domingo, 13 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

O Supremo diante da História

Por O Globo

Corte tem de autorizar já investigação de Moraes — e repelir as manobras protelatórias

Na sessão plenária de terça-feira, dia 15 de setembro, o Supremo Tribunal Federal (STF) tem um encontro marcado com a História. Sob a presidência do ministro Edson Fachin, a Corte decidirá se a lei vale para todos ou se existe alguém acima dela. Na pauta, a decisão sobre se o ministro Alexandre de Moraes pode ser investigado — não julgado, nem sequer processado, apenas investigado. O motivo: 52 mensagens encontradas pela Polícia Federal (PF) no telefone celular de Daniel Vorcaro, possivelmente o maior fraudador da História do sistema financeiro nacional.

A eleição na Alemanha, a crise do Supremo e a desesperança na democracia, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A insegurança jurídica adia investimentos, interrompe decisões empresariais, contamina as expectativas econômicas e aumenta a frustração social e política

A vitória da extrema direita na Saxônia-Anhalt, estado da antiga Alemanha Oriental, é mais um sinal de que a democracia liberal enfrenta uma crise que ultrapassa fronteiras. A Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve cerca de 44% dos votos, mais do que o dobro da União Democrata-Cristã (CDU), de centro-direita, e ficou próxima da maioria absoluta. O partido continuará afastado do governo pelo Brandmauer — o “muro corta-fogo” que impede alianças das forças democráticas com extremistas —, mas já condiciona toda a política alemã.

A contradição é evidente: a barreira político-partidária protege as instituições, mas não impede o crescimento eleitoral da AfD. A extrema direita não precisa negociar, moderar suas propostas nem prestar contas pelos resultados de um governo. Denuncia a todos, promete soluções impossíveis e responsabiliza àqueles que lhe impedem o acesso ao poder. O fenômeno possui causas econômicas, sociais e culturais. A estagnação, a desigualdade entre o Leste e o Oeste alemães, a imigração, a transição energética, a guerra da Ucrânia e a perda de referências comunitárias criaram um contingente de eleitores que não se sente representado. Continuam votando, mas já não acreditam que as instituições tradicionais sejam capazes de melhorar suas vidas.

Terremoto no Supremo, por Míriam Leitão

O Globo

A crise no STF está longe do fim, mas o ministro Luiz Edson Fachin deu corajosos passos na direção certa, a da mais ampla transparência possível

Soterrado por muitos gigabytes de informação, o Brasil tenta entender o que está acontecendo enquanto caminha para as urnas, dentro de três semanas, numa eleição diferente de todas as outras. Não há programas, não há ideias, nada. O debate incandescente é o Supremo Tribunal Federal. A crise está longe do fim, mas o ministro Luiz Edson Fachin deu corajosos passos na direção certa, a da mais ampla transparência possível.

A corrupção de Daniel Vorcaro espalhou-se, e atingiu mais fortemente alguns atores. O ministro Alexandre de Moraes está cercado por uma montanha de dúvidas e a maior delas é sobre o seu futuro na Corte. A previsão é ele assumir a presidência do STF daqui a um ano. O ministro André Mendonça é acusado de selecionar politicamente alvos de investigação, poupando outros, e continuar fazendo isso até na quebra de sigilo.

Brasíliada, por Merval Pereira

O Globo

Desde a Operação Lava-Jato, que teve no decano, ministro Gilmar Mendes, seu principal defensor durante anos, e depois seu algoz, a guerra no STF teve início.

A noite era de confraternização, embora não saísse da cabeça de todos à mesa a crise em que vivemos. A ameaça era evidente: éramos 13 à mesa. Um dos convivas, talvez notando a inconveniência, passou mal e se retirou. Uma festa familiar, diga-se de passagem, nada parecida com a das Astronautas, ou aquela em que havia 120 mulheres para 20 homens, onde o futuro do país era discutido entre vinhos caros, charutos mais ainda e só entre os homens, porque as mulheres eram estrangeiras, suíças, escandinavas, não poliglotas, para não entenderem o que os homens tramavam. Meio cafona, mas era assim que funcionava.

Ministros do STF deveriam ler Madame Satã, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Em busca de argumentos para defender o indefensável, vale consultar a lendária entrevista do malandro da Lapa ao Pasquim

Madame Satã era o apelido do transformista João Francisco dos Santos, figura mitológica da Lapa na primeira metade do século passado. Malandro e destemido, não recusava uma briga. Somou 27 anos de cadeia antes de inspirar livros, filmes e peças de teatro.

Madame Satã é o nome de uma casa noturna da cena underground de São Paulo. Nos últimos dias, notabilizou-se como cenário de uma farra promovida por Daniel Vorcaro. Pivô da maior fraude financeira da História do país, o banqueiro corrompeu a República com propinas, viagens e bacanais.

Dez escorpiões numa garrafa, por Elio Gaspari

O Globo

Não há um fiapo de política pública separando Alexandre de Moraes e André Mendonça

O Supremo atravessou ditaduras sem maiores crises e em 2026 meteu-se na maior encalacrada de sua história. Se pudessem ser isolados os atritos produzidos por choques de egos ou surtos de onipotência, sobraria muito pouco da crise. Não há um fiapo de política pública separando Alexandre de Moraes e André Mendonça. Moraes até hoje não explicou sua relação com o então banqueiro Daniel Vorcaro e Mendonça já chamou Jair Bolsonaro (que o indicou para o STF) de “profeta”.

Para se ter uma ideia do ritual monárquico que enfeita o cotidiano das excelências, os ministros são servidos por funcionários denominados “capinhas” que têm, entre outras funções, a de puxar a cadeira para que eles sentem ou levantem. (Um ministro explicou que esse serviço é necessário porque a toga enrosca nas rodinhas da cadeira. Vá lá.)

Narcisismo patológico de Trump é um perigo, por Dorrit Harazim

O Globo

Uma das fantasias mais recorrentes e irrealizáveis do 47° comandante em chefe é apresentar-se como herói militar

Peter Baker não é um jornalista qualquer. Correspondente-chefe do New York Times junto à Casa Branca, ele traz no currículo a cobertura diária de seis presidentes dos Estados Unidos. É autor de vários livros sobre o poder e a história política moderna e, vez por outra, produz ensaios situando determinados mandatos em contextos mais amplos. Raramente se ocupa de temas amenos do métier. Daí a relevância da reportagem intitulada “60 postagens em 10 horas”, em que Baker se debruça sobre um surto quase psicótico de publicações digitais por parte de Donald Trump no fim de semana passado.

O arco conservador nas Américas, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Enquanto Marco Rubio costurava em Bogotá, Quito e Lima um arco andino de governos alinhados a Donald Trump, o Brasil assistia à debacle moral do Supremo. Não é uma confluência feliz: os Estados Unidos intensificam drasticamente sua projeção de poder no hemisfério, quando o Estado de Direito no Brasil expõe fissuras em sua esfera de decisão última.

Na Colômbia, Abelardo de la Espriella quer reatar a parceria de segurança rompida por Gustavo Petro. Pediu drones, radares e inteligência, prometeu retomar a fumigação da coca e lançou um “Plano Patriota”.

No Equador, a aliança já estava em vigor. Daniel Noboa abriu espaço para operações conjuntas contra o narcotráfico. Rubio ofereceu US$ 45 milhões e embarcações. O país, corredor da cocaína entre Colômbia e Peru, virou laboratório da política americana.

Democracia e ideal republicano, por Pedro S. Malan

O Estado de S. Paulo

A visão política surge do encontro oportuno entre uma nova realidade social, ideias aptas a captá-la e líderes capazes de estabelecer a ligação entre ideia e realidade

A mais bela defesa do ideal democrático que conheço é aquela de Norberto Bobbio: “Apenas em um regime democrático são possíveis a aceitação e o elogio da diversidade; o reconhecimento da legitimidade e da fecundidade dos conflitos de razão e de interesse; a absoluta liberdade de opinião; o ideal da tolerância; o ideal da não violência. Apenas em democracias é possível livrar-se de governantes sem derramamento de sangue e resolver conflitos sem o recurso à força. Apenas em democracias é possível a renovação gradual da sociedade pelo livre debate de ideias e pela mudança de mentalidades. Apenas em democracias é reconhecida a necessidade de antepor limites ao poder, mesmo quando esse poder é o da maioria que o conquistou pela força do voto”.

Inflação recua, mas ainda falta PIB mais dinâmico, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Não haverá crescimento mais veloz enquanto os setores público e privado mantiverem uma aplicação miseravelmente baixa em infraestrutura, máquinas, equipamentos e instalações produtivas

Comer, morar, acompanhar o mundo pela TV e assistir a novelas – tudo isso ficou mais barato em agosto, quando o custo de vida recuou 0,32%, puxado pelas despesas com alimentação (0,34%), habitação (-1,87%) e eletricidade (-7,63%). Milhões de famílias endividadas e pressionadas pelos juros pouco devem ter percebido essas melhoras, mas suas finanças – pelo menos objetivamente – ganharam alguma estabilidade. É difícil apostar se essa condição persistirá até dezembro ou, num quadro muito mais otimista, se ainda se manterá no início do novo mandato presidencial, em 2027.

O triste fim de um ‘xerife’, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Se a cabeleireira pegou 14 anos por pintar uma estátua, qual a pena para quem enlameia a Justiça?

A decisão que o Supremo Tribunal Federal está prestes a tomar, na próxima terça-feira, é doída, sim, mas de uma simplicidade desconcertante: se, em tese, qualquer cidadão pode ser investigado por suspeita de ter cometido desvios, por que não Sua Excelência Alexandre de Moraes? Se julgado culpado, que seja condenado. Se não, inocentado. Pelo menos, deve, ou deveria, ser assim...

O que, definitivamente, os ministros da Corte não podem fazer é ignorar os 134 milhões de motivos para uma investigação. Para tentar salvar Moraes, um caso perdido, ao custo de esgarçar sem conserto a credibilidade do Supremo, desmoralizar as instituições e, tudo junto e combinado, impactar a eleição presidencial sem retorno?

Sem precedente, crise no STF esvazia campanha presidencial, por César Felício

Valor Econômico

Noticiário sobre possível envolvimento de ministros da Corte com Vorcaro jogou atenção nas mídias para plano secundário e, em graus diferentes, atinge os seis principais candidatos

A crise dentro do Supremo Tribunal Federal (STF), que poderá ter seu ponto alto nesta terça-feira (15), com a deliberação em plenário sobre a abertura ou não de investigação contra o ministro Alexandre Moraes, esvaziou a campanha eleitoral. O noticiário sobre o possível envolvimento dos ministros da Corte com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, jogou para um plano secundário de atenção nas mídias eventos de impacto eleitoral óbvio, como por exemplo a sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que eliminou a chamada “taxa das blusinhas”. A crise já havia desconcentrado o Congresso Nacional, que prometera na primeira semana de setembro um esforço concentrado que poderia ter aprovado a PEC que acaba com a escala 6 por 1 de trabalho, outra iniciativa de apelo eleitoral que poderia beneficiar o governo.

Flávio e Moraes receberam a mesma grana do mesmo esquema, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

O fim do sigilo do inquérito do Master vai explicar quais candidatos estão envolvidos no escândalo

Se as suspeitas forem verdadeiras, senador e ministro são cúmplices

Se as acusações contra Flávio Bolsonaro e Alexandre de Moraes forem verdadeiras, os dois foram cúmplices.

É estranho, eu sei.

Flávio Bolsonaro é filho do maior criminoso da história do Brasil. Alexandre de Moraes foi o juiz que prendeu o pai de Flávio por seu segundo pior crime, a tentativa de golpe de 2022 (o maior foi o assassinato em massa durante a pandemia).

É possível que o filho do bandido e o juiz que o prendeu estejam no meio da mesma mutreta?

Ao que parece, sim.

Flávio e Moraes ganham apoios de quem tem memória e ideias seletivas sobre democracia e república, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Revolta justa contra ministro abafa o caso do candidato da 'rachadinha' e do Rio podre

Um vazamento pode decidir a eleição, temem ou esperam lulistas e bolsonaristas

Manifestos de empresários e da "sociedade civil", associações de gente bem-situada na vida, pedem "transparência" no Supremo. Sob muitos aspectos, têm razão. Pela decência básica, ao menos dois ministros do STF estariam com o pé na cova judicial. Sob outro aspecto, a revolta é seletiva, assim como vazamentos, inquéritos, juízes, a memória etc.

Esquece-se da história de Flávio "Página Virada" Bolsonaro, investigado por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Perto do passado dele, o que se sabe por ora do dinheiro para financiar as artes da família, o "Dark Horse", ainda é fichinha.

A ascensão violenta da mentira, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Erro, momento falso na construção da verdade, é questão lógica; mentira, não, é fenômeno ético, de alcance filosófico

Fenômeno assume dimensão muito grave quando passa da esfera individual ao Estado

Na última conversa com TrumpLula retificou mais um despropósito que contamina relações comerciais e diplomáticas: as mentiras deslavadas sobre desmatamento (diminuiu 50% desde 2022) e trabalho escravo (há combate às condições degradantes da mão de obra). Fake news, portanto, nenhuma novidade na história das agressões imperiais. É de memória viva a mentira de Bush sobre armas nucleares no Iraque, pretexto para uma guerra que arruinou aquele país.

Os fatos, mais que os ataques, vão ditar o rumo dos independentes, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

As campanhas têm margem ínfima de manobra para tentar tirar Lula e Flávio da situação de empate

O presidente achou que o senador seria o adversário mais fácil de derrotar, mas a prática desmentiu a tese

Três semanas neste Brasil de sobressaltos é muito tempo. Seis, então, equivalem à eternidade. É o que nos separa dos primeiro e segundo turno das eleições gerais.

Daqui até lá vão acontecer muitas coisas, dentre as quais nada indica que estará a alteração do quadro de disputa entre Luiz Inácio da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).

Na fotografia das pesquisas, Lula ainda aparece à frente; o filme, contudo, conta outra história: a distância se estreita e, em algumas delas, Flávio chega a inverter a linha da liderança.

Múltiplo Ismael, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Difícil dizer o que era mais fascinante em Ismael Nery, se a obra ou a vida

Seu objeto eram homens e mulheres andróginos, belíssimos, de sedução letal

Se as exposições permitissem que, ao se admirar um quadro, se pudesse ver também através dele e enxergar o artista, poucas seriam tão surpreendentes quanto "Ismael Nery: Armadilha Moderna", em cartaz na Pinacoteca do Estado de São Paulo. É um dos casos agudos em que não se sabe quem é mais fascinante, se a obra ou o autor. O fascínio em Ismael Nery (1900-1934) é a dificuldade de defini-lo, por suas muitas e inesperadas aptidões. Ele era especial em todas.