sábado, 10 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Brazil, o Filme

Por CartaCapital

A continuação da distopia prestes a entrar em cartaz 

Sam Lowry é o herói acidental de um país inoperante, regido por ordens desconexas de uma burocracia obtusa emitidas por computadores obsoletos. Enquanto uma elite cafona se esbalda em festas nababescas na cobertura, tal qual os irmãozãos de Daniel Vorcaro, o couro come nas ruas. Funcionário do quarto escalão de uma repartição pública, oprimido pela mãe dominadora, Lowry acaba confundido com um terrorista ao se apaixonar por uma mulher “suspeita”. Para a sua sorte, ou azar, o Estado que o persegue é incompetente e indolente. Por isso, mais perverso.

O que aconteceu com os jovens? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Esquerda se institucionalizou e deixou campo da rebeldia livre para a ultradireita

Distanciamento afetivo dos horrores do totalitarismo reduz defesas contra a radicalização

Uma das possíveis explicações para o mau desempenho de Lula (PT) no primeiro turno é que ele perdeu apoio entre os eleitores mais jovens. Pesquisas mostraram que o petista, que antes mantinha confortável vantagem sobre Flávio Bolsonaro (PL) nas faixas de 16 a 34 anos, viu sua dianteira estreitar-se mais perto do pleito. Numa disputa acirrada, esses votos fizeram diferença.

Não é só no Brasil. Jovens, notadamente homens, abraçando posições da direita radical foram um fator relevante para as eleições de Javier Milei na Argentina e de José Antonio Kast no Chile. Não é só na América Latina. Jovens também passaram a engrossar as fileiras da ultradireita nos EUA, França, Alemanha, Espanha etc. Até duas décadas atrás, jovens eram, no Ocidente, um público quase cativo da esquerda. O que aconteceu?

A ascensão política de pautas antifeministas é uma ameaça às mulheres? Sim, por Flávia Biroli*

Folha de S. Paulo

Estratégia promove projetos autoritários e normaliza violências e desigualdades

Movimento rende frutos em tempos de expansão de ideologias anti-igualitárias e de avanço da extrema direita

É preciso avaliar concretamente a atuação política das mulheres. Qual trajetória as levou à política e de que modo ganharam visibilidade? Quais interesses representam? Quais são as consequências do que fazem quando têm espaços e recursos de poder?

Isso significa evitar duas armadilhas. A primeira é a idealização. Os estereótipos de gênero alimentam visões de que as mulheres seriam menos ambiciosas. Podem comportar-se assim, o que decorre tanto de incentivos presentes na socialização diferenciada de mulheres e homens quanto de desincentivos. Entre estes estão obstáculos históricos à participação na esfera pública, resultantes de sua responsabilização pelo trabalho de cuidado, da seletividade de instituições como partidos políticos e de valores machistas.

Esquema bolsonarista define eleição no Rio, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Douglas Ruas nem precisava de canetada do TSE e confusão armada por Garotinho

Impactado por votos na Baixada Fluminense, pleito virou um negócio de família

No Rio de Janeiro, a política é um negócio de família. O método genealógico –uma tradição na história brasileira, basta lembrar dos Andradas de Minas Gerais, que atuam desde antes da declaração de independência do país –domina as relações de poder na atual sociedade fluminense, aí incluídas as igrejas evangélicas e as milícias.

A partir de 2018 o clã Bolsonaro –em torno do qual gravitam os clãs menores– instalou no estado uma espécie de novo chaguismo, sistema baseado no uso da máquina e no desvio de dinheiro dos cofres públicos para a compra de votos e a obtenção de imbatível vantagem eleitoral.

Mais uma vez à beira do abismo, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Mal saímos do primeiro turno e já temos um rol de preocupações sobre o futuro para administrar. Bem-posicionado nas pesquisas e muito confiante de sua vitória, Flávio Bolsonaro não tem tido pudor ao anunciar suas pretensões para quando se assenhorar da cadeira da presidência da república. Não há, aqui, espaço para o engano, as propostas são claras e merecem toda a nossa atenção.

A mais alarmante de todas é o desejo explícito de mudar a constituição para torná-la, segundo o candidato, "mais democrática". A ambição não é impossível: depois de eleger a maior bancada de deputados federais e de senadores, o Partido Liberal irá despontar como força parlamentar na próxima legislatura, tornando mais desafiadora a defesa das agendas mais associadas à esquerda progressista. O Brasil, ao que parece, vai mesmo "endireitar", o que deveria ser motivo de angústia para trabalhadores, mulheres e demais grupos vulneráveis.

Poder e saber, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Será necessário Lula mergulhar numa autocrítica rigorosa, calçar as sandálias da humildade e enxergar a realidade, reatualizando os saberes. Se Flávio Bolsonaro for eleito, ficará na difícil posição do líder que pode mais do que sabe

O eleitorado brasileiro decidiu aposentar a geração de 1988. Esse time foi para casa. Seus últimos representantes são José Sarney e Luiz Inácio Lula da Silva. Um, curado de uma pneumonia aos 96 anos, faz ginástica todos os dias, está distante da política. O outro, aos 81 anos, tentou sem sucesso a recondução à Presidência da República no primeiro turno. Junto com eles, mais de 30 nomes expressivos na política foram mandados para casa. Foi um massacre.

Puxador sem time não enche bancada, por Amanda Vitoria Lopes*

Correio Braziliense

Em 2026, 19 chapas de partidos e federações perderam ao menos uma cadeira por falta de candidatos com votação mínima. Em 2022, foram 52

A federação PSol/Rede elegeu seis deputados federais por São Paulo em 2026. Pelo quociente partidário (QP), poderia ter elegido nove. Erika Hilton com seus 1.596.472 votos, teria a capacidade de garantir a eleição de três candidaturas da federação. Mas só seis candidatos da chapa passaram do mínimo exigido para ocupar uma vaga. O sétimo, Raul Marcelo, ficou 3.702 votos abaixo do piso. Três cadeiras que a federação tinha votos para ocupar foram para outros partidos.

As distorções do sistema eleitoral para o Congresso, por Marcus Pestana

Há uma semana, encerramos o primeiro turno das eleições gerais de 2026. Ainda teremos a segunda rodada da presidencial e para governador, em alguns poucos estados. Foram eleitos 54 senadores e 513 deputados federais. Houve um expressivo crescimento do Partido Liberal, que abriga o bolsonarismo, com a eleição de 121 deputados e a formação de uma bancada de 28 senadores, quase um terço das cadeiras. A esquerda elegeu 124 deputados, quatro a menos do que em 2022, e perdeu uma cadeira no Senado Federal em relação ao que é hoje, terá 15 senadores. A bancada dos partidos situados ao centro do espectro político é que cederam maior espaço. Portanto, qualquer que seja o presidente da República eleito, Flávio Bolsonaro ou Lula, haverá a exigência de um grande esforço político para formar uma base de apoio estável e sólida para o novo governo. Aí, aparece a primeira distorção, a desconexão entre as eleições presidenciais e as parlamentares. Elegemos um presidente, mas não construímos, no próprio processo eleitoral, as condições de governabilidade, ou seja, maioria parlamentar.

Sempre um alento, por Flávia Oliveira

O Globo

Soa como música que acalma o Nobel da Paz concedido a Navi Pillay

Em tempos de multilateralismo despedaçado, conflitos alongados, misoginia galopante, soa como música que acalma o Nobel concedido a Navi Pillay. O comitê foi explícito ao reconhecer os esforços da jurista sul-africana para “promover a paz e o Direito Internacional”. Não deixou de notar que a ex-alta comissária das Nações Unidas para Direitos Humanos e ex-presidente do Tribunal Penal Internacional, uma advogada que lutou contra o apartheid e denunciou genocídio, hoje com 85 anos, enfrentou na trajetória profunda discriminação, segregação e exclusão. Ainda assim, não perdeu a coragem nem esmoreceu na luta por justiça e dignidade humana. Não por acaso, a secretária-geral da Anistia Internacional, Agnès Callamard, que estava com Navi na Alemanha quando ela soube do prêmio, disse que a escolha foi inspiradora.

Corra, Lula, corra, por Eduardo Affonso

O Globo

Faltam 15 dias para o segundo turno, Lula, e você tem um forte adversário pela frente. Não o que pretende anistiar golpistas e retomar, talvez piorado, o pior governo da nossa história. Você precisa derrotar é o que subiu a rampa em 2023 com gay, mulher, indígena, portador de deficiência, criança — e não aumentou a representatividade feminina, negra ou LGBT em cargos de relevância, não melhorou a educação, não pôs fim à tragédia ianomâmi. O do triplex, das gafes machistas, do mensalão, do petrolão. O das promessas não cumpridas, dos sigilos de cem anos. O que bancou a candidatura de um poste e nos jogou numa recessão. O que apostou no antagonismo entre ricos e pobres, católicos e evangélicos, pretos e brancos — e cujos seguidores quase nos fizeram acreditar que a classe média é odiosa, o ecumenismo é uma ilusão, pardos e mulatos são uma alucinação coletiva.

Antes fosse, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

“Menos Janja e mais Alckmin.” Esse mote – produto da semana de lavação explícita de roupa suja – resume, reúne a campanha de Lula inteira. O “menos Janja” é uma impossibilidade. Janja é o governo que se pretende reeleger. Diagnosticou-se, por exemplo, que a campanha falhara na gestão das redes sociais, envelhecida. Solução: mais janjismo cultural, de imediato inundadas as postagens de Lula com as selfies-consultorias da juventude psolista. Para falar com o eleitor que Lula já tem.

Antes o problema principal fosse de forma. Quer-se atrair o eleitor de Renan Santos com discurso identitário. Quer-se conquistar o eleitor de Augusto Cury com texto woke. Quer-se baixar o índice de abstenção assim.

As eleições e o futuro como desafio, por Marco Aurélio Nogueira

Revista Será?

Entre decepções, surpresas e lamentações, as urnas do primeiro turno impactaram a vida política brasileira. Como interpretá-las?

Os resultados trouxeram perigos e alertas para os atores da política democrática brasileira. Nas eleições legislativas, a maioria formada pelo PL (Bolsonaro) na Câmara e no Senado foi um dado chamativo. Os demais partidos oscilaram. A maioria saiu-se mal, com a exceção do PSOL, que teve bom desempenho e elegeu uma bancada competitiva na Câmara. Já nas eleições para a Presidência, o campo democrático – representado por Lula, pelo PT, pelo PSDB, Rede e Cidadania, além de pedaços do chamado “Centrão” e dos liberais que prezam a democracia — sofreu uma inesperada derrota.

Lula III, o legado, por Paulo Gala

CartaCapital

O governo é marcado pela expansão das transferências de renda, o pleno emprego e o desafio da reindustrialização

A avaliação do desempenho econômico do terceiro mandato do presidente Lula comporta um diagnóstico relativamente claro. O controle das contas públicas pode ser considerado razoável, sobretudo quando comparado aos anos anteriores. Os déficits primários ficaram, em média, abaixo de 1% do Produto Interno Bruto por ano, patamar inferior ao observado durante o governo Temer e o início da gestão Bolsonaro. Esse dado costuma ser ofuscado no debate público, que tende a tratar a política fiscal do período como sinônimo de descontrole, mas os números do resultado primário não sustentam essa leitura.

A democracia em risco novamente, por Pedro Serrano

CartaCapital

A extrema-direita no Congresso seria amplificada com Flávio Bolsonaro, pois teríamos dois dos Poderes capturados por forças golpistas

Os resultados verificados nas eleições parlamentares do último dia 4 de outubro acendem um alerta vermelho para a democracia no Brasil. A ocupação pela extrema-direita de grande parte do espaço político no Legislativo, que vinha sendo preenchido pelo chamado Centrão e pela direita mais moderada, constitui um perigo para o Estado Democrático de Direito. Afinal, Câmara e Senado passarão a ser dominados por uma força política disruptiva, que já tentou um golpe de Estado há relativamente pouco tempo. Ainda é cedo para prever o desfecho das eleições presidenciais. O presidente Lula é um grande líder popular e, sendo pequena a diferença de votos, é ainda possível reverter o resultado desfavorável. Mas é preciso apontar que o risco à democracia já instalado pela nova composição do Congresso certamente seria amplificado com a vitória de Flávio Bolsonaro, uma vez que teríamos dois dos Poderes da República capturados por essas forças golpistas.

Bolsonarismo e sociedade de massa, Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Os seus adeptos encarnam o “homenzinho” fascista, ansioso por autoridade, mas rebelde

Os trancos e barrancos do comportamento dos seguidores do projeto bolsonarista despertam suposições as mais divergentes, quando não disparatadas, a respeito dos verdadeiros propósitos – ou falta deles – incrustrados no espírito do homem-massa.

A leitura obsessiva de alguns autores irreverentes instigou minha resistência a oposições binárias. Isto ou aquilo? Prefiro a forma “isto e aquilo”. É a estratégia da loucura, o desvario finalista e inconsciente de um certo tipo de gente que deambula nos espaços sociais criados pela sociedade capitalista de massa.

O enterro de uma farsa, por Jamil Chade

CartaCapital

Após o fluxo contínuo de fake news sobre as urnas eletrônicas, Donald Trump elogia o sistema eleitoral brasileiro 

Por anos, ouvimos de bolsonaristas a mesma ladainha: as urnas eletrônicas não são confiáveis. Numa operação que contaminou a credibilidade do processo eleitoral brasileiro, a extrema-direita passou anos conspirando contra a democracia e disseminando a desinformação sobre supostas fraudes no sistema de contagem de votos no Brasil. Numa delas, em 2022, Jair Bolsonaro reuniu embaixadores estrangeiros para apresentar uma suposta denúncia contra as urnas no ­País­, um gesto que lhe valeu a inelegibilidade. Em julho, em mais uma tentativa de alimentar a polêmica, o bolsonarismo convocou para uma live o consultor argentino Fernando Cerimedo, atualmente preso na Bolívia, para promover um ataque às urnas.