quarta-feira, 8 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Lula precisa conter tentação intervencionista

Por Folha de S. Paulo

Governo anuncia mais subsídios para frear preços de combustíveis; pacote deve ser, de fato, temporário

Tarefa seria menos árdua se finanças governamentais não estivessem em situação vulnerável, o que também dificulta o controle da inflação

Na segunda-feira (6), o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PTanunciou novos subsídios temporários para conter o impacto da guerra no Irã sobre os preços domésticos dos combustíveis, desta vez atingindo, além do óleo diesel, o gás de cozinha (GLP), o biodiesel e o querosene de aviação.

No mesmo dia, a Petrobras anunciou a demissão do diretor de Logística, Comercialização e Mercados, área responsável por vendas e formação de preços. Dias antes, Lula havia atacado publicamente um leilão de GLP realizado pela estatal, que resultou em ágios de mais de 100% sobre os valores costumeiros.

Direita puxa fila para desgastar Flávio Bolsonaro, por Vera Magalhães

O Globo

Candidato do PL enfrenta mais questionamentos dentro do seu campo ideológico que aqueles vindos de Lula ou do PT

Enquanto o governo e o PT catam cavaco quanto ao momento para começar a confrontar Flávio Bolsonaro, partem da direita as maiores dores de cabeça para o projeto de franquia familiar empreendido por Jair Bolsonaro a partir da Papudinha. Pelo menos duas pré-candidaturas questionam a escolha do filho Zero Um para suceder ao pai inelegível: Ronaldo Caiado, que tenta abocanhar votos daqueles que acham Flávio radical demais, e Renan Santos, que ataca o flanco oposto do senador, falando àquela fatia do eleitorado que se identifica com o discurso antissistema.

Até aqui, as pesquisas mostram pouco espaço para o crescimento de nomes que tentam evitar que já se imponha no primeiro turno a polarização estabelecida em 2018 e repetida em 2022, entre lulopetismo e bolsonarismo.

O campeão do troca-troca, Por Bernardo Mello Franco

O Globo

Campeão do troca-troca, Nelsinho Padovani escolheu sigla na última hora do prazo legal

Um em cada quatro deputados usou a janela partidária para mudar de legenda. O campeão do troca-troca foi o ruralista Nelsinho Padovani, do Paraná. Em 30 dias, ele mudou três vezes de sigla. Começou no União Brasil, migrou para o PL, passou pelo Republicanos e estacionou no PP.

“Foi uma acomodação política”, explica o parlamentar. Ele está contrariado com jornalistas que só acompanharam sua peregrinação até a penúltima parada, no Republicanos. “Não mudei duas vezes de partido. Mudei três”, esclarece.

Aeroporto é coisa de pobre, por Elio Gaspari

O Globo

Nenhum maledicente profissional seria capaz de prever que o Supremo Tribunal Federal (STF) entraria numa crise por causa da evolução patrimonial de alguns de seus ministros ou da conduta de magistrados com empresários. A bem da Justiça, vale registrar que, somados, eles formam uma minoria audaciosa, onipotente e, em alguns casos, vingativa.

Até hoje, o Supremo viveu grandes encrencas, sempre provocadas pelo que os ministros pensavam ou falavam. Agora, não importa o que pensam, mas o que fazem. Três deles — Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Kassio Nunes Marques — encalacraram-se pelo privilégio de usar jatinhos de empresários para seu conforto. Moraes e Toffoli voavam nas asas de uma empresa do banqueiro Daniel Vorcaro. Um para sair de Brasília, o outro para descansar no resort Tayayá.

A seis meses da eleição, os desafios de Lula e Flávio, por Fernando Exman

Valor Econômico

Presidente busca dar novo gás na reta final do governo; senador tenta conter exposição

A esta altura do campeonato, seis meses antes do primeiro turno, as campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL) adotam estratégias distintas. Lula não tem tempo a perder: candidato à reeleição, o presidente busca dar novo gás ao governo nesta reta final de seu terceiro mandato.

Pouco tempo se passou entre o anúncio dos ministros que decidiram concorrer a algum cargo eletivo e a nomeação dos respectivos substitutos. No entanto, há semanas se vivia no Palácio do Planalto um clima de transição, o qual, para alguns integrantes do Executivo, foi longo demais. Ainda nem está claro o papel que todos os ex-ministros desempenharão nas eleições, e agora a prioridade de Lula passou a ser o desenho de novas medidas econômicas para tentar melhorar o humor da população.

Ampliação do open finance para reduzir juros, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Medida estrutural faz parte do conjunto de ideias que o governo tem para o setor

O governo estuda ampliar o open finance para melhorar a avaliação de crédito de pessoas e empresas e, com isso, ajudar a reduzir os juros nos empréstimos. Essa é uma medida de caráter estrutural que integra o conjunto de estudos que estão em andamento no Ministério da Fazenda, com o objetivo de atacar os altos índices de endividamento.

O open banking permite que uma pessoa disponibilize seus dados aos operadores do sistema financeiro para receber ofertas de crédito, explicou à coluna o secretário de Reformas Econômicas, Regis Dudena. O open finance já foi uma ampliação que trouxe mais dados.

Notícias distópicas da guerra entre Donald Trump e os aiatolás do Irã, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Durante décadas, mesmo sob tensões, o sistema internacional operou com previsibilidade, instituições, normas e mediação. Esses instrumentos mostram sinais claros de esgotamento

“Distopia” é a representação de uma sociedade imaginária marcada por opressão, caos ou degradação extrema — um “lugar ruim”, no qual a violência, a perda de liberdade e a ruptura das normas civilizatórias se tornam regra. Mais do que coisa da literatura ou do cinema, a distopia é alerta: projeta no futuro tendências já presentes no mundo real. É aí que os acontecimentos no Oriente Médio, com a escalada retórica e militar envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irã assombram as chancelarias das grandes potências mundiais e impactam a vida das pessoas em todo mundo.

A primeira campanha eleitoral da pós-realidade, por José Vicente Pimentel*

Correio Braziliense

Um aspecto da eleição húngara que nos interessa de perto é o uso intenso de recursos de inteligência artificial (IA) na propaganda do primeiro-ministro, Viktor Orban. O baixo nível impera

No próximo domingo, dia 12, as atenções do mundo estarão voltadas para as eleições parlamentares na Hungria. Embora não tenha relevância econômica, o país se tornou um símbolo do movimento global autocrático-religioso de extrema-direita, que o seu primeiro-ministro, Viktor Orban, prefere qualificar de iliberal.

Quando o Pacto de Varsóvia se dissolveu em 1991, havia expectativas generalizadas de que a Hungria emergiria rapidamente da pobreza a que havia sido relegada pelo regime soviético. Não foi o que aconteceu. Pelas estatísticas da União Europeia (UE), ela é hoje um dos mais pobres países europeus. A produção industrial vem decaindo, o desemprego é galopante e a população vem diminuindo. Dois terços da população consideram o sistema educacional ruim ou péssimo, o sistema de saúde pública está decadente, muito em consequência da migração de médicos. Para piorar, nos últimos três anos a Hungria transformou-se no país mais corrupto da UE. Mesmo o "índice de liberdade econômica", publicado pela conservadoríssima Heritage Foundation, considera a Hungria o pior país europeu no quesito integridade governamental.

Vorcaro e o caso Tortora, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Quantos bilhões e quem o ex-banqueiro está disposto a entregar para obter a sua liberdade?

Era 17 de junho, 4h30. Em Via del Corso, em Roma, carabineiros prendiam o jornalista Enzo Tortora, apresentador de um dos programas de maior audiência da Itália: Portobello. Começava o calvário daquele que é considerado o maior erro judicial da história recente da Itália.

Quem quiser conhecer melhor essa história basta ir à HBO Max para assistir à série dirigida por Marco Bellocchio. Tortora era um Fausto Silva em seu país. Foi denunciado por dois integrantes da Nova Camorra Organizada como traficante de droga. Os bandidos precisavam entregar um nome excelente aos procuradores a fim de que lhes fossem concedidos os benefícios da delação premiada. Tortora foi a cereja no bolo dos malandros, que “confessaram” como arrependidos. Após três anos, o jornalista, que renunciou à imunidade do mandato no Parlamento Europeu para responder como simples cidadão ao processo, provou sua inocência.

Dilema machista, por Roberto DaMatta

O Estado de S. Paulo

O senhor já quis comer a mulher de um amigo? – perguntou o motorista que me levava ao aeroporto. Surpreendido, tergiversei e tentei dialogar sobre problemas muito mais fáceis de resolver, tipo: se era possível julgar casos nos quais a esposa era advogada do réu; se a última novidade no campo da corrupção era esse banco que rouba dinheiro; sobre a crise climática e a arrogância de Trump.

– Você diz trair uma amizade por machismo?

– Isso mesmo. Comer a mulher do melhor amigo. Ela me contou que o marido entrou numa seita religiosa e não comparecia mais em casa...

Vice de Trump visita Hungria e faz declaração de amor a Orbán às vésperas de eleição, por José Henrique Mariante

Folha de S. Paulo

Vance critica burocratas de Bruxelas em linha com campanha antieuropeia de primeiro-ministro

Magyar, opositor que lidera pesquisas, afirma que história húngara não é escrita por Washington

Juras de amor a Viktor Orbán e críticas aos "burocratas de Bruxelas" marcaram a visita de J. D. Vance a Budapeste nesta terça-feira (7). A presença do vice-presidente dos Estados Unidos, tentativa de dar peso internacional ao contestado primeiro-ministro, ocorre dias antes da eleição parlamentar que pode tirá-lo do poder após 16 anos.

Pesquisas de opinião colocam Péter Magyar, um ex-aliado, com vantagem superior a dez pontos percentuais no pleito de domingo (12). No X, o candidato classificou a visita de Vance de interferência externa. "A história da Hungria não é escrita em Washington, Moscou ou Bruxelas. Ela é escrita nas ruas e praças da Hungria."

Trump amarela e pode conseguir um jeito de mentir sobre a guerra para os americanos, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Ataque destrutivo contra Irã provocaria retaliação e pioraria crise do petróleo

Presidente dos EUA vai tentar fazer com que assunto da guerra 'morra', mas crise não acabou

Donald Trump arrumou um jeito de contar uma mentira em casa e, talvez, de se livrar até das consequências mais extremas da desgraça que provocou para si —crise econômica e derrota eleitoral.

Depois de ameaçar varrer o país da face da Terra, Trump recuou do quarto ultimato que deu ao Irã. Não era para valer também a exigência de "rendição incondicional", anunciada no sétimo dia da guerra.

Trump vai dizer que acabou com as armas do Irã, matou suas lideranças piores, "mudou o regime", que a guerra acabou "no prazo" (qualquer prazo). Dirá que sua ameaça de solução terminal levou o regime da Guarda Revolucionária teocrática a reabrir Hormuz, que Trump desdizia ser um objetivo de guerra. Seus ultimatos, porém, vão ser testados por todos os seus adversários e inimigos.

Quão resiliente é Flávio Bolsonaro? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Candidato do clã deverá ser questionado por esquema de rachadinha

Ele também mostra inabilidade com declarações que espantam eleitor moderado

Quão resiliente é Flávio Bolsonaro? A resposta a essa pergunta será decisiva na disputa eleitoral. O primogênito de Jair Bolsonaro herdou os votos e a rejeição do pai, mas não foi ainda, enquanto ser autônomo, submetido ao teste de estresse.

A lista de passivos do postulante do PL é densa. Ele foi flagrado num insofismável esquema de rachadinha, que os mais preciosistas chamam de peculato. Desdobramentos do esquema incluiriam lavagem de dinheiro numa franquia da loja de chocolates da Kopenhagen e a compra de uma mansão em Brasília com valor acima de seus rendimentos oficiais.

Saia do rebanho político, ouse pensar por si mesmo, por Wilson Gomes*

Folha de S. Paulo

Em meio à patrulha ideológica, pensar por conta própria tornou-se um ato de resistência

A vida pública se transformou em uma sucessão de testes morais e alinhamentos forçados

Se você já não aguenta mais gente patrulhando cotidianamente a sua opinião, exigindo-lhe um posicionamento moral explícito sobre qualquer coisa como condição para decidir se você presta ou não, se já não suporta militante apertando a sua mente e forçando a sua mão, você não está sozinho. Há muitos brasileiros como você —e me incluo entre eles— sentindo-se como a bola de um pinball político alucinado, arremessada para lá e para cá, à procura de uma saída em meio a tanto barulho e histeria.

A guerra no estreito de Ormuz está chegando aqui, por Aylê-Salassié Filgueiras Quintão*

Dá para ficar tranquilo diante da guerra no Golfo Pérsico? Não dá. O Brasil importa cerca de 20% do petróleo produzido na região, além do que 70% dos fertilizantes usados na agricultura (42 milhões de toneladas), 30% passa pelo Estreito de Ormuz. São mais de 10 milhões de toneladas. Como efeito da guerra, Putin resolveu suspender por um mês, renovável por mais um, as exportações desses insumos. No Brasil essa interrupção cai justamente na época de plantios. Significa, portanto, que a safra brasileira de grãos, projetada para 354 milhões de toneladas, que supre o mercado interno e torna o Brasil um dos principais produtores de grãos do Planeta, corre sérios riscos de ter, em 2026, uma menor produtividade e, em consequência, uma redução significativa da produção. Não sei se pode faltar alimentos, mas tudo tende a ficar mais caro.

Nossas raízes democráticas, por Vagner Gomes

Livro resenhado: MAESTRINI, Alexandre Müller Hill. Nossas riquezas pretas: biografias afro-juizforanas. Juiz de Fora (MG). EDITAR. 2025.

Disponível gratuitamente aqui: 

https://institutoautobahn.com.br/index.php/nossas-riquezas-pretas-jf/

Pode-se dizer, então, que desde o seu parecer antiprotecionista, Rebouças começara a aproximar a Alemanha do seu quadro de referência, concedendo-lhe uma densidade ética comparável à da aristocrática Inglaterra e, por via de consequência, ao yankismo que preconizava para o Brasil. Rebouças mudaria também a sua definição de Estado: a qualificação do Estado como “gendarme” das “classes feudais” seria alterada pelo reconhecimento da multiplicidade de interesses abrigados sob o Estado modernizador do século XIX. (…)

Maria Alice Rezende de Carvalho – O Quinto Século: André Rebouças e a Construção do Brasil, p. 207.