quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Lula usará a sua força popular para garantir a governabilidade? Por Pedro Neiva*

Correio Braziliense

Lula pode mobilizar apoio público para aumentar o custo político da resistência parlamentar e melhorar suas condições de negociação

Depois da vitória do presidente Lula no domingo, a pergunta que fica é: como irá governar com um Legislativo dominado pelo Centrão e pela extrema-direita? Será ele um “pato manco” ou será capaz de fechar a sua biografia de forma triunfante? Difícil dizer com certeza, mas podemos especular. 

Desde os anos 1990 até 2014, o país vinha sendo governado por meio de uma composição governamental baseada na distribuição de ministérios e cargos entre os partidos e na execução de emendas orçamentárias de interesse dos parlamentares. A forma centralizada de funcionamento do Congresso em torno das lideranças partidárias permitia que o presidente negociasse a sua agenda com as bancadas partidárias, e não com os deputados individualmente. A iniciativa exclusiva do presidente em determinadas matérias, a solicitação de urgência legislativa e a possibilidade de editar medidas provisórias completavam o quadro, dando ao Poder Executivo a capacidade de pautar e acelerar a sua agenda no Congresso.

Fuga de Flávio é problema para a direita e para Lula, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Senador repete pai e irmão, agindo como culpado de crimes enquanto alega sofrer perseguição política

Aliados serão obrigados a optar entre solidariedade e distância; episódio pode gerar crise com os EUA

Dois dias após receber 59.826.041 votos, credenciando-se como ator central da direita brasileira, Flávio Bolsonaro comportou-se como culpado dos crimes pelos quais é acusado, optando pela fuga e pela fácil retórica da perseguição política.

O senador pelo PL do Rio fez jus ao sobrenome. No penúltimo dia como presidente da República, seu pai Jair embarcou para um autoexílio conveniente nos Estados Unidos, tendo fracassado em arregimentar os militares para dar um golpe e fingindo nada ter a ver com a intentona bolsonarista do 8 de Janeiro.

Depois, já bafejado pela condenação inevitável no julgamento daquela trama, cumprindo medida cautelar, Bolsonaro protagonizou o inacreditável episódio em que tentou romper sua tornozeleira eletrônica com um ferro de solda e escapulir da prisão domiciliar.

Flávio, o mártir do pau oco, quer criar nova revolta dos Bolsonaros contra o 'sistema', por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

No padrão da família, candidato derrotado foge da polícia e quer subverter política

Fuga lança tumulto nas fileiras da oposição a Lula 4 e inspira adeptos da 'direita cheirosa'

A fuga de Flávio Bolsonaro dá o que pensar sobre o destino da oposição a Lula 4 e sobre a montagem de um projeto da direita para 2030. Talvez os Bolsonaros se façam de mártires da desdemocratização do Brasil, de vingadores dos oprimidos pelo "sistema", mote fundamental da família e das extremas direitas.

Podem meter os pés pelas mãos se tentarem, com sucesso, apoio do governo americano para campanha qualquer contra o Brasil. Por exemplo, Donald Trump poderia aceitar um processo de asilo político para os Bolsonaros. Diria assim que o regime brasileiro não é democrático, que persegue politicamente cidadãos. Pelo meio do caminho, haveria sanções, políticas ou comerciais.

Lula ganhou a eleição e agora precisa reconquistar a classe C, por Renato Meirelles

Folha de S. Paulo

Petista ganhou porque, diante de Flávio, pareceu a escolha mais segura

Presidente deu motivo ao eleitor para não trocar o certo pelo duvidoso, mas o quarto mandato precisa oferecer mais do que a opção menos arriscada

Há 25 anos ganho a vida escutando os brasileiros. Em cada eleição, aprendo alguma coisa que não cabe no questionário. A deste domingo me lembrou uma lição antiga: é possível reclamar do governo, desejar mudanças e, diante da alternativa, decidir continuar com o presidente. Foi o que fez uma fatia decisiva da classe C. Sem entusiasmo, somando a rejeição ao adversário à segurança de quem já sabe o que tem em casa.

Escutei muita impaciência com Lula. O preço da feira não voltou ao que era, a dívida não desapareceu e o medo de andar na rua continua. Nada disso sumiu na cabine de votação. Mudou a comparação. No primeiro turno, quando Flávio terminou na frente, bastava ao eleitor descontente manifestar a insatisfação, e o bolsonarismo era o endereço mais à mão. No segundo, ele precisava decidir quem colocaria no lugar de Lula.

Final feliz? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Lula escapou de encerrar carreira perdendo para o pior dos Bolsonaros

Próximos quatro anos não serão fáceis e definirão biografia do petista

Ao conquistar seu quarto mandato, Lula foi abençoado ou amaldiçoado pelos deuses da política? A resposta não é óbvia, e não apenas porque o futuro é contingente.

Atribui-se a Sólon a máxima segundo a qual, diante das reviravoltas da vida, não podemos afirmar que uma pessoa foi feliz até que ela tenha morrido. Divirjo de Sólon. Imaginemos um indivíduo que tenha vivido 80 anos desfrutando de todos os prazeres carnais e intelectuais e em pleno êxtase moral, mas que, em seu último dia de existência, tenha sido torturado e depois degolado. Penso que, objetivamente, pelas métricas mais razoáveis, esse homem foi mais feliz do que infeliz. Falamos de 29.220 dias de bem-aventurança contra algumas horas de dor. Reconheço, porém, e aí convergindo com o sábio grego, que, para efeitos biográficos e de narrativa, finais fazem toda a diferença. E política é narrativa.

País deu recados ao governo e à oposição, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Primeiro turno foi um aviso a Lula, e o segundo alerta à direita sobre malefícios de se atrelar ao bolsonarismo

Antiguidades como fascismo e comunismo não estiveram em disputa na cabeça do eleitorado pragmático

A cena eleitoral de 2026 desenhou com nitidez a escrita de que o segundo turno é uma outra eleição. O primeiro foi um aviso de insatisfação do eleitorado ao presidente Lula (PT); o segundo enviou à direita um recado sobre os malefícios de se manter agarrada ao pé da mesa da família Bolsonaro.

Se o campo que se fortaleceu nos governos estaduais e no Legislativo insistir em lançar desconfiança sobre o resultado das urnas e ficar preso a anistias de golpistas, pode perder o bonde, o controle da agenda e desperdiçar a vantagem no Congresso.

Flávio fujão, por Mariliz Pereira Jorge

Folha de S. Paulo

Tique-taque soa como bomba-relógio; em fevereiro, senador fica sem costas quentes pela primeira vez em 24 anos

País só vai recuperar a sanidade quando essa família for varrida da política pelo voto e pela lei

Fugiu, desapareceu, escafedeu-se. Para Flávio, o Bolsonaro mais corrupto, era isso ou cadeia o que restava. No domingo, derrotado, engrossou a voz para anunciar que pediria anulação do resultado. Na segunda, intimado a entregar os passaportes, gravou vídeo jurando patriotismo: jamais pensara em deixar o país. Na terça, segundo aliados, já está na Flórida com a família, com asilo garantido.

Para que serve a polarização? Por Roberto DaMatta

O Estado de S. Paulo

No domingo, com o seu voto, você ajudou a adormecer uma forma de polaridade: a oposição, burramente vista no Brasil como irreconciliável, entre a direita e a esquerda. Este dualismo, em tese, impede de maneira estúpida qualquer colaboração. Hoje, porém, com um novo presidente eleito, essa polarização terminou para dar lugar a uma oposição que a esquerda e a direita escamoteavam, a saber: a oposição entre a centralidade dos poderosos que vão para os palácios e a situação dos perdedores que são relegados à periferia. Agora, tranquilos, sabemos quem são os mandões e quem são os mandados. Ou seja, voltamos a viver a oposição rotineira entre os que detêm o poder e aqueles que devem se submeter a ele. Recuperamos a concepção tradicional de autoridade e, assim, restauramos o velho reino imperial iniciado com d. João VI e continuado pelos golpes, ditaduras e governos demagógicos.

Mais Alckmin, menos Janja, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

O sentimento de vários analistas é de que Lula precisa mudar a postura dos últimos quatro anos

No calor do desfecho da eleição presidencial, no domingo à noite, ao ser perguntado sobre o que esperava da política econômica no quarto mandato de Lula, um renomado economista foi lacônico: “Mais Alckmin, menos Janja”. A conversa parou por aí, mas resumiu o sentimento de vários analistas de que o presidente reeleito precisa mudar a postura dos últimos quatro anos, quando deu ouvidos às opiniões das lideranças do PT em detrimento do que esperava a coalizão de centro que o ajudou a derrotar Jair Bolsonaro em 2022.

Fuga de Flávio abre disputa na oposição, por Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

Presidente é aconselhado a ignorar rival e anunciar medidas para conter crescimento de despesas; petista não acredita em nova intentona golpista

A fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL) para os Estados Unidos abre uma disputa acirrada pelo comando da oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reeleito para o quarto mandato. Até agora, o PL não definiu quem exercerá esse papel e há uma briga nas fileiras do bolsonarismo pelo espólio político de Jair Bolsonaro.

Embora o mandato de Flávio termine em 31 de janeiro de 2027, data em que perde o foro por prerrogativa de função, ele próprio anunciou, um dia após a derrota para Lula, que irá “organizar” a oposição ao governo. A portas fechadas, aliados de Flávio dizem que os senadores eleitos Michelle e Carlos Bolsonaro, ambos do PL, não têm esse perfil. Os dois, aliás, nem se falam.