”, aquele cuja milícia – ainda ativa, segundo André Mendonça – violava sistemas para obter informações sigilosas, e cujos milhões contrataram, direta ou indiretamente, os melhores – os mais infernais – bloqueadores da República. (Não jogavam vôlei.)

Gostar do nosso país não significa gostar de quem fala em seu nome, por João Pereira Coutinho

Folha de S. Paulo

Documentário vencedor do Oscar expõe autoritarismo pós-moderno de Putin

Obra é resultado da ação de um homem comum que se recusou a viver na mentira

É uma grande alegria —e uma grande tristeza– assistir a um documentário como "Mr. Nobody Against Putin", de David Borenstein e Pavel Talankin. Mas quem quiser compreender o autoritarismo pós-moderno terá de passar por ele.

Chamo-lhe autoritarismo pós-moderno por uma razão simples: longe vão os tempos em que regimes totalitários exigiam controle absoluto ou adesão total das populações. Essa ambição jaz hoje entre ruínas. O poder aprendeu. Tornou-se mais econômico, mais ambíguo, mais sutil.

O controle é parcial, não total. A vigilância é difusa, não ostensiva. A autocensura é mais importante do que a censura clássica.

O novo autoritarismo não precisa de entusiasmo totalitário, nem de terror permanente, muito menos de uma ideologia sistemática. Precisa apenas de um verniz de normalidade e de adaptação social.

Há chance para a terceira via? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Pesquisas sugerem que eleição presidencial será mais uma vez plebiscitária

Polarização se mantém porque eleitor responde mais ao medo do que à esperança

Como sempre digo, tudo o que não é proibido pelas leis da física pode acontecer. Não sou eu, portanto, quem vai cravar que uma candidatura da chamada terceira via está fadada ao fracasso. Receio, porém, que não sejam grandes as chances de algum postulante não identificado nem com o governismo nem com o bolsonarismo romper a polarização.

Impeachment seria saída extrema para crise de confiança do STF, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Se o tribunal não tomar uma providência interna, é provável que seja obrigado a aceitar uma solução externa

Nova maioria no Senado pode levar candidatos a presidente a defender impedimento de Toffoli e Moraes

crise de confiança que assola o Supremo Tribunal Federal (STF) traz à tona um fato: o saber jurídico não é suficiente para fazer frente a circunstâncias de natureza política. É o que se depreende do desnorteio dos ministros na busca por uma porta de saída no labirinto em que se encontram.

Divergem na leitura da cena, não se entendem sobre as razões da erosão de imagem, dividem-se na escolha das maneiras de reagir. A alguns parece que seja melhor apostar no espírito de corpo, na esperança de que o tempo do esquecimento dê seu jeito. Em outros prevalece a visão realista de que a solução reside na correção de condutas.

Lula cai na real: química de Trump é explosiva, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Demandas de combate às organizações criminosas sugerem um Brasil de joelhos

Encontro dos dois presidentes em Washington pode se transformar em reality show

A química entre Lula e Trump azedou. Se é que ela chegou a existir em algum momento ou tudo não passou de jogo de cena. As demandas de combate às organizações criminosas —reveladas em reportagem de Patrícia Campos Mello— sugerem uma republiqueta de joelhos diante de um império.

Trump exige que o Brasil receba em prisões os brasileiros capturados nos Estados Unidos, sabe-se lá sob quais acusações. Como faz El Salvador. O país da América Central é governado por Nayib Bukele, o queridinho da extrema direita global, que aparelhou as instituições e negociou uma trégua —ora vejam só— com gangues de traficantes.

Givaldo Siqueira, o Giva, por Ivan Alves Filho

Com Givaldo Siqueira, pernambucano de Serra Talhada radicado desde menino no Rio de Janeiro, tive conversas pautadas sempre pelo humor e pela inteligência. Paulinho da Viola dizia ser o Givaldo o maior papo do Rio de Janeiro e com toda razão. As conversas com ele, velho dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB), iam muito além da política inclusive. O nosso querido Clube de Regatas do Flamengo, por exemplo, rendia muito assunto.

Eu me recordo que certa vez – isso se deu no início dos anos 90 – nós tivemos um encontro na Praça Mauá, no centro do Rio de Janeiro, às nove e meia da manhã e conversamos até às seis da tarde. Eu nem fui trabalhar naquele dia, e peço perdão tardio à Editora Terceiro Mundo por isso. Matei o trabalho. Acontece nas melhores famílias. Mas a causa era nobre: repassamos toda a História do Brasil, desde o período pré-colonial até a redemocratização, nada mais nada menos... 

Giva, como todos nós o chamávamos, foi um velho amigo de meu pai. Era sobrinho do grande músico José Siqueira, fundador da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB). Givaldo frequentava a nossa casa já nos anos 50, na fase do Governo JK, e me conheceu ainda guri, de calça curta. Enfrentou uma clandestinidade pesada, que durou de 1964 a 1979. Viveu em várias partes do mundo, a começar pela ex-União Soviética e pela Itália.