domingo, 8 de janeiro de 2023

Elio Gaspari - A ideia da ordem unida leva a nada

O Globo

Depois de meia dúzia de anúncios desastrados, Lula reuniu seu Ministério. Cenograficamente, foi um belo espetáculo. Seu melhor momento deveu-se a algo que não aconteceu. Ele não mencionou uma proposta que circulava nos subúrbios do poder. A ideia era simples: programa do governo só poderia ser anunciado depois de ser submetido à Casa Civil da Presidência. Quase todos os governos anteriores tentaram, e nenhum conseguiu.

Não se consegue porque esse tipo de unidade a partir de um toque de corneta é sonho de noite de verão. No fundo, basta que se respeite a lição do presidente Rodrigues Alves há mais de um século: “Meus ministros fazem o que querem, menos o que eu não quero que eles façam.”

As trapalhadas dos hierarcas encantados com as próprias vozes foram prejudiciais no varejo. Isso numa semana durante a qual dois dos mais poderosos ministros causaram danos no atacado.

Rui Costa, o chefe da Casa Civil, foi perguntado sobre o texto que Lula escreveu dias antes do segundo turno: “Se eleito, serei presidente de um mandato só.” Um mês antes, ele havia dito que “não (seria) possível um cidadão de 81 anos querer a reeleição.”

Rui Costa respondeu:

“Se tudo der certo, e com fé em Deus dará, faremos um governo exitoso. E se ele continuar, como ele próprio diz, com energia e o tesão de 20 anos, quem sabe ele pode fazer um novo mandato presidencial.”

Nada melhor para desorganizar o tabuleiro de alianças que levaram o PT ao governo.

No dia seguinte, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, foi perguntado sobre os efeitos da taxa de juros fixada pelo Banco Central e respondeu:

“Você tem um mundo onde você tem uma taxa de inflação menor que os EUA e a Europa, só que nós estamos com a taxa de juros maior do planeta, a taxa de juros real. Então olha o paradoxo que nós estamos vivendo. É uma situação completamente anômala, uma inflação comparativamente baixa, e uma taxa de juros real fora de propósito para uma economia que já vem desacelerando.”

Haddad sabe que o Banco Central tem autonomia para fixar a taxa de juros. Carlos Lupi falando em revisão da reforma da Previdência joga palavras ao vento. Haddad se metendo com a taxa de juros é prenúncio de uma relação agreste entre a Fazenda e o BC. Sobretudo com expressões professorais como “anômala” e “fora de propósito”. Dias depois, Rui Costa também se meteu com a taxa Selic.

Se a atual taxa de 13,75% é maléfica, esse tipo de contestação só serve a quem opera na especulação.

Em tempo: nos outros dois governos de Lula, o vice-presidente José Alencar falava contra a taxa de juros dia sim, dia não, mas à época o BC não tinha autonomia por força da lei.

Registro para a História

No dia 30 de outubro, quando o eleitorado estava seguindo para as seções eleitorais, surgiram bloqueios da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em estradas do Nordeste, onde sabidamente estava o grosso do eleitorado de Lula.

Essa era a hora da onça beber água, e água a onça bebeu. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Alexandre de Moraes, convocou com urgência o diretor da PRF ao seu gabinete.

Ao ser chamado, Silvinei Vasques tinha motivos para saber qual seria a agenda. Por alguma razão, ele teve a ideia de ir ao ministro com acompanhantes, todos ostensivamente armados.

Sentaram-se no gabinete de Moraes, e Vasques repetiu a patranha de que se tratava de uma operação para fiscalizar pneus carecas de ônibus.

O magistrado, ex-secretário de Segurança de São Paulo, não entrou na discussão dos pneus e surpreendeu Vasques dizendo, com todas as palavras, que se ele não retirasse imediatamente os bloqueios seria preso.

Os bloqueios foram retirados, o diretor da PRF deixou o cargo e se aposentou aos 47 anos.

Tentar melar uma eleição poderia ter sido um projeto. Entrar com um grupo armado no gabinete de Moraes foi uma ideia errada querendo intimidar a pessoa errada.

Boa notícia

Na primeira semana da nova administração, saiu uma boa notícia da Secretaria de Comunicação do Planalto. Depois de quatro anos de caneladas, suspensão de serviços e silêncio, a Secom começou a remeter notícias do governo a jornalistas.

Mauro na Croácia

Não se pode atribuir ao governo de Michel Temer a remoção do embaixador Mauro Vieira, o chanceler de Dilma Rousseff, para a Croácia. Sendo chanceler o senador José Serra, Vieira foi mandado para a delegação do Brasil nas Nações Unidas.

Só em 2019, com o início da gestão de Ernesto Araújo, é que o diplomata foi exilado na Croácia.

No governo de Temer, a tradição do Itamaraty foi preservada: nas brigas internas vale quase tudo, desde que as vendettas não se tornem explícitas.

O Ministério de Lula

Tudo indica que Lula formou seu Ministério com 37 pessoas, obedecendo a lei geral pela qual, ao fim do processo, o presidente nomeia um terço dos ministros, colocando-os onde queria. Esse foi o caso de Fernando Haddad, Rui Costa e Luiz Marinho. No segundo terço, nomeia pessoas que desejava ver no Ministério, talvez em outra pasta. Neste grupo está Simone Tebet. No terço final, nomeia gente que mal conhecia. Se Lula conhecesse melhor Daniela Carneiro, não a teria colocado no Ministério, muito menos na pasta do Turismo. Produziu um espécime de jacaré com cobra d’água. Daniela, com suas conexões milicianas no ministério, e Marcelo Freixo, campeão das denúncias contra as milícias, na Embratur.

Lula fez uma nomeação que, expressamente, negava que viesse a fazê-la: Marina Silva para o Meio Ambiente.

A filantropia americana

Na segunda-feira, durante uma partida de futebol americano, o craque Damar Hamlin, de 24 anos, foi abalroado numa daquelas cenas típicas do esporte, perdeu os sentidos, teve uma parada cardíaca, foi reanimado e desde então luta pela vida num hospital. Essa é a má notícia esportiva.

A boa notícia:

Hamlin foi um menino negro criado num subúrbio de Pittsburgh. Em 2020, Hamlin criou uma instituição destinada a amparar e comprar brinquedos para crianças de sua cidade impactadas pela pandemia do Covid. Sua meta era arrecadar US$ 2.500.

Na tarde de quinta-feira, as doações chegavam a US$ 7,3 milhões.

No século XIX, viveu em Pittsburgh outro menino pobre. Andrew Carnegie tornou-se o homem mais rico dos Estados Unidos. Em 1889, aos 65 anos, ele disse que “morrer rico é uma desgraça”, passou o resto da vida distribuindo o que amealhou. Em dinheiro de hoje, doou US$ 5,5 bilhões, inclusive para 2.500 bibliotecas.

Alvo errado

O enciclopedismo do doutor Rui Costa levou-o a cometer uma injustiça. Criticou o que chama de “travas” que atrapalham o progresso do país e deu como exemplo a demora de até três anos da Anvisa para liberar a venda de remédios.

Durante as loucuras oficiais da pandemia, a Anvisa foi uma ilha de racionalidade, e seu presidente, Antônio Barra Torres, um valente defensor da agência.

Homem educado, lembrou que ainda não conversou com Costa. Quando o fizer, poderá explicar as dificuldades que afligem a instituição.

Barra Torres já sugeriu ao governo que abra um concurso para contratar novos servidores, pelo menos para preencher as vagas de quem pode se aposentar.

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