O Globo
O general Augusto Heleno, condenado a 21 anos
de prisão, revelou durante um exame médico que convive com o mal de Alzheimer
desde 2018. Um ano depois desse diagnóstico, ele passou a ocupar a chefia do
Gabinete de Segurança Institucional (GSI).
A trama golpista de 2022/2023 não foi a única
encrenca pela qual Augusto Heleno passou. Na manhã de 21 de outubro de 1977, o
capitão Augusto Heleno era ajudante de ordens do ministro do Exército, general
Sylvio Frota, que acabara de ser demitido pelo presidente Ernesto Geisel. Por
volta das 10 horas da manhã, do carro de seu chefe tentou telefonar para o
general Fernando Bethlem, comandante das guarnições do Sul, convocando-o para
reunião do Alto Comando na qual Frota pretendia emparedar Geisel. Não o achou,
pois Bethlem foi para o Palácio do Planalto, onde recebeu o convite para
assumir o ministério.
Um ano depois, Augusto Heleno era vigiado pelo Serviço Nacional de Informações: “Vale lembrar que o capitão de cavalaria Augusto Heleno, ex-ajudante de ordens do general Sylvio Frota e que com o mesmo continua a manter estreita ligação, e o capitão de infantaria paraquedista Burnier (filho do brigadeiro Burnier) e ligado ao general Hugo Abreu, irão cursar a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais.”
Em 2008, o sertanista Sydney Possuelo,
comparou-o ao coronel americano George Custer (1839-1876), que massacrou
indígenas Sioux e foi massacrado no combate de Little Bighorn.
Em 2018, ano em que foi diagnosticado o seu
Alzheimer, o general Heleno disse na Escola Superior de Guerra que “na hora em
que começarem as operações pontuais (do Exército no Rio), vai aparecer um monte
de caras chiando sobre direitos humanos. Se os humanos direitos não têm
direitos humanos, primeiro temos que consertar isso.”
Disse mais: “A Colômbia ficou 50 anos em
guerra civil porque não fizeram o que fizemos no Araguaia.”
Heleno nunca explicou o que “fizemos no
Araguaia”. Lá o Exército combateu uma guerrilha e matou não só os combatentes,
mas também os guerrilheiros que se entregaram.
Encrencas militares estão na história da
família do general. Em 1912, seu avô, o então capitão de fragata Augusto Heleno
foi designado para o Conselho de Guerra que julgou os marinheiros rebelados
naquela que se tornou conhecida como Revolta da Chibata.
Heleno está preso no Comando Militar do
Planalto e sua condenação transitou em julgado. Mesmo assim, fica uma dúvida.
Na fatídica reunião de 5 de julho de 2022, antes da eleição, portanto, ele
disse:
“Não vai ter revisão do VAR. Então, o que
tiver que ser feito tem que ser feito antes das eleições. Se tiver que dar soco
na mesa é antes das eleições. Se tiver que virar a mesa é antes das eleições”.
Ele admitia virar a mesa antes, mas foi
condenado por uma trama que pretendia dar o golpe depois da eleição.
A paranoia de Bolsonaro é velha
O episódio da tornozeleira expôs a propensão
de Jair Bolsonaro a atravessar surtos de paranoia. Ele estaria fuçando o
aparelho porque suspeitava que lá houvesse um dispositivo de escuta.
Seus aliados surpreenderam-se. Tudo bem, mas
a paranoia de Bolsonaro está nas livrarias desde 2020, desde que a repórter
Thaís Oyama publicou o livro “Tormenta”. Ela contou alguns episódios do início
do governo do ex-capitão.
Bebendo água de coco na piscina do Alvorada,
lugar onde se sentia livre de escutas, Bolsonaro revelou que temia um ataque de
drones.
O presidente temia ser traído pelo vice,
Hamilton Mourão.
Certo, quem estava era o general Augusto
Heleno quando disse (e foi gravado): “É um despreparado.”
O risco Ramagem
A fuga do ex-chefe da Agência Brasileira de
Inteligência para os Estados Unidos obrigou o que resta da comunidade de
informações a calcular o prejuízo decorrente do gesto.
Nunca será demais lembrar que o chefe da Abin
durante o governo de um ex-capitão do Exército, que se cercou de militares,
aninhou-se alhures levando consigo uns poucos segredos.
As farofas de Vorcaro
Preso, o banqueiro Daniel Vorcaro poderia
contar as intenções e os efeitos das farofas que financiou. Noves fora seus
contratos de consultoria de petistas ilustres, Vorcaro tinha um fraco por
eventos.
Em 2014 ele teria pagado R$ 1 milhão por uma
farofa em Londres, enfeitada por quatro ministros do Supremo Tribunal Federal
(STF) e pelo ex-primeiro-ministro Tony Blair, que adora uma boquinha.
MP em chamas
O governador Cláudio Castro deve repensar sua
relação com o Ministério Público do Rio. Lá grassa uma contrariedade que daqui
a pouco irá para a rua.
Em outubro, um dia antes da matança da Penha,
o Superior Tribunal de Justiça (STJ) derrubou a liminar obtida por Cláudio
Castro, em benefício da refinaria de Manguinhos, leia-se Refit.
As relações de Castro com a refinaria
envenenaram seu trato com uma banda da Procuradoria.
O Ministério Público do Rio foi esquecido na
quarta-feira, quando a Polícia Federal, a Receita e outras procuradorias saíram
atrás dos malfeitos da refinaria de sonegações da Refit.
O berço do capitalismo
Saiu nos Estados Unidos um livro intrigante:
“Capitalism, a Global History”, do historiador Sven Beckert, da universidade
Harvard. Ele data a origem desse fenômeno econômico e cultural em torno do ano
1150. Em Florença? Bruges? Amsterdam? Nada disso, o berço do capitalismo
estaria na cidade portuária de Aden, que hoje faz parte do Iêmen, um dos países
mais pobres do mundo. A esse tempo, o comércio da Arábia com África, Índia e
China vivia um período de esplendor, enquanto a Europa estava metida nas
superstições da Segunda Cruzada, que foi batida pelos infiéis.
Cinco séculos depois, o capitalismo avançou,
com o açúcar do Caribe e a prata boliviana de Potosi. Isso e mais, a reinvenção
da escravatura.
No mínimo, Beckert ensina que países andam
para trás.
Pura suspeita
Astrólogos metidos em interpretações
diplomáticas suspeitam que em sua conversa com Lula, o presidente americano
Donald Trump tratou especificamente da Venezuela e Lula respondeu
genericamente, condenando uma intervenção, e só.
Imperador Alcolumbre
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, não
gostou da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, atropelando seu
colega Rodrigo Pacheco e jogou uma pauta-bomba na direção do Planalto.
O Senado pode rejeitar a indicação de
Messias, é o jogo jogado, mas não é razoável que uma indicação para o Supremo
Tribunal Federal seja detonada porque um senador foi preterido e o presidente
da Casa zangou-se.
O doutor queria fulminar Messias com uma iminente sessão relâmpago, mas foi driblado pelo Planalto, que segurou o ofício da nomeação e ganhou tempo.

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