terça-feira, 6 de abril de 2010

Reflexão do dia – Fernando Henrique Cardoso

Com relação a sua pergunta sobre como vejo as esquerdas, nos anos 50, 60, o eixo fundamental que se tinha era a União Soviética. Esse era o paradigma. Havia ali uma transformação grande do pensamento original marxista para a ideia do partido que toma conta do Estado e socializa os bens de produção. Democracia não se discutia, não era tema. E passou esses anos todos sem ser discutida. Claro, houve uma crise da Europa, antes do final do regime soviético, introduzindo certa abertura para a ideia de democracia como valor, sobretudo entre os italianos. Tanto na Europa como aqui, líamos e falávamos em Gramsci, embora não fosse a linha dominante. Já no final dos anos 80 vem a queda da União Soviética e, antes mesmo disso, nos 70, a globalização já estava em marcha, com seus saltos tecnológicos, a comunicação, a internet, etc. Naquele momento, vi a formação do PT. Estava-se fazendo um partido de trabalhadores no sentido proletário, o que não se sustentava, pois a concepção de que aquela classe iria transformar a história estava desaparecendo. Por ter feito essa crítica, à época, me chamavam de "policlassista". A verdade é que o PT nasceu de três vertentes: a católica, que vinha dos movimentos sociais de base, a guerrilheira/ideológica e a dos sindicalistas. Hoje, prevalece a dos sindicalistas. A vertente católica foi se esvaecendo e a ideológica perdeu peso também. Na prática, o PT vira um partido social-democrata no governo, absorvendo as transformações do mundo. Mas por que mantenho a minha crítica? Porque permanece essa luta contra a ideia de globalização e contra o que se chama de "neoliberalismo". Hoje, o governo do PT se orgulha das multinacionais brasileiras que se globalizaram e até dá dinheiro para isso. Só que, na teoria, a coisa é diferente: os documentos do partido mantêm até hoje a mesma visão antiga. O fato é que o Brasil ganhou com a globalização. Virou Bric. O que precisa agora é haver uma crítica da própria elite da esquerda, uma crítica teórica, porque, na prática, essa esquerda no poder já está fazendo até demais (risos). Há também essa defesa da "democracia plebiscitária" do Chávez, essa ideia de que se você tiver o consenso da massa tudo se justifica. É risco para a democracia.


(Fernando Henrique Cardoso, no debate Aliás, domingo, em Estado de S. Paulo)

A hora do artifício::Dora Kramer

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Encerrada a fase das despedidas, começa a semana das festas que marcam o início das campanhas ainda sem os candidatos oficialmente escolhidos. Depois disso se inicia o período mais perigoso de todos: dois meses de limbo, até as convenções de junho.

Os candidatos ainda não são candidatos, já deixaram os cargos importantes que ocupavam, precisam se manter em atividade permanente e diária. Só que descontando jornalistas e políticos, ninguém mais está pensando 24 horas em eleições.

Se você tem candidatos ocupando cargos no governo é uma coisa. Há a cobertura natural decorrente das atividades governamentais. Quando voltam à planície, é necessário que seus movimentos sejam jornalisticamente interessantes. Natural, então, que cada um se empenhe em assegurar presença no noticiário.

A Advocacia-Geral da União tem o entendimento de que Dilma Rousseff pode participar de eventos oficiais do governo federal como convidada do presidente Luiz Inácio da Silva. Isso não quer dizer que a Justiça Eleitoral entenda da mesma forma. A AGU é governo.

Ainda que não possa andar junto do presidente, por alguns dias Dilma estará garantida como convidada de convenções de partidos da base aliada e até do PT em vários Estados.

O mesmo vale para Serra e eventos organizados pelo PSDB e aliados. Os dois principais candidatos sempre terão repórteres junto deles. Atrás da foto mais original, da frase mais inusitada e da tolice mais saborosa ou da explosão de temperamento mais reveladora. A questão é: há eficácia real na formação do conhecimento sobre os atributos de cada um dos candidatos na cabeça do eleitor nessa fase ou a entressafra cumpre apenas um roteiro malfeito da Lei Eleitoral?

A rigor, não existe campanha. Não pode haver debates. O programa eleitoral só começará em agosto. E até lá o que fazem? De substancial para o público muito pouco.

A campanha para o eleitor será no segundo semestre. Até agora o que se viu foi campanha para arrumar a vida de partidos e candidatos.

Um duro danado. A Advocacia-Geral da União vai ter trabalho para convencer a Justiça Eleitoral de que o presidente Lula exercerá suas atividades de campanha fora do expediente de trabalho.

Ele mesmo estabeleceu a premissa de que a prioridade de governo agora é eleger Dilma Rousseff.

Isso posto, avisou que quem quiser derrotá-lo terá de "acordar mais cedo".

Quer dizer, já começa o dia em campanha. No horário do expediente, portanto.

Quando chama para si a disputa, se põe na condição de candidato de fato impossibilitando na prática a separação das figuras do presidente e do cabo eleitoral.

Pelo modelo que vem adotando dificilmente deixará de se licenciar do cargo mais à frente para poder continuar ajudando Dilma sem ficar tão vulnerável a ações judiciais.

Quando surgiu a notícia sobre a licença semanas atrás, o presidente negou, dizendo que isso equivaleria a desqualificar a candidata. Daria a impressão de que ela por si não seria capaz de conquistar o eleitor. Ocorre que tanto Lula quanto Dilma derrubaram esse argumento na cerimônia de despedida da ministra do governo.

Lula, ao convocar o adversário à luta direta com ele, transformando a candidata em sujeito oculto da eleição; Dilma, ao se referir 28 vezes num único discurso ao "senhor" de sua plataforma presidencial.

Sem acordo. O presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra, nega qualquer possibilidade de acordo com o PT para evitar ações na Justiça Eleitoral. Guerra diz que procurou o presidente do PT, José Eduardo Dutra, para falar sobre as greves de funcionários públicos de São Paulo e pedir ajuda para contenção dos radicais.

Dutra se dispôs a atuar "na medida do possível". Aproveitou para abordar o assunto da "judicialização" da política, mas, segundo Guerra, não pediu ao PSDB que evitasse recorrer à Justiça. "Até porque não adiantaria. Nossas relações políticas são civilizadas, mas a Lei Eleitoral é assunto dos advogados."

Duas ou três palavras:: Janio de Freitas

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Nenhum presidente, ou outra personalidade, diminuiu-se jamais por descer no Brasil ou nos EUA de um avião fretado

Promovido a imbecil pela sempre refinada conceituação crítica de Lula, reconheço sem modéstia que os seus anos de governo não foram capazes de me mudar em nada. Não só porque refratário a todo tipo de propaganda que em vez de informar quer tapear e seduzir. Mas sobretudo por ter concluído, já nos primeiros dos sete anos, que Lula só pode ser entendido a partir do olhar que, a seu ver, caracteriza dos imbecis.

"Eu lembro a imbecilidade daqueles que criticaram quando eu comprei um avião", dizia ele pela Bandeirantes no domingo. "Era uma vergonha para este país andar de avião alugado", repugnava-se, conta agora, a sua opinião de aristocrata.

Pois bem, tive a impressão de que Lula agiu naquele momento como um deslumbrado lamentável, e de lá para cá só pude constatar que não se tratou de uma fraqueza de momento, mas de deslumbramento tão imbuído quanto os seus ressentimentos raivosos e indisfarçáveis.

A atitude de um presidente responsável e homem digno, naquelas circunstâncias, seria comprar um avião de porte adequado às pistas interioranas, supondo-se que a compra fosse mesmo necessária. E dar ao país a alegria de ouvi-lo dizer que a diferença de preço e gastos permanentes, em dezenas de milhões de dólares, teria melhor aplicação na obra de novos hospitais, escolas e casas. E fazer a compra na Embraer, em reconhecimento e em promoção da indústria brasileira mais reconhecida no exterior do que aqui. Para as viagens internacionais, ficaria muito apropriada a solução de tantos países mais ricos e importantes, de aviões fretados.

Nenhum presidente, ou outra personalidade, diminuiu-se jamais por descer no Brasil ou nos Estados Unidos de um avião fretado. Nem mesmo de um avião comercial, como há poucos dias fizeram o rei e a rainha da fabulosa Suécia. Só a incapacidade de perceber o que é a verdadeira importância pode imaginar humilhação e vergonha no uso de um avião fretado por um presidente. E com essa elevação intelectual obrigar o país e sua pobreza a custearem um avião de voos internacionais, com manutenção caríssima, para voar quase sempre de Brasília a São Paulo ou Recife, a Natal ou ao Rio, viagens de duração entre curta e curtíssima.

A imbecilidade continua a considerar que Lula agiu com irresponsabilidade, em desconsideração ao seu dever cívico e com a dignidade pessoal substituída pelo deslumbramento, como todos, primariamente ilusório. Falo pela imbecilidade que me cabe, mas com a suspeita de que tem companhias também desinteressadas de motivações políticas. Não há dúvida, porém, de que o avião do deslumbramento foi a escolha ideal para quem é capaz de chegar ao Oriente Médio dizendo-se portador do espírito da paz.

No extremo oposto à propriedade verbal com que Lula qualificou os críticos de seu deslumbramento aéreo, e aéreo em muitos sentidos, o Vaticano elegeu uma palavra abominável como qualificativo das denúncias de abusos sexuais por prelados. Mesmo na missa papal de Páscoa, o decano do Colégio de Cardeais, Angelo Sodano, repetiu que são apenas "pequenos fuxicos". Ou, como traduzido no noticiário, "fofoquinhas". É o insulto em cima do crime. E a impiedade disfarçada de insulto.

Cultura? :: Carlos Vereza

DEU EM O GLOBO

"Quando ouço falar em cultura, sinto vontade de puxar o revólver"
(Goebbels, ministro de Propaganda do III Reich)

Por que os ditadores e governantes com tendências autoritárias odeiam a cultura e os significados que ela expressa? De acordo com o senso comum, "cultura seria tudo o que é produzido pelo homem, o que o difere dos animais".

Poderíamos ampliar a definição e sugerir que cultura abrange desde o pensamento filosófico mais sofisticado até as manifestações mais populares, como literatura de cordel, procissões religiosas, carnaval, internet, todos os meios de comunicação etc.

Acredito que cultura define o rosto de um país e só pode manifestar-se em toda plenitude em regimes democráticos.

Diria também que cultura é um processo que denota um padrão de significados incorporados aos símbolos de um país e historicamente transmitidos.

Especificamente no Brasil, todas as manifestações culturais - exceto o carnaval e o futebol - encontram-se relegadas a um solene desprezo da parte dos órgãos governamentais.

Motivados por um equívoco ideológico ultrapassado, não se investe em pesquisa de ponta, laboratórios são depredados pelo MST subsidiado pelo governo, o sistema educacional está completamente ultrapassado, e um viés arbitrário insinua-se, como o retorno da censura aos meios de comunicação.

Os Goebbels tupiniquins há muito já sacaram suas armas, em ataques verbais sistemáticos à imprensa - como sempre, a vilã da História.

Consequentemente, como não existe um projeto de construção de uma nação, com a cidadania resgatada como valor maior, o que nos resta é a eterna frustração de um país condenado a um futuro eternamente adiado.

Carlos Vereza é ator.

Ao lado de Serra

DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

Denise Rothenburg

O candidato tucano à Presidência da República, José Serra, contará com a presença de alguns peemedebistas históricos na festa que o PSDB promoverá em Brasília no próximo sábado para a apresentação da candidatura: o senador Jarbas Vasconcelos (PE) e o ex-governador de São Paulo Orestes Quércia. Jarbas está na Tailândia e a informação no ninho tucano é a de que voltará direto para participar do lançamento do nome de Serra. Quércia marcou presença em várias inaugurações ao lado de Serra nos últimos dois meses em São Paulo. Agora, quando se recupera de uma cirurgia de hérnia de disco, também pretende estar em forma para acompanhar o candidato.

A presença maciça de integrantes do DEM e do PPS, partidos que se manifestaram a favor da candidatura de Serra, já era esperada. Mas havia dúvidas quanto aos peemedebistas. Não está descartada nem mesmo a presença de um grupo de quercistas para animar a festa e, ao mesmo tempo, mostrar que Michel Temer, candidato a vice na chapa da petista Dilma Rousseff, não tem a predominância sobre o PMDB de São Paulo.

Enquanto os tucanos cuidam da política e da presença de aliados, o candidato prepara o discurso em que apresentará as linhas gerais de seu programa de governo. Aproveitará para mostrar uma roupagem mais nacional, sem deixar de se referir às realizações enquanto governador de São Paulo. Ele baterá firme na tecla da experiência administrativa e política, como pré-requisitos para implantar no Brasil os projetos que desenvolveu no plano estadual.

Serra também pretende deixar claro em sua fala que, em todos os cargos que ocupou, nunca desmontou o que funcionava — um recado para mostrar que não pretende acabar com programas do governo Lula, caso do Bolsa-Família. Não está decidido, mas há quem diga que ele deve falar de algumas “obras de vento”, ou seja, projetos inaugurados ou anunciados pelo governo, mas que não saíram do papel ou são apenas um canteiro sem obras.

O candidato deve participar hoje da posse oficial do novo governador de São Paulo, Alberto Goldman. O restante da agenda de hoje entretanto está em aberto, por conta da insistência de Serra em trabalhar no seu discurso com antecedência. Ele quer evitar o que aconteceu na semana passada, quando deixou o governo de São Paulo. O discurso feito no meio da tarde tinha sido concluído às 7h. Embora Serra goste de dormir tarde, não dá para repetir a dose em Brasília, uma vez que a festa no Centro de Convenções Brasil XXI está prevista para começar às 10h.

PT leva a aliança, mas não o partido

DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

Em São Paulo, Pernambuco, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, Temer encontra dificuldades em colocar o PMDB no palanque de Dilma

Josie Jerônimo

O PT ganhou a aliança com o PMDB, mas corre o risco de não levar o apoio maciço prometido pelo partido. Nem mesmo após a saída do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, do páreo pela vaga de vice na candidatura de Dilma Rousseff (PT) à Presidência, o deputado Michel Temer (SP) consegue reunir o partido. O PMDB está rachado: pelo menos cinco importantes diretórios estaduais — que reúnem 40% do eleitorado — anunciaram posição contrária à aliança do PMDB com o PT e negam apoio ao nome de Temer como vice.

Se Temer for confirmado como vice de Dilma, o PT ficará sem a prometida adesão de “porteira fechada” à candidatura petista. Até agora, três correntes despontam no partido.

Nomes da cúpula do PMDB que foram contemplados com ministérios ou receberam auxílio direto do governo federal mostram-se fiéis a Dilma, mas peemedebistas que sempre tiveram proximidade ou governaram com líderes tucanos não vão mudar de lado e já desembarcam na campanha de José Serra (PSDB-SP). Em São Paulo, Pernambuco e Santa Catarina, os peemedebistas Orestes Quércia (presidente do PMDB de São Paulo), o senador Jarbas Vasconcelos e o ex-governador Luiz Henrique da Silveira anunciam apoio a Serra (veja quadro ao lado).

Votação interna

No caso do Paraná e do Rio Grande do Sul, os peemedebistas que não querem fechar com os tucanos e não apoiam Temer saíram pela tangente da candidatura própria, engrossando fileiras na aventura de Roberto Requião (PMDB-PR). Os “rebeldes” do partido afirmam que a convenção pode desgastar Temer, demonstrando que ele não tem maioria na sigla para se cacifar como vice de Dilma.

De acordo com o senador Pedro Simon (PMDB-RS), um dos defensores da candidatura própria, a cúpula da legenda vai “empurrar com a barriga” para que a votação interna só se realize no fim de junho. “Os ministros do PMDB vão pressionar. A cúpula do partido apoia, mas a realidade é nos diretórios. É como dizia o Tancredo Neves, voto secreto dá uma vontade de trair”, disse Simon.

Levantamento interno realizado pela Fundação Ulysses Guimarães indicou que 531 dos 800 delegados não apoiam o nome de Temer para vice de Dilma. O racha do PMDB, para o ex-ministro e pré-candidato ao governo da Bahia, Geddel Vieira Lima, não será um problema para o PT. Os petistas contam com a atuação interna do próprio Michel Temer para resolver os impasses regionais que minam a aliança nacional. “O Temer já era o vice antes da saída do Meirelles, ele tem papel de balizador nas questões regionais. Os rebeldes não têm tamanho na convenção e não existe unanimidade em nenhum partido”, afirmou Geddel.

Os cenários

Confira as três opções de alianças do PMDB para as eleições de outubro


Com Dilma

O PT anuncia como alianças já estabelecidas os cenários do Rio de Janeiro, Paraíba e Mato Grosso. O governador Sérgio Cabral (PMDB-RJ), no entanto, está chateado com o flerte de Dilma com o PR do arqui-inimigo Anthony Garotinho. Os ex-ministros Hélio Costa (Minas Gerais) e Geddel Vieira Lima (Bahia) acenam como aliados fiéis de Dilma para a disputa deste ano, pois não têm chance de aproximação com tucanos em seus estados.

Com Serra

Em pelo menos três estados, a ala rebelde do PMDB já anunciou que não cederá à aliança nacional do partido com o PT e oferecerá palanque a José Serra. Luiz Henrique Silveira deixou o governo de Santa Catarina e entregou o cargo ao vice, o tucano Leonel Pavan. O PMDB de Santa Catarina é Serra. Em São Paulo, o presidente do PMDB no estado, Orestes Quércia, reforça a ala serrista do partido. O senador Jarbas Vasconcelos comanda em Pernambuco a corrente a favor do tucano.

Candidatura própria

Os peemedebistas que não concordam com o nome de Temer para vice de Dilma encontraram na defesa da candidatura própria o mote para evitar escolher entre apoiar o presidente da sigla ou o candidato tucano. Os diretórios do Rio Grande do Sul e do Paraná levam a sério o desejo de Roberto Requião para que seu nome seja analisado como possível candidato do PMDB à Presidência da República na convenção do partido. Os defensores da candidatura própria afirmam que os delegados do partido podem surpreender e rejeitar aliança com o PT. Requião deixou o governo do Paraná para concorrer ao Senado.

PSDB cobra de Dilma biografia de tesoureiro

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), aceitou desafio feito pela pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff em entrevista ao Estado -, de trazer o debate ético para a campanha eleitoral. Guerra cobrou da ex-ministra que começasse esclarecendo o "dossiê dos aloprados" e a biografia do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, ligado à Bancoop.

Presidente do PSDB reage a Dilma e cobra "biografia do tesoureiro do PT"

Christiane Samarco, Eugênia Lopes

BRASÍLIA - O presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), aceitou desafio da pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, de trazer o debate ético para a campanha eleitoral. Ele cobrou da ex-ministra que começasse esclarecendo o "dossiê dos aloprados", o mensalão do PT e a biografia do tesoureiro do partido, João Vaccari Neto.

O caso dos "aloprados" - conforme a definição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva - está ligado ao falso dossiê de corrupção que seria usado contra candidatos tucanos nas eleições de 2006. O PSDB também quer explicações sobre o caso Bancoop, a cooperativa habitacional que deu calote em vários associados e que era dirigida por Vaccari.

Em entrevista publicada ontem no Estado, a ex-ministra disse que o PT não se assusta com a discussão ética proposta feita pelo pré-candidato do PSDB à Presidência, José Serra, ao fazer balanço de sua gestão em São Paulo. "Esse debate é muito bom para a gente", afirmou a petista.

Cheque. "Temos que conhecer melhor a biografia do Vaccari, que, na condição de tesoureiro do PT, assina o cheque para pagar o aluguel da casa da candidata", afirmou Guerra. "Esse discurso de desonestidade intelectual é marca registrada deles", reagiu o deputado Arnaldo Madeira (PSDB-SP).

Como Dilma questionou a competência de Serra à frente do Ministério do Planejamento, no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, os tucanos saíram em defesa de seu pré-candidato. Para o PSDB, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) é versão piorada do Avança Brasil, que começou a ser desenvolvido na gestão de Serra, batizado de Brasil em Ação.
"Esse conceito, completamente correto e estratégico, foi abandonado pelo populismo eleitoral do PAC da ministra, que não tem nem cronograma nem realização; só tem propaganda", disse Guerra.

A oposição entende que "a mãe do PAC" deve explicações sobre as "graves irregularidades" apontadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU) em várias obras do PAC, como a refinaria Abreu e Lima. Para o presidente nacional do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), o PAC não é bem planejado, uma vez que sua execução é baixa. Ele afirmou que o Planejamento não é atividade-fim, diferentemente da Saúde onde a gestão Serra apresentou resultados concretos.

Planalto. Após a primeira reunião do presidente Lula com os dez novos ministros, o governo deu uma demonstração de que não vai deixar sem resposta os ataques da oposição. O escalado para isso foi o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, que saiu do encontro repetindo o discurso de Dilma.

"O PSDB e o DEM não têm moral para vir falar sobre tema ético do governo do presidente Lula. Temos o que mostrar sobre a aliança PSDB e DEM". Padilha acrescentou: "Se os tucanos quiserem fazer o debate ético, é ótimo. Queremos enfrentar esse debate sobre a ética. Temos o que mostrar, o que o nosso governo fez no combate à corrupção, na Controladoria-Geral da União, na Polícia Federal, e o que foi feito pelos governos anteriores."

A primeira parte da reunião ministerial foi aberta para que o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, apresentasse a cartilha sobre como todos devem se comportar nas eleições para evitar problemas com a Justiça. Lula aproveitou para determinar que a AGU mantenha um canal aberto para que ministros possam consultá-la caso tenham dúvidas.

Depois de Adams, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, em tom professoral, lembrando sua experiência no Tribunal Superior Eleitoral, advertiu os colegas sobre os cuidados que devem ter neste período por causa da falta de clareza da legislação, que permite cada juiz interpretá-la à sua maneira. A advertência de Jobim foi tão forte que o vice-presidente José Alencar, com seu jeito mineiro, reconheceu que "é preciso ter cautela". Mas Alencar avisou aos novos ministros, tentando tranquilizá-los, que não podem ter medo: "Tem de enfrentar a campanha porque, se ficar com medo, não tem campanha."

Serra manda recados musicais

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

No Twitter, citou ópera, que fala de "homens que se creem deuses", e Caetano, com "há de vingar"

Roberto Almeida

Agora ex-governador de São Paulo e pré-candidato do PSDB à Presidência, José Serra disse via Twitter que tirou o primeiro fim de semana fora do cargo "para reorganizar a vida e voltar para casa". "Hora de parar tudo e acertar as coisas", afirmou. Mas, pelo que mostram seus outros tweets, sábado e domingo não serviram só para "se acertar", mas também para se inspirar.

A sensação, segundo Serra, é de "alea jacta est", ou seja, de que a sorte está lançada. Para aproveitar o momento, tudo indica que a arrumação pré-campanha foi embalada por ópera e MPB, com letras recheadas de indiretas para os adversários.

Aos seus 187 mil seguidores no Twitter, Serra postou links para letra e música de Mon Dieu, da ópera Moisés no Egito, de Gioacchino Rossini. Destacou o trecho Pitié pour notre terre, ou "tenha piedade de nossa terra".

A ópera é interpretada pela cantora grega Nana Mouskouri. Ela entoa: "Pardonne à l"insolence / Des hommes quand ils se croient des dieux". Em tradução livre, é um pedido a Deus que "perdoe a insolência dos homens que se creem deuses".

No dia seguinte, domingo, o tucano desejou feliz Páscoa com a música Amanhã, de Guilherme Arantes, interpretada por Caetano Veloso. Um dos trechos: "Amanhã / Redobrada a força / Pra cima que não cessa / Há de vingar".

As inspirações e bastidores de Serra nesse intervalo entre a saída do governo e o início da campanha, em julho, continuarão no Twitter. A estratégia é conhecida desde a eleição do presidente americano Barack Obama, em 2008.

Sobre questões do governo, o pré-candidato evitou comentários. "Agora, vocês devem enviar as mensagens envolvendo assuntos do governo de SP ao @governosp", avisou. Seus seguidores questionaram: vai deixar o Twitter? "Não vou abandonar", afirmou. "Talvez até possa entrar aqui mais vezes e de dia."

Ao lado de Garotinho, Dilma ataca os 'falsos cordeiros'

DEU EM O GLOBO

Pré-candidata do PT à Presidência, a ex-ministra Dilma Rousseff participou da convenção do aliado PR e se reuniu a portas fechadas com o ex-governador Anthony Garotinho. "É um parceiro antigo", disse ela. "Somos amigos históricos", devolveu ele. Tom muito diferente Dilma usou para atacar a oposição, especialmente o PSDB do ex-governador José Serra, revelando a linha que adotará na campanha: tachar a oposição de "anti-Lula" e "falsos cordeiros". No estilo evangélico de Garotinho, usou urna fábula para chamar Serra, sem citá-lo diretamente, de "lobo em pele de cordeiro". Mais cedo, em entrevista, ela já tinha responsabilizado Serra pelo "apagão" no governo FH. O PSDB classificou o discurso de Dilma de descompensado e terrorista.

"Garotinho é um parceiro antigo", diz Dilma

Já os adversários da oposição ela chama de "lobos em pele de cordeiro"

Maria Lima, Gerson Camarotti e Marcelle Ribeiro

Em seu primeiro dia de voo solo como pré-candidata a presidente, a ex-ministra Dilma Rousseff participou de evento da cúpula do PR que a aproximou ainda mais do casal Garotinho, o que pode complicar sua relação com o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), candidato à reeleição. Em encontro reservado após a solenidade de posse do senador Alfredo Nascimento como presidente do PR, Dilma avisou que não participará da festa de lançamento da pré-candidatura de Garotinho ao governo do Rio, no próximo sábado. Mas, em discurso no qual endureceu o tom nos ataques ao PSDB e fez citações religiosas, ressaltou laços históricos com o agora primeiro-secretário do PR, levando o ex-governador a sair do encontro otimista quanto ao seu apoio.

No discurso, Dilma citou parceria bem-sucedida com os ex-governadores Anthony e Rosinha Garotinho. No final, posou para fotos com o aliado político.

- O Garotinho é um parceiro antigo, do tempo do PDT - disse Dilma, citando também a importância da parceria com Rosinha.

- Se eu estou apoiando a campanha dela, é natural que ela retribua. Somos amigos históricos - justificou Garotinho.

Logo após a solenidade, Dilma, acompanhada do presidente do PT, José Eduardo Dutra, se reuniu por cerca de meia hora com Garotinho. Na conversa, ela determinou que o ex-governador desarmasse o palanque que estava sendo montado com sua presença, sábado, no Rio, para o lançamento da pré-candidatura, porque sua agenda estaria lotada. Sobre o futuro próximo, no entanto, Garotinho saiu otimista:

- Na presença do Dutra fechamos que a ministra vai nos dois palanques. A Dilma está firme, disse que vai subir no meu palanque e pedir votos para mim. Estamos juntos, firmes. Está tudo certo. Se o Cabral vai gostar ou não, se vai ficar com ciúmes, não entro em questões emocionais - declarou Garotinho.

Mas o presidente nacional do PT, logo em seguida, disse que não é bem assim.

- Nos casos de palanques duplos, é um processo que ainda vamos discutir. É fato que queremos o apoio de Garotinho, mas quem vai no palanque de quem, se vai nos dois palanques, isso só será decidido em julho - rebateu Dutra.

Para evitar mais desgaste com Cabral, a cúpula do PT planeja novo evento para Dilma, acompanhada do presidente Lula, com sindicalistas no ABC paulista, no sábado.

- Nesse momento a agenda tem que ser para a Dilma. Não tem sentido ela ir para eventos de pré-candidatos nos estados - disse Dutra.

Eles são anti-Lula, discursa a petista

No discurso de estreia da pré-campanha, Dilma endureceu o tom contra o PSDB e revelou a linha que adotará daqui para a frente: tachar os adversários que prometem continuar as conquistas do governo como "anti-Lula" e "falsos cordeiros".

Usando uma citação religiosa, sem citar o candidato José Serra, chamou-o de "lobo em pele de cordeiro", por estar prometendo dar continuidade às coisas boas do governo Lula. Disse que só quem pode garantir essa continuidade é a aliança "virtuosa" que elegeu Lula e apoiará agora sua candidatura.

- Aqueles que venderam nosso patrimônio, que quebraram o Brasil e deixaram o povo sem um salário digno não têm condições de levar isso adiante. São lobos em pele de cordeiro, mas o povo brasileiro está esperto e sabe reconhecer os falsos cordeiros. Um dia falam que vão continuar. Outro dia eles mostram patinha de lobo ao cometer um ato falho e ameaçam acabar com o PAC, com a política econômica. Como eles podem continuar o governo Lula se passaram os últimos sete anos e meio criticando este governo? Antes de mais nada, eles são anti-Lula - disse Dilma.

Em tom irônico, disse que os adversários apostaram na catástrofe, disseram que o Brasil iria quebrar na crise global e que o governo Lula só conseguiu avanços por sorte.

- Sorte nós queremos sim. O que não queremos é nenhum pé frio e nenhum azarado dirigindo o Brasil - disse, solicitando que, daqui para frente, cada um dos aliados peçam aos amigos, a conhecidos para defender "milímetro a milímetro, dia após dia, minuto a minuto" a continuidade do projeto de Lula e do PT.

- Não podemos permitir que as forças do atraso voltem e tragam décadas de estagnação. (não queremos de volta) O chamado voo da galinha, que cresce um pouco (a economia) e para depois.

Pré-candidata culpa Serra por apagão

Mais cedo, em entrevista à rádio Jovem Pan, em São Paulo, Dilma disse que os responsáveis pelo apagão ocorrido no segundo mandato do tucano Fernando Henrique foram o governo e ocupantes dos ministérios de Minas e Energia e também do Planejamento, comandado, à época, por José Serra. Também sem citar o nome do pré-candidato tucano, Dilma disse que, na época, havia a mentalidade de que planejar era algo "ultrapassado, velho". Na opinião de Dilma, entre 2000 e 2002, o Brasil visivelmente ficou sem energia não porque não houvesse linhas de transmissão, mas porque faltava energia para distribuir.

- Como é que um racionamento acontece? Ele não acontece do dia para outro, acontece porque você não planeja. O horizonte de planejamento mínimo do setor elétrico no Brasil é entre dez e cinco anos. O planejamento falhou, houve falha intrínseca do planejamento. Os responsáveis estão nos ministérios que tinham ligação com a área, tanto no do Planejamento quanto no de Minas e Energia. Os responsáveis são vários. O governo inteiro é responsável, porque essa questão é seríssima - disse ela.

Em entrevista publicada ontem no "Estado de S.Paulo", Dilma também relacionou Serra com a suposta falta de planejamento no governo Fernando Henrique.

- O Serra que me desculpe, mas ele não foi só ministro da Saúde. Foi ministro do Planejamento. Planejou o quê, hein? Ali se gestou, sabe o quê? O apagão - disse Dilma, apesar de ela ter sido ministra das Minas e Energia no governo Lula, que sofreu um apagão.

Sobre a influência de Lula caso seja eleita, Dilma disse que pretende consultá-lo porque é um dos líderes "mais lúcidos do mundo".

- Tenho uma relação para além de política com o presidente, tenho um sentimento forte de amizade e respeito. Eu vou ter no presidente Lula uma pessoa que eu vou consultar, escutar. Acho o presidente Lula, politicamente, um dois líderes mais lúcidos, não só no Brasil como no mundo. Aliás, eu não serei a única a consultá-lo. Acredito que hoje vários presidentes o consultam - disse à rádio.

Dilma afirmou que ela e Lula compartilham do mesmo projeto.

- Acredito que sempre vou conversar com o presidente. Obviamente, o meu estilo pode ser diferente, no pessoal, mas aí é detalhe. No fundamental, nós comungamos do mesmo projeto - completou a ex-ministra.

Dilma Rousseff falou ainda sobre a escolha do seu vice na chapa à Presidência. Ela está certa de que o PMDB vai saber escolher bem e disse que o vice será o considerado "mais adequado":

- É natural que haja um processo de diálogo. Tenho certeza de que o PMDB vai saber indiciar os melhores nomes. Até agora, o nome cogitado tem sido o do deputado (Michel) Temer, que, sem sombra de dúvida, é respeitado. É o presidente da Câmara, é uma pessoa que tem todas as qualificações para pleitear o posto.

Na opinião da ex-ministra, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que cogitou deixar o cargo para disputar as eleições, seria um bom candidato. Especulava-se que ele poderia disputar o Senado por Goiás ou ser vice-presidente na chapa do PT.

- Henrique Meireles seria, sem sombra de dúvidas, um bom candidato a qualquer posto que pleiteasse - afirmou a ex-ministra.

PSDB reage e diz que Dilma faz 'terrorismo'

DEU EM O GLOBO

Para Guerra, debate ético proposto pela petista é "fraude" e PT tem de explicar dinheiro de aloprados

"Quem tem que explicar apagão é ela, afinal, o Serra nunca foi ministro de Minas e Energia", diz líder tucano


Adriana Vasconcelos e Flávio Freire

BRASÍLIA e SÃO PAULO. O PSDB reagiu ontem às críticas feitas pela presidenciável petista, Dilma Rousseff, classificando seu discurso de "descompensado e terrorista". Para o presidente nacional do partido, senador Sérgio Guerra (PE), o tom mais agressivo dos ataques da ex-ministra à oposição seria um reflexo da retomada da trajetória de crescimento da candidatura do tucano José Serra, identificada pela última pesquisa do Datafolha e outras internas encomendadas pela cúpula tucana. Guerra destacou que no Rio Grande do Sul, por exemplo, Serra já teria aberto uma vantagem de mais de 20 pontos em relação à adversária petista.

- Uma pessoa não sai para o confronto aberto se não tiver necessidade de fazer isso. Acredito que a ex-ministra começou a perceber algumas complicações eleitorais que já identificamos em pesquisas internas indicando que ela está perdendo intenções de voto. Por isso esse discurso descompensado e terrorista - atacou Sérgio Guerra.

Na avaliação de Guerra, a ex-ministra começa mal sua pré-campanha e deixa transparecer seu temperamento agressivo:

- Não faz bem subestimar adversários e muito menos ameaçá-los. Neste seu primeiro ensaio de pré-campanha, começa a explicitar uma agressividade que já havíamos identificado nela.

Sobre declaração da ex-ministra, em entrevista ao jornal "O Estado de S.Paulo", na qual disse estar pronta para o debate ético com a oposição, o senador tucano propôs que ela comece explicando onde foi parar a montanha de dinheiro usada pelos "aloprados" do PT na campanha de 2006.

- Esse debate ético que a ex-ministra propõe é uma fraude. Afinal, foi o atual governo que inviabilizou o instituto das CPIs no Congresso e é o mesmo que ignora sistematicamente os alertas do Tribunal de Contas da União sobre obras superfaturadas patrocinadas pelo PAC. Continuamos esperando ainda uma explicação sobre o destino dos aloprados do PT - cobrou Guerra, que questionou ainda o comportamento do tesoureiro do PT, João Vaccari Netto, sob suspeita de ter participado do desvio de quase R$100 milhões da Bancoop (Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo) para campanhas petistas.

- O cheque do aluguel da casa que a ex-ministra está morando foi assinado pelo Vaccari. Isso por si só já é uma condenação. Esse é o carimbo ético ao qual ela se refere? - provocou Guerra.

Por enquanto, Serra não pretende entrar nesse bate-boca. De acordo com o presidente nacional do PSDB, o ex-governador e pré-candidato tucano à sucessão presidencial vai aproveitar os próximos dias para elaborar o discurso que fará no próximo sábado, no lançamento de sua candidatura. A previsão é a de que Serra chegue a Brasília na sexta-feira à noite.

Para o dirigente, o discurso de Dilma vai na contramão também em relação à conduta do PT no Congresso.

- Uma das coisas fundamentais na CPI das ONGs, por exemplo, é a quebra do sigilo bancário, mas os petistas, para proteger os apadrinhados, alegam que ninguém vai ter os sigilos fiscal e bancário quebrados sem que haja provas contra as pessoas. Ora, a quebra sempre foi um elemento central das investigações, sempre pedida pelo próprio PT, mas agora eles tentam abafar o trabalho - disse ele, que prepara encontros do pré-candidato com lideranças regionais em diferentes pontos do país, a partir da próxima semana, depois do lançamento oficial do tucano pelo partido.

Na entrevista, Dilma ironizou o trabalho de Serra à frente do Ministério do Planejamento, insinuando que o tucano "planejou" apenas o apagão. Guerra saiu em defesa do ex-governador.

- Quem tem que explicar apagão é ela, afinal, o Serra nunca foi ministro de Minas e Energia - ironizou ele, para quem Dilma não objetiva o embate, "apenas tenta mostrar que tem garganta".

Um dos homens mais próximos de Serra, o chefe da Casa Civil, Aloysio Nunes Ferreira, evitou polêmica, mas ironizou.

- Não li e nem vou ler a entrevista dela. Não tenho o menor interesse - disse ele.

Bandeira do atraso:: Celso Ming

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) promete mais um abril vermelho, com um festival de invasões, ocupações, derrubadas de cerca e destruição de plantações.

Na edição do caderno Aliás, no Estadão desse domingo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso denunciou o apego aos valores do atraso pelo MST. O sociólogo José de Souza Martins, que há décadas estuda os movimentos sociais no Brasil, observa que, longe de ser uma vanguarda dos novos tempos, o MST é um núcleo aferrado a valores do conservadorismo. É o exemplo do que os cientistas políticos e também Fernando Henrique chamam de movimentos das utopias regressivas.

Houve um tempo em que o MST sabia o que perseguia. Queria a reforma agrária com a mesma radicalidade com que o viajante francês August Saint Hilaire viu esta terra em 1822: "Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil." De lá para cá não aconteceu nem uma coisa nem outra. Também a reforma agrária vai perdendo o sentido depois que surgiram por aqui o agronegócio e o Bolsa Família. Quase não há mais latifúndio improdutivo e, onde ele ainda existe, os líderes do MST não se interessam por assentamentos, porque fica longe de tudo.

O MST está sem foco. Partiu para depredações do que chama de monoculturas. Ataca laranjais, plantações de eucalipto e até os seculares canaviais, a cultura trazida nas caravelas de Martim Afonso de Souza em 1530, como se fossem nocivos e como se houvesse outro jeito de produzir suco de laranja, celulose, açúcar e álcool.

O MST valoriza a cultura de subsistência como ideal de vida moderna. Em princípio, é hostil a novas tecnologias e aferra-se a uma agricultura familiar jecatatuísta, como se os verdadeiros valores da humanidade só se desenvolvessem em condições de atraso.

Quer parecer independente do governo Lula, a ponto de desprezar os interesses eleitorais do PT, mas depende dele para tudo, para distribuição de terras, para obtenção de sementes, para escoamento da produção e, até mesmo, para sobrevivência do assentamento. Relaciona-se com a autoridade como se fosse a única supridora dos excluídos, a força que faz chover e nascer o sol e que tem de lhe fazer a vontade aqui e agora.

Para as lideranças do MST não há nunca o que negociar. Tudo tem de ser como está na cabeça deles, inclusive a imposição do regime socialista no Brasil, seja lá o que isso signifique. "Não existe para o MST a ideia de passar pelos canais institucionalizados, partidos, etc.; existe é pressão", aponta Fernando Henrique.

Apesar de tudo o que apronta, o MST vem sendo tolerado. E uma das razões pelas quais isso acontece parece ter a ver com a percepção de que cumpre a função de dar alguma organização ao lúmpen que se formou nas periferias das grandes cidades interioranas. Entrega-lhe uma bandeira e ensina-lhe alguns hinos, preserva-o da delinquência pura e simples e aponta-lhe um futuro cujo símbolo é o pedaço de chão que um dia vai receber.

As lideranças do MST ainda não perceberam que o assentado não quer terra; quer emprego. A maioria dos que compõem os acampamentos não sabe o que fazer com a terra que recebe. E os que sabem logo se dão conta de que, mesmo com a ajuda oficial, a terra não lhes oferece futuro se não estiver inserida no sistema global de produção, distribuição e consumo. Mas essas são imposições do capital internacional e do neoliberalismo...

Confira

Para o alto

Os preços do barril de petróleo (159 litros) saltaram ontem em Nova York para US$ 86,62, o mais alto desde outubro de 2008, às vésperas do estouro do Lehman Brothers, que injetou pânico nos mercados, bloqueou o crédito e derrubou os bancos.

É mais um indício de que aumenta a confiança na recuperação dos Estados Unidos. Mas esse não é o único recado. Alta do petróleo significa aumento dos custos da energia, significa inflação e inflação aciona os grandes bancos centrais, especialmente o Fed (o banco central americano), para puxar pelos juros.

'Contenha seu entusiasmo pelo Brasil'

DEU EM O GLOBO

Colunista do "Wall Street Journal" diz que país parece ter abandonado reformas

NOVA YORK. Desde que o Brasil descobriu novas e promissoras reservas de petróleo na sua costa em 2007, o país parece ter abandonado várias reformas que deveriam deixá-lo em sintonia com sua ambição de conquistar um lugar entre as nações mais industrializadas do mundo.

É o que diz um artigo publicado ontem no “Wall Street Journal” e assinado por Mary Anastasia O’Grady, editora e colunista do jornal americano de finanças.

O texto, intitulado “Contenha seu entusiasmo pelo Brasil”, questiona o otimismo manifestado no país sobre o sucesso das parcerias público-privadas na reinvenção “de um Brasil com sua nova riqueza”. Mary Anastasia se refere em particular ao entusiasmo do empresário Eike Batista, dono do grupo EBX, em recente passagem por Nova York.

Ela conta que Eike — o homem mais rico do Brasil e o oitavo do mundo pela revista “Forbes” — “encantou a plateia com seu entusiasmo, não apenas por seus próprios projetos no desenvolvimento da exploração de petróleo, de portos e de estaleiros, como também pelo seu país”.

“Apesar dos muitos erros do passado, ele (Eike) disse que o Brasil mudou e está pronto para reclamar seu lugar de direito entre as nações industrializadas”, escreve.

Mas a autora do artigo se diz “cética” quanto ao otimismo de Eike, e se pergunta se o resto do país também vai se beneficiar das oportunidades que se abriram para o empresário no setor de gás e petróleo.

“Quanto mais a elite do país fala sobre sua parceria público-privada para reinventar o Brasil com sua recém-descoberta riqueza, mais soa como o mesmo velho corporativismo latino”, diz ela. Mary Anastasia admite que o Brasil melhorou “em relação ao que era em meados da década de 90, quando a hiperinflação alimentou caos nacional”, e disse que “o crédito por controlar os preços vai para o ex-presidente de dois mandatos (Fernando) Henrique Cardoso, cujo governo implementou o Plano Real”.

A autora minimiza o papel do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no comando do país, dizendo que “uma revisão de sua gestão revela que a melhor coisa que ele fez como chefeexecutivo do país foi nada”. “Além da reforma da lei de falências e a melhoria da legislação relativa a seguros, ele (Lula) fez muito pouco.” A jornalista considera positivo que mudanças sejam gradativas, mas diz que “o problema é que desde que o Brasil descobriu petróleo abundante na costa em 2007, parece ter abandonado até as reformas modestas”.

No artigo, ela sugere que faltam reformas que facilitem a operação de muitas empresas de pequeno e médio porte. Citando relatório do Banco Mundial de 2010, a jornalista diz que o Brasil não tem bom histórico em relação à abertura de empresa, pagamento de impostos, contratação de funcionários e obtenção de alvará de construção

Risco fiscal:: Miriam Leitão

DEU EM O GLOBO

As capitalizações em série do BNDES são obviamente um risco fiscal de grandes proporções.

Se o governo fizer mais uma operação de R$ 100 bilhões significa um montante equivalente a oito anos de Bolsa Família. Isto é 3% do PIB, é toda a dimensão da indústria de petróleo. E essa é a terceira operação recente. Já foram feitas duas: uma de R$ 100 bilhões e outra de R$ 80 bilhões.

Fala-se pouco disso no Brasil. O silêncio é por interesse.

A maioria das empresas do país, todos os bancos, os bancos de investimento dependem do BNDES para seus negócios. O Tesouro está se endividando para pôr dinheiro no banco, que transfere para as empresas por critérios discutíveis.

E com isso está também concentrando renda.

O primeiro critério é a ideia de criar “campeões nacionais”.

Foi exatamente assim que o contribuinte brasileiro teve que arcar com enormes rombos nos anos 70 de empresas que, alimentadas com dinheiro público, se tornaram dependentes, e depois quebraram.

O segundo critério é o de aumentar a estatização do crédito por razões ideológicas.

Os grandes projetos estão todos estatizados na prática porque os consórcios são formados por uma estatal, fundos de pensão de estatal e o banco público.

O BNDES na atual gestão não explica absurdos como o de ter aplicado R$ 100 milhões de capital de risco para virar sócio do frigorífico Independência, três meses antes de a empresa familiar quebrar.

Quando esta coluna perguntou sobre isso ao banco, ele respondeu por escrito que o assunto está entregue ao departamento jurídico.

Obviamente isso não resolve a questão. As dúvidas são: Quem autorizou tal negócio? Como ninguém soube da verdadeira situação da empresa? Não houve uma avaliação da situação patrimonial antes de entrar no capital de uma empresa familiar e fechada? A ideia agora, informou O GLOBO de ontem, é a de capitalizar o BNDES para ele financiar o PAC. O problema é que isso não é neutro do ponto de vista fiscal. O governo informa que a operação não vai aumentar a dívida líquida porque o Tesouro diz que receberá de volta ao longo do tempo. Mas a dívida bruta voltou a subir, como se pode ver no gráfico abaixo.

O “Wall Street Journal” publicou uma reportagem recomendando conter o otimismo em relação ao Brasil.

Disse que não somos mais o país da hiperinflação graças às reformas feitas no governo anterior ao Lula. Que as reformas já eram incipientes neste governo e desapareceram depois da descoberta do pré-sal.

O jornal não sabe de toda a má notícia. O pior é a recriação de riscos fiscais que podem abalar a base da estabilidade. Como o dinheiro do banco é subsidiado, o que o Tesouro está fazendo é transferindo R$ 280 bilhões — se for confirmada essa terceira capitalização — para que o banco possa emprestar para as empresas abaixo do custo que o próprio Tesouro se financia. Não há transparência sobre esse custo fiscal, nem sobre os riscos que o banco tem assumido.

O economista Felipe Salto, da Tendências Consultoria, lembra que o Brasil tem precisado de poupança externa para financiar o crescimento.

Isso significa que o passo do governo vai na direção contrária, pois aumenta a dívida ao invés de estimular a poupança interna. Salto observa também que continua o descompasso entre as políticas monetária e fiscal. Enquanto o Banco Central é obrigado a subir juros para controlar a inflação, o governo aumenta gastos e contribui para pressionar os preços: — A política fiscal é o nosso principal risco no médio e longo prazo. O governo se aproveita do crescimento econômico e dos efeitos que o superávit primário têm sobre o perfil da dívida. Elas funcionam como um freio.

Porém, se tivéssemos uma política fiscal mais sólida, a expectativa mudaria para melhor, haveria menos pressão sobre a demanda e os juros seriam mais baixos. No final, o país cresceria mais.

Entre 2008 e 2009, a dívida bruta subiu de 57% do PIB para 63%. O governo dirá que isso aconteceu por causa de ações de combate à crise.

Esse argumento já não serve para 2010 porque as previsões de crescimento para este ano estão em torno de 6%.

Para o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, a nova capitalização do BNDES é um mau sinal para um ano eleitoral.

— No aspecto fiscal, é preocupante a pressão sobre a dívida bruta, ainda mais porque teremos mudança de governo — disse.

A cidade refém das chuvas

DEU EM O GLOBO

Temporal fecha o Santos Dumont, destrói uma casa e dá um nó no trânsito do Rio

Celia Costa e Gabriel Mascarenhas

Eo Rio parou mais uma vez por causa de um temporal. A passagem de uma frente fria pela cidade, no final da tarde de ontem, provocou alagamentos nas principais vias, fechou o Aeroporto Santos Dumont, às 18h10m, e ainda paralisou parte da circulação de trens da SuperVia. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), foram registrados ventos de até 75 quilômetros por hora no Forte de Copacabana. No Santos Dumont, os ventos chegaram a 50 quilômetros por hora. Também faltou luz em vários pontos. Segundo a Light, o fornecimento foi interrompido em ruas de sete bairros: São Conrado, Barra da Tijuca, Jacarepaguá (Taquara), Alto da Boa Vista, Tijuca, São Cristóvão e Ilha do Governador.

Na Zona Norte, o Rio Maracanã transbordou. Várias ruas da Tijuca e de Vila Isabel ficaram inundadas, e muitas pessoas enfrentaram a chuva com água na altura dos joelhos. A Praça da Bandeira voltou a ficar completamente alagada, interrompendo o trânsito naquela região. Motoristas estacionaram seus carros em postos de gasolina para fugir do alagamento. Os reflexos do caos no trânsito foram sentidos na Avenida Presidente Vargas, no acesso do Túnel Rebouças e no do Túnel Santa Bárbara. Na Zona Sul , o trânsito também ficou tumultuado por causa de vários pontos de alagamento. No início da noite foi registrado o desabamento de uma casa na Rua Leopoldo, no Andaraí, na Zona Norte, deixando cinco feridos. O engarrafamento na região dificultou a chegada dos bombeiros ao local. O Centro de Controle de Operações da CET-Rio ficou em alerta total.

Engarrafamento na Dutra chegou a 6km

Bolsões de água também atrapalham os motoristas nas ruas Jardim Botânico (na altura da Rua Pacheco Leão e do Parque Lage), Alexandre Ferreira (nas imediações da Rua Maria Angélica) e Voluntários da Pátria (na esquina com a Rua Real Grandeza). Na orla da Lagoa, os motoristas tiveram que enfrentar enormes poças.

O mau tempo também complicou o trânsito na Rodovia Presidente Dutra. Na pista sentido Rio, os motoristas enfrentaram até seis quilômetros e meio de engarrafamento a partir de São João de Meriti.

Na Avenida Brasil, os alagamentos foram registrados na altura Caju, em Manguinhos, em Ramos e em Parada de Lucas. A Autoestrada Grajaú-Jacarepaguá ficou às escuras e algumas pedras rolaram no fim da tarde. O tráfego na via não chegou a ser interrompido, mas os motoristas precisaram redobrar a atenção. No Alto da Boa Vista, uma árvore caiu na pista e paralisou o trânsito no sentido Barra.

Metrô fez controle de entrada nos trens

O temporal provocou ainda a interrupção do tráfego dos trens da SuperVia nas proximidades da estação de Manguinhos. Segundo a concessionária, por questão de segurança, os trens do ramal Saracuruna passaram a circular apenas no trecho de Saracuruna a Bonsucesso. Os passageiros foram avisados das alterações pelo sistema de som das estações e pelo telão da Central.

Com o trânsito caótico, muita gente preferiu pegar o metrô. Para evitar tumultos, funcionários da concessionária passaram a fazer o controle da entrada de passageiros nas estações Uruguaiana e Carioca. Na Estação Saens Peña, passageiros não conseguiram entrar para o embarque nas composições. Segundo a concessionária Metrô Rio, mesmo com superlotação a circulação dos trens foi normal e sem atrasos.

Quem seguia para Niterói também encontrou problemas, principalmente próximo à Praça do Pedágio da Ponte Rio-Niterói. O trânsito manteve-se engarrafado nos dois sentidos da via. Os bolsões d"água que prejudicaram o tráfego na Avenida Brasil causaram reflexos até os acessos ao Rio. Apesar do vento forte, o tráfego não chegou a ser interrompido na ponte.

O volume acumulado de chuva entre 17h30m e 21h30m chegou a 109,6 milímetros no Sumaré, 102,2 milímetros na Ilha do Governador, 96 milímetros no Grande Méier, 91 milímetros no Grajaú, 89,8 milímetros na Penha e 87,2 no Jardim Botânico.

No final da tarde, a prefeitura chegou a divulgar um alerta de riscos de deslizamentos de encostas nas regiões das bacias de Jacarepaguá e da Baía de Guanabara. O Instituto Climatempo informou que áreas de instabilidade associadas a uma frente fria se intensificaram no Rio entre o fim da tarde e o começo de noite.

Ontem a temperatura máxima registrada foi de 29,5 graus, em Realengo; e a mínima, 21,1 graus, no Alto da Boa Vista. A previsão para hoje é de tempo nublado, com pancadas de chuva isoladas. A temperatura deve cair e ficar entre 22 graus e 25 graus.

Gabeira ainda pode negar Cesar?

DEU EM O GLOBO

Para analistas, imagem dos dois já se aproximou

Alessandra Duarte e Cássio Bruno

O deputado Fernando Gabeira (PV) acha que o ex-prefeito Cesar Maia (DEM) "é o melhor candidato para o Senado", como ele afirmou mês passado num evento do DEM, ou não quer saber do ex-prefeito em seu palanque na campanha a governador do Rio, como disse o PV em seguida? Para cientistas políticos, o vaivém da relação do pré-candidato verde com Cesar Maia já teria feito com que as imagens dos dois comecem a ser associadas. Os analistas também acreditam que a necessidade de um palanque forte para o tucano José Serra no Rio vai pressionar Gabeira a aceitar o DEM de Cesar, aliado do PSDB. Ontem, na Câmara de Vereadores do Rio, nenhum vereador do DEM compareceu a um evento organizado por Gabeira para falar das eleições deste ano.

Para o professor Ricardo Ismael, coordenador do curso de ciências sociais da PUC do Rio, "o copo d"água já entornou":

- Houve falta de habilidade política por parte do Gabeira. Ele não podia ter ido a público elogiar Cesar Maia se havia a possibilidade de voltar atrás depois. Isso causou estranhamento tanto aos eleitores do Gabeira, quando ele o apoiou, quanto aos eleitores mais próximos do Cesar, mais conservadores, quando voltou atrás - afirma Ismael, para quem o fato também serviu para relembrar o apoio dado por Cesar a Gabeira no segundo turno das eleições municipais de 2008. - Ali, o Gabeira não levou o apoio do Cesar Maia à TV, mas também não falou mal dele. E o (então candidato) Eduardo Paes utilizou isso contra o Gabeira. Houve folhetos com fotos dos dois juntos...

A aproximação entre Gabeira e Cesar é criticada por nomes do PV como o presidente regional, Alfredo Sirkis. Um dos motivos seria o temor de que a rejeição a Cesar na classe média carioca seja transferida para Gabeira.

- Qualquer que seja o desfecho, vai ficar registrada a aproximação dos dois - diz Ismael. - Mas o estrago será menor se ele aceitar de vez o DEM. O PV tem pouco tempo de TV, depende do DEM e do PSDB. Ele não pode pensar que será como campanha a prefeito. O PV não tem estrutura fora da capital, não é a parte mais forte da chapa. Se o Gabeira acha que pode, sem aliados, quebrar a força de Cabral e Garotinho no interior do estado, engana-se. O Zito (presidente estadual do PSDB) não gosta dele; e ele (Gabeira) nega os aliados que pode ter?

Ismael lembra ainda o fator nacional nesse imbróglio: para ele, o DEM "tem bala na agulha" para exigir que o PSDB pressione o PV a apoiar Cesar, já que o PSDB precisaria do DEM no Rio para a campanha de Serra. O professor Eurico Figueiredo, coordenador de pós-graduação em ciência política da Universidade Federal Fluminense (UFF), também acredita que a campanha nacional do PSDB afetará as alianças no Rio.

- O Sirkis tem importância local. Nacionalmente, é dez vezes menos importante que o Cesar, assim como o PV é menos importante nacionalmente do que o DEM. O que der respaldo a uma frente de oposição e à candidatura Serra será o parâmetro - diz Figueiredo.

Ontem, um evento organizado por Gabeira na Câmara do Rio teve como público metade dos 300 inscritos - por causa da chuva, alegou o verde. Dos 17 vereadores da coligação de apoio a Gabeira, quatro compareceram, nenhum deles do DEM. Segundo Gabeira, ele não teria convidado nenhum vereador. No evento, o pré-candidato elogiou as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) do governo Cabral, ressalvando que a segurança não pode ser "só para a Zona Sul". Mas criticou o transporte público no estado ("o que o Metrô fez para receber uma renovação de concessão de mais 20 anos?"), além das viagens de Cabral e do gasto do governo com propaganda:

- Um gasto de R$180 milhões foi o que o Obama transferiu para o Haiti.

Cabral beneficia outro cliente de sua mulher

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Governador prorroga contrato com Supervia, que usa escritório de advocacia da primeira-dama para conduzir 83 processos trabalhistas

Alfredo Junqueira

RIO - Ao ordenar a prorrogação do contrato de concessão da empresa que explora os serviços ferroviários do Rio, o governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) vai beneficiar mais um cliente do escritório de advocacia de sua mulher, Adriana Ancelmo Cabral.

Levantamento feito pelo Estado no Tribunal Regional do Trabalho identificou pelo menos 83 processos em que integrantes do Coelho, Ancelmo e Dourado Advogados defendem a Supervia Concessionária de Transportes Ferroviários S.A. em litígios trabalhistas.

Previsto para ser oficializado esta semana, o acordo com o governo do Rio ampliará até 2048 o direito de a empresa operar o serviço. A Supervia é citada por repetidos problemas de superlotação, atrasos, sucateamento de maquinário e até agressões a usuários.

Além da Supervia, o governador também determinou a prorrogação do contrato da Metrô Rio até 2038. A medida foi tomada em 2007, primeiro ano de seu mandato. Na época, a empresa contratou os serviços do Coelho, Ancelmo e Dourado Advogados ? conforme o Estado revelou em janeiro. A Procuradoria-Geral de Justiça já abriu investigação, a pedido de deputados do PT e do PSOL, para apurar o caso.

No Rio, os serviços de metrô e trens foram privatizados na década de 90. Com isso, os clientes do escritório da primeira-dama têm de ser fiscalizados pela Agência Reguladora de Serviços Públicos Concedidos de Transportes (Agetransp), cujos conselheiros são indicados por Cabral.

Foi a Agetransp que autorizou o governador a prorrogar o contrato da Supervia, na semana passada. A mesma autarquia havia imposto, há duas semanas, multa de R$ 1 milhão à empresa pelo episódio conhecido como "trem da chibata". Em 15 de abril do ano passado, passageiros que embarcavam na estação de Madureira foram agredidos com socos, pontapés e até chicotadas por seguranças contratados pela concessionária que agora terá seu contrato prorrogado.

A prorrogação autorizada pela Agetransp ocorre 13 anos antes do fim do atual contrato. O governo do Rio divulgou que o acordo prevê o investimento de R$ 2,3 bilhões na modernização do sistema, que ficará a cargo da concessionária, e na compra de novos trens ? nesse caso, bancada pelo Tesouro estadual.

Sem restrição. O escritório da primeira-dama disse que não há nenhuma norma legal que o impeça de atuar em qualquer tipo de causa. O sócio e ex-marido de Adriana, Sérgio Coelho e Silva Pereira, disse que não daria mais declarações. É ele quem atua diretamente na maior parte dos processos localizados.

Procurado, o governador Sérgio Cabral não quis se manifestar. Sua assessoria divulgou nota em que também afirma não haver impedimento legal para a atuação de Adriana. "Mesmo não tendo impedimento para atuar em causas contra o Estado, a primeira-dama não participa de ações dessa natureza", conclui a nota do Palácio Guanabara.

A Supervia não quis se pronunciar sobre a prorrogação do prazo de concessão. "Esse tipo de assunto não se comenta", disse o assessor de comunicação da empresa, Thiago Nehrer.

Bilhetes do Rio:: Graziela Melo

Triste, lamentável, que, no mundo de hoje, tantos países, inclusive os que se dizem "civilizados", adotem a pena de morte como prática punitiva. Até quando a humanidade vai se matar?

Só no Irã, segundo dados da Anistia Internacional, foram efetuadas 388 execuções, sendo que, 112 das quais, no período de apenas dois meses, entre eleições e posse de Ahmadinejad (qualquer suposição de maldade do ditador, não é mera desconfiança).

Essa matéria é tema do editorial da Folha de S. Paulo, domingo, sob o título "A lista infame".

Nesse horripilante pacote, se inclui os EE.UU. que, como país democrático que é, deveria dar exemplo ao mundo, abolindo essa mancha negra de sua Constituição de 200 anos de idade.

Enquanto cientistas estudam e trabalham em função de prolongar, de melhorar, de salvar vidas, tem o outro lado que só pensa em destruí-las: guerras, penas de morte, assassinatos, terrorismo e etc.
Que pena!!!
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Importante o artigo de FH, no jornal O GLOBO de ontem, com o título: "Hora de união". Já mencionamos que, as fissuras internas do PSDB, pode trazer maus resultados para o país. Foi assim em eleições anteriores em episódios do tipo Alkmim X Serra, que resultou na vitória do Lula.

Agora, FH acaba de dá um "puxão de orelhas" quando diz no artigo que a união de Minas e São Paulo, é fundamental para a democracia. Os egos estão em segundo plano. Citando episódios passados, quando dos embates para derrotar a ditadura, menciona o fato de, o desprendimento e grandeza do Tancredo ter sido de importância maior para a vitória das forças da oposição.

Faz um carinho nas vaidades aecianas, quando releva o fato de a atitude do avô ter tido papel decisivo.

Ressalta ainda as semelhanças entre os episódios do passado e a situação política que vivenciamos hoje: "Passados 25 anos, nos encontramos frente a circunstâncias históricas que novamente requerem grandeza dos líderes e unidade de todos."

Bom, pode ser que o "puxão de orelhas" dado de público, ponha os personagens da cena para pensar e o rio consiga encontrar seu leito natural.

Morte e vida Severina (Auto de Natal Pernambucano) – parte 15:: João Cabral de Melo Neto

COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS TRAZENDO PRESENTES PARA O RECÉM-NASCIDO

— Minha pobreza tal é
que não trago presente grande:
trago para a mãe caranguejos
pescados por esses mangues;
mamando leite de lama
conservará nosso sangue.
— Minha pobreza tal é
que coisa não posso ofertar:
somente o leite que tenho
para meu filho amamentar;
aqui são todos irmãos,
de leite, de lama, de ar.
— Minha pobreza tal é
que não tenho presente melhor:
trago papel de jornal
para lhe servir de cobertor;
cobrindo-se assim de letras
vai um dia ser doutor.
— Minha pobreza tal é
que não tenho presente caro:
como não posso trazer
um olho d'água de Lagoa do Carro,
trago aqui água de Olinda,
água da bica do Rosário.

— Minha pobreza tal é
que grande coisa não trago:
trago este canário da terra
que canta corrido e de estalo.
— Minha pobreza tal é
que minha oferta não é rica:
trago daquela bolacha d'água
que só em Paudalho se fabrica.
— Minha pobreza tal é
que melhor presente não tem:
dou este boneco de barro
de Severino de Tracunhaém.
— Minha pobreza tal é
que pouco tenho o que dar:
dou da pitu que o pintor Monteiro
fabricava em Gravatá.

— Trago abacaxi de Goiana
e de todo o Estado rolete de cana.
— Eis ostras chegadas agora,
apanhadas no cais da Aurora.
— Eis tamarindos da Jaqueira
e jaca da Tamarineira.
— Mangabas do Cajueiro
e cajus da Mangabeira.
— Peixe pescado no Passarinho,
carne de boi dos Peixinhos.
— Siris apanhados no lamaçal
que há no avesso da rua Imperial.
— Mangas compradas nos quintais ricos
do Espinheiro e dos Aflitos.
— Goiamuns dados pela gente pobre
da Avenida Sul e da Avenida Norte.