terça-feira, 21 de março de 2023

Carlos Andreazza - Federação de patrimonialismos

O Globo

Documento histórico em que encontrar a síntese do presidencialismo de alcolumbre, o arranjo que, tomando o lugar do de coalizão, ora define as relações entre Parlamento e governo. Refiro-me à entrevista de Elmar Nascimento à Folha de S.Paulo.

O deputado ficou conhecido ao discursar contra o governo Bolsonaro, em 22 de maio de 2019. O mais leve que disse: não teria palavra. Líder do DEM, acusou o Planalto de “procedimento canalha” no Parlamento. Falou que não tinha plantação de laranja e que não se escondia da Justiça. Era véspera de manifestação convocada pelo presidente — e ele denunciava apoiadores do governo na Câmara, então no PSL, que pregavam pelo fechamento do Congresso. Faltaria equilíbrio, moderação, àquela Casa.

De lá para cá, engenhou-se o orçamento secreto (o equilíbrio pela distribuição?), veio a ascensão de Lira (a moderação pelo trator?) e, tudo indica, a palavra (a gestão das emendas?) passou a ser cumprida; porque Nascimento fecharia com Bolsonaro, deixando de se incomodar com a pregação contra a República.

É hoje líder do União Brasil (estão lá os agentes radicalizados do finado PSL), a federação de patrimonialismos que se apregoa como partido político. Foi desse lugar que deu a entrevista. Quem a ler compreenderá que o não partido recebe cargos do governo Lula, posições que não pediu, mas de que não abre mão. “Depois que você dá, tirar complica.”

Né?

Esta é a configuração do União, segundo entendi: a) leva ministérios; b) que não demandou; c) cobrado sobre adesão à agenda do Planalto, objeta que os ministros são da cota dos donos do não partido; d) informa que a federação de patrimonialismos é independente; e) registra que pegará mal, para a relação, tirar a turma das cadeiras agora.

É possível, na entrevista, identificar um glossário do União Brasil. Independência seria a condição para que parlamentares negociassem individualmente os apoios, de votação em votação, via emendas. A independência do não partido consistiria em manter os cargos que tem, algo à parte, acerto por cima, sem compromissos de plenário, exigindo que o governo comerciasse, a cada projeto de interesse, com cada parlamentar.

Desnecessário explicar que federação de patrimonialismos também será de patrimonialistas. O conjunto faz volume e sobe preço. Atrai. Dissimula. É o novo papel da liderança. Mostrar e dar trânsito a esse tipo mui específico de independência. Sou independente na jurídica. Tem jogo na física. São 59 CPFs.

Por exemplo. A Sudene é do presidente do União Brasil, Luciano Bivar — não do União Brasil. Está dito. Imaginar que se terá o apoio do não partido por meio da distribuição de cargos equivale a investir em alcançar oásis no deserto. Miragem. Sempre se estará contemplando somente uma das facções que compõem conjunto rico em vendedores de lotes lunares.

Juscelino Filho é de Davi. Só não lhe queiram tirar o assento. Logo se torna do União, “atacado de forma injusta” — o pobre, que só quis usar jato da FAB para visitar leilões de cavalo (e ainda ganhar diárias). Juscelino, aliás, indicou filiado do União à direção dos Correios. Nascimento esclarece: é do partido, mas da cota do ministro.

O deputado expõe por que será impossível o governo formar base contando com o União: “[Na negociação de] cargo, participa a cúpula do partido. Mas 80% do Congresso, que é o baixo clero, quer saber de execução orçamentária. Quer saber de levar o posto de saúde, a pavimentação”.

Desenhe-se: os ministérios são dos alcolumbres; os elmares querem dinheiros para a Codevasf. A cúpula não lidera e vende o que não pode entregar. O partido não existe.

É transparente: “As urnas impuseram a Lula ampliar o diálogo”. Ao glossário. Diálogo ampliado: fazer andar o orçamento. Os meios estão dados. Ele lembra o acordo — formal, posto na Lei Orçamentária — para driblar o STF e sustentar a operação do orçamento secreto, agora sob a fachada dos recursos para ministérios. Foi o relator da emenda à Constituição que viabilizou um dos pilares para a continuidade do orçamento opaco e autoritário: a PEC da Transição. As condições estão postas. É só fazer girar.

Nascimento afinal formou na base de Bolsonaro, esquecido o laranjal, porque seu partido era chamado “para as políticas públicas”. Ao glossário. Participar da “condução do país na economia”: apoiar as PECs dos Precatórios e Kamikaze e garantir a produção de um Orçamento que estabelecesse como prioridade que a Codevasf se transformasse na maior asfaltadora do país.

O presidente da Codevasf foi indicação de Nascimento a Bolsonaro. E continua, sob Lula. Hoje “é de todo mundo”. E todo mundo lhe defende a permanência. Porque tem agilidade. Dá resultado. Nada a ver com as acusações de sobrepreço e de formação de cartel em pregões da empresa. Isso é maldade da imprensa.

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