terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Andrea Jubé - Fantasmas que assustam Lula neste Natal

Valor Econômico

E se um dos fantasmas que, na véspera de Natal, visitaram o velho Ebenezer Scrooge - personagem criado pelo inglês Charles Dickens - batesse à porta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na noite deste domingo (24), e o instasse a refletir sobre suas ações ao longo do ano? O petista demonstraria arrependimento ou regozijo pelos seus atos?

Neste clássico de Dickens, “Uma canção de Natal” (“A Christmas carol”), de 1843, Scrooge é abordado por três fantasmas que, um a um, apontam os erros que ele cometeu no passado, questionam sua conduta no presente, e lhe oferecem a chance de escolher outro caminho, e, dessa forma, escapar de um futuro amargo.

Num exercício de imaginação, a coluna propõe que o fantasma do passado visite o presidente, e o convide a reler o pronunciamento da vitória, no qual sentenciou - naquele dia 30 de outubro de 2022 - que “não existem dois Brasis”. No mesmo texto, ele exortou a população a superar as divergências políticas e unir-se pelo bem comum.

Provocado pela aparição, Lula reconheceria que vem sendo cobrado pelos aliados a redobrar os gestos aos eleitores que votaram no adversário. Ele tem feito acenos, mas vistos como ainda insuficientes.

No dia 12, por exemplo, em solenidade no Palácio do Planalto, ele convidou o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) - um dos principais aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) - a discursar. Tarcísio agradeceu a aprovação de um financiamento de R$ 10 bilhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para obras no Estado, e ainda gracejou: “Estou levando o maior cheque”. Quem não achou graça foram os bolsonaristas.

Após os atos de 8 de janeiro, Lula avançou na pacificação dos laços com as Forças Armadas. Numa demonstração de que a relação estreitou-se, o presidente almoça nesta terça-feira com novos oficiais das três Forças no clube da Aeronáutica.

Para aliados, entretanto, neste primeiro ano, os movimentos de Lula para se aproximar dos evangélicos e produtores rurais - grupos majoritariamente ligados ao bolsonarismo - foram ineficazes. E no caso do agronegócio, o governo anunciou um Plano Safra 2023/2024 com valor recorde de R$ 364 bilhões.

Essa insatisfação dos aliados refletiu-se na rodada de pesquisas divulgadas no começo do mês sobre a popularidade do presidente.

Os números do Datafolha revelaram uma conjuntura semelhante à da campanha eleitoral. Lula segue mais bem avaliado entre nordestinos e quem tem menos escolaridade, e com baixa aprovação no Sul e entre quem ganha mais de 10 salários mínimos mensais. Entre os evangélicos (28% da amostra do Datafolha), Lula é reprovado por 38% do segmento.

Diante da estagnação do ambiente político, o Datafolha sugere que ainda existem os “dois Brasis”, para incômodo de Lula. Ele expressou seu desconforto com a persistente cizânia em discurso no dia 15: “Tem pai que não conversa com filho, tem filho que não conversa com mãe, tem irmão que não conversa com irmão por causa de um facínora que pregou ódio durante quatro anos nesse país”.

O fantasma do futuro que também visitou o velho Scrooge alertaria Lula que esse quadro, se não for revertido, ou atenuado, pode levar a novo revés do PT nas eleições municipais em 2024.

Além disso, Lula faz gol contra ao pregar a conciliação, mas, simultaneamente, fustigar bolsonaristas e antipetistas ao comemorar a nomeação de um “comunista” para o Supremo Tribunal Federal (STF), em alusão a Flávio Dino, ex-filiado ao PCdoB. Lula deu mais munição aos adversários perto do Natal.

O fantasma do passado ajudaria Lula a se recordar que, no discurso da vitória, ele prometeu fazer a roda da economia girar. E ela girou, com a queda da inflação, dos juros, e a projeção de um Produto Interno Bruto (PIB) de 2,92% para este ano. Até o preço da carne baixou, para lembrar a promessa de que o povo voltaria a comer picanha.

Lula argumentaria que conseguiu aprovar quase todo o pacote econômico no Congresso, com destaque para a reforma tributária e a taxação dos fundos de alta renda. Falta votar, em especial, a medida provisória das subvenções do ICMS, que eleva a arrecadação em cerca de R$ 35 bilhões.

Mas para isso, o presidente vem pagando pedágios altos aos líderes do Centrão. Depois de assumir a presidência da Caixa Econômica Federal, o grupo do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), deve, nas próximas semanas, ser contemplado com as vice-presidências do banco.

Em gesto ao presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), senador Davi Alcolumbre (União Brasil), Lula desembarcou ontem no Amapá, base eleitoral do aliado. Na pauta, uma demanda antiga do influente senador: medidas para diluir impactos de reajustes de energia no Estado.

A associação de Lula ao velho Scrooge pode soar injusta, porque o personagem é famoso pela avareza, enquanto o presidente vai na contramão da austeridade fiscal do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. “Se for necessário este país fazer endividamento para crescer, qual o problema?”, pregou Lula, há uma semana. Nessa hora, foi para Haddad que a assombração apareceu.

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