segunda-feira, 24 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Parar pente-fino no Bolsa Família foi um equívoco

Por O Globo

Em ano eleitoral, União fechou acordo com defensoria e interrompeu visitas necessárias a coibir fraudes

O governo errou ao fechar acordo com a Defensoria Pública da União (DPU) suspendendo até 1º de julho do ano que vem a obrigatoriedade de visita residencial para concessão ou manutenção do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) a quem afirma morar sozinho. A exigência foi estabelecida em maio do ano passado, diante das evidências de fraudes na classificação de famílias como unipessoais para ampliar a quantidade de benefícios recebidos em uma mesma residência. A DPU entrou com processo contra a União alegando haver suspensão de benefícios sem ter havido visita. Em vez de aceitar o acordo com a DPU que preserva o caminho para as fraudes, o governo deveria ter reforçado o pente-fino por meio da checagem presencial.

Por que o debate da Band foi o pior das eleições presidenciais desde 1989, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Esvaziado pelos ausentes e avacalhado pelos presentes, encontro será lembrado por um vice dormindo enquanto seu candidato falava

Esvaziado pelos ausentes e avacalhado pelos presentes, o debate da Band foi possivelmente o pior encontro de presidenciáveis já transmitido pela TV brasileira.

À frente nas pesquisas, Lula e Flávio Bolsonaro já haviam informado que não compareceriam. No domingo, Romeu Zema surpreendeu ao se juntar ao boicote.

Dos seis convidados, restaram três, que por pouco não se reduziram a dois.

O psiquiatra Augusto Cury já estava na portaria da Band quando deixou repórteres perplexos ao avisar que daria meia-volta para casa. “Vocês não percebem a minha mágoa?”, perguntou.

O desafio de Caiado, Renan Santos e Augusto Cury no debate era se destacar, mas todos falharam miseravelmente, por Vera Magalhães

O Globo

Embate não muda polarização, apesar de ausências

Lula e Flávio Bolsonaro devem ter respirado aliviados ao fim do debate da Band, realizado em pool com outros veículos. O nível da discussão foi tão pobre que o eleitor de ambos teve razões de sobra para trocar uma decepção com a ausência dos favoritos por uma solidariedade com sua decisão.

O desafio de Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury era se tornarem conhecidos para, no decorrer da campanha, quem sabe, despontarem como uma terceira via possível diante da polarização bastante consolidada. Nesse sentido, falharam miseravelmente.

O show de Renan para a machosfera, as pílulas de autoajuda lançadas por Cury e uma mal ajambrada coletânea de realizações de seu governo em Goiás produzida por Caiado não chegaram, em nenhum momento, a configurar um debate de fato, em que os candidatos —a presidente da República! — formulassem propostas viáveis para problemas concretos do país e dos eleitores.

Obrigação do cumprimento de cotas contamina a sociedade, por Miguel de Almeida

O Globo

Reparação histórica tem criado conflitos que precisam ser resolvidos, sem paixão

No espaço de três meses, a política de cotas raciais voltou a causar conflitos e processos judiciais. Criada inicialmente em âmbito estadual (Rio e Bahia) em 2001, expandida para a Universidade de Brasília (UnB) em 2004 e nacionalizada por Dilma Rousseff em 2012, ela visava a garantir acesso de Pretos, Pardos e Indígenas (PPIs) aos cursos superiores. Como argumento, a “reparação histórica” aos grupos sacrificados desde a chegada dos europeus ao Brasil.

As esquisitas comparações do ministro Dino, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O mau jornalismo pode trazer notícias erradas ou ofender. Mesmo assim, na democracia não pode haver censura prévia

Em sessões no STF e nas suas redes sociais, o ministro Flávio Dino produziu uma série de comparações entre o exercício de profissões para relativizar a liberdade de expressão do jornalista e a garantia do sigilo da fonte. Seu objetivo era demonstrar que a prática do jornalismo exige que o profissional tenha um diploma de jornalista.

São comparações, digamos, esquisitas. Disse o ministro em sessão do Supremo:

— O direito de ir e vir implica que qualquer pessoa possa pilotar um avião? Ou o direito à saúde autoriza que qualquer um receite remédios? E o direito de defesa permite que qualquer cidadão exerça a advocacia?

Socialismo tributário, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

Não estamos diante de uma mera irresponsabilidade fiscal. Trata-se de um projeto de dominação do Estado sobre a sociedade

O Brasil, sob o governo Lula III, vive em um círculo vicioso que parece não ter fim. Embora tenhamos a coloração dinástica do III, procurando repetir a dose num Lula IV, forçoso é reconhecer que ele pouco se parece com Lula I, graças a uma administração competente das finanças públicas sob as batutas de Antonio Palocci e Henrique Meirelles. É como se pertencesse a outra casa monárquica. Todavia, ele parece ser um êmulo de Dilma I e II, que quase levou o País à bancarrota. Aliás, por uma questão de coerência, deveria ser a ex-presidente convidada para ser ministra da Fazenda, pois seus discípulos neste governo, apesar de tentarem, não estão completamente à sua altura.

EUA exigiram subordinação, e o Canadá recusou, por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

Novas tarifas impostas pelo governo Trump ao país vizinho atingem, sobretudo, pequenas e médias empresas

As novas tarifas de Donald Trump foram “feitas para nos machucar e nos dividir…. os EUA estão tentando nos quebrar para poder nos possuir. Isso nunca, jamais, vai acontecer.” disse Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, no sábado, 22 em Ottawa, poucas horas depois de as tarifas estadunidenses de 50% entrarem em vigor sobre uma longa lista de produtos canadenses, que atinge sobretudo pequenas e médias empresas do país.

Carney, ex-presidente do Banco do Canadá e do Banco da Inglaterra, que construiu a carreira inteira sobre a arte de escolher palavras que não movam mercados, adotou um tom mais duro: “Você está em guerra quando é atacado. E nós fomos atacados.”

Por que o número de candidatos caiu? Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Redução da demanda por cargos públicos expõe novas dinâmicas do sistema político-eleitoral brasileiro

Iniciada a campanha eleitoral e publicada a relação dos registrados por todos os partidos, um fato chamou a atenção: pela primeira vez desde pelo menos 1998, o número de candidatos caiu.

Em outubro, 20.712 brasileiros tentarão obter um mandato eletivo para os próximos quatro ou, no caso de senador, oito anos. Trata-se de uma redução significativa de 29,2% em relação à eleição passada, que contou com a participação de 29.262 concorrentes.

A conta fiscal do próximo presidente, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

Santo Graal entre os economistas é anunciar um ajuste fiscal forte o suficiente para fazer o investidor cobrar um prêmio de risco menor para carregar a dívida pública

Os juros que o governo paga na sua dívida estão muito altos, e é um consenso entre os principais candidatos a presidente da República - incluindo Lula-- de que será preciso um ajuste fiscal. Qual o tamanho do problema? Depende, em grande parte, da opinião de cada um sobre as causas dos juros altos.

Se a visão é de que a taxa de juro está alta sobretudo por questões fiscais, então o tamanho do ajuste nas contas públicas pode ser até menor - por mais estranho que possa parecer - caso seja anunciado um plano forte o suficiente e com credibilidade.

Convenções que já não decidem, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Cada vez mais a escolha dos candidatos tem passado longe das convenções

Decisões antes tomadas por uma instância coletiva ficam nas mãos de um pequeno grupo

Idas e vindas na definição de candidaturas ganharam destaque no noticiário recentemente. Dois exemplos são o senador mineiro Cleitinho, do Republicanos, cuja candidatura ao governo atravessou sucessivas reviravoltas, e o ex-prefeito de Maceió JHC (João Henrique Caldas), do PSDB, que ora concorreria ao Senado, ora ao governo. E as indefinições sobreviveram às convenções partidárias.

As convenções, realizadas entre 20 de julho e 5 de agosto, deveriam ser o momento em que os partidos decidem não apenas se lançarão candidatos, mas quem serão eles.

Quando os árbitros entram no jogo: o jantar da desordem institucional, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

STF não responde à crise com autocontenção, mas com uma confusão ainda maior entre jurisdição e política

Moraes assume também o papel de articulador político entre Lula e Alcolumbre, em plena campanha eleitoral

O escândalo do Banco Master pareceu provocar no STF um instinto de autopreservação. A magnitude das revelações e a reação da opinião pública teriam aparentemente convencido seus ministros de que era necessário conter excessos e restaurar a credibilidade da corte. A proposta do presidente Edson Fachin de criar um código de ética foi interpretada como sinal, ainda que tímido, desse movimento.

Os acontecimentos recentes mostram que essa expectativa era ilusória.

Jantar realizado na residência de Alexandre de Moraes reuniu o presidente da República, o presidente do Senado e os ministros Moraes e Cristiano Zanin. A cena, concebida como demonstração de pacificação, é, na realidade, uma representação exemplar da desordem institucional brasileira.