segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Bruno Carazza* - Lula, Haddad e Gleisi na beira do abismo

Valor Econômico

Calcificação da população entre bolsonaristas e lulistas impõe desafio para Lula, segundo livro recém-lançado

Existem alguns livros que, escritos ainda no calor do resultado das eleições, conseguem captar movimentos na população que vão se perdurar pelos anos ou décadas seguintes.

Em “Os Sentidos do Lulismo: reforma gradual e pacto conservador”, lançado em 2012, André Singer demonstrou a fórmula pela qual Lula construiu, ao longo de seus dois primeiros mandatos presidenciais, um apoio sólido do eleitorado mais pobre que mudou o mapa eleitoral do país, pintando de vermelho o amplo território que vai do norte de Minas, avança por todo o Nordeste e penetra pelo interior da Bacia Amazônica.

Na ressaca após o fechamento das urnas em 2018, Jairo Nicolau se muniu de dados de pesquisas eleitorais e estatísticas econômicas e sociais para fazer uma “radiografia da eleição de Jair Bolsonaro”. Suas constatações indicavam uma direção que não tinha nada de circunstancial: “O Brasil Dobrou à Direita”, título de sua obra de 2019.

Em 2022, os dois Brasis tão bem descritos por Singer e Nicolau se enfrentaram na campanha eleitoral mais acirrada da história. No embate entre Lula e Bolsonaro, famílias se dividiram, amizades foram desfeitas, preconceitos sociais e regionais afloraram de modo violento.

No recém-lançado “Biografia do Abismo: como a polarização divide famílias, desafia empresas e compromete o futuro do Brasil”, o jornalista Thomas Traumann e o cientista político Felipe Nunes explicam que a sociedade brasileira não apenas saiu rachada do segundo turno (50,9% para Lula, 49,1% para Bolsonaro).

O argumento central do novo livro é que o lulismo delineado por André Singer e o antipetismo convertido em bolsonarismo apresentado por Jairo Nicolau resultaram num cenário que vai muito além da polarização eleitoral.

A partir de dados levantados pela Quaest, o instituto de pesquisa dirigido por Felipe Nunes, ele e seu parceiro Thomas Traumann defendem que essa rivalidade política transbordou para outras dimensões da convivência social, dividindo os brasileiros segundo seu comportamento social, opções de consumo e até mesmo escolhas afetivas.

Com pesquisas realizadas antes e depois das eleições de 2022, os autores mostram que os eleitores de Lula e Bolsonaro se distinguem em relação aos canais de TV e portais de internet pelos quais se informam, tendem a cancelar artistas que declaram apoio ao político adversário e afirmam boicotar empresas e marcas que se identificam com valores mais progressistas ou conservadores em termos de costumes. Uma parcela crescente dos pais admite escolher a escola nas quais pretendem matricular seus filhos não em termos da qualidade do ensino, mas segundo a interpretação dada a temáticas polêmicas sobre política e valores sociais e religiosos.

Traumann e Nunes argumentam que a sociedade brasileira se encontra calcificada em dois grupos que usam a polarização político-eleitoral para traduzir suas visões sobre a economia, direitos de gênero e identidade sexual, e o papel do Estado como árbitro de disputas como os limites da liberdade de expressão e do uso de armas como autodefesa.

Na calcificação da sociedade brasileira, os autores destacam que os blocos lulista e bolsonaristas não são monolíticos. Segundo as pesquisas, o terreno lulista é composto por 30% da população pertencente às classes D e E, dependentes de políticas sociais e programas de transferência de renda; 10% de progressistas (pessoas sensíveis às causas de diversidade, ambiental, cultura e movimentos sociais) e 8% de petistas de carteirinha.

Completou o grupo que deu vitória a Lula em 2022 um pequeno segmento de 3% dos eleitores caracterizados como “liberais sociais” - aqueles que no primeiro turno optaram por Simone Tebet, mas, temerosos das consequências de uma possível reeleição de Bolsonaro, escolheram Lula mesmo sendo críticos às administrações petistas anteriores.

Já a massa bolsonarista é formada por uma mistura de 29% da população caracterizada como “conservadora cristã” (evangélicos e católicos defensores da tradição, família e propriedade); 14% do eleitorado ligado ao universo do agronegócio, e por isso defensores do uso de armas e críticos à política ambiental, indígena e às invasões de terras; 4% da população classificada como “empreendedores”, com aversão ao inchaço do Estado, ao tamanho da carga tributária e à corrupção dos governos anteriores do PT; e 2% dos eleitores fortemente influenciados por ideias preconceituosas, fascistas e antidemocráticas.

O embate que aflorou novamente nas últimas semanas entre Fernando Haddad e Gleisi Hoffmann representa o dilema de Lula sobre como transpor o abismo político, eleitoral e social descrito por Thomas Traumann e Felipe Nunes.

De um lado, Haddad parece apostar no fortalecimento da ponte construída com os “liberais sociais” no segundo turno de 2022, com uma política fiscal mais austera e reformas na tributação do consumo e da renda. Já Hoffmann acredita na expansão dos gastos para fazer uma conexão direta com parte do eleitorado bolsonarista mais sensível ao crescimento econômico e emprego.

Somente Lula poderá decidir se a travessia do abismo será feita pela ponte ou saltando sobre o desfiladeiro.

*Bruno Carazza é professor associado da Fundação Dom Cabral e autor de “Dinheiro, Eleições e Poder: as engrenagens do sistema político brasileiro” (Companhia das Letras)”.

3 comentários:

  1. Excelente! Mas suponho que Lula não pense apenas na dicotomia usada pelo colunista pra finalizar seu texto. Situações complexas exigem soluções complexas, não as simplificações tão ao gosto dos colunistas!

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