O Globo
Na semana em que o Brasil puniu golpistas pela primeira vez, parlamentares impõem um retrocessos brutal, com ameaças ao meio ambiente
A democracia brasileira não permite descanso.
Na mesma semana em que o Brasil atravessou uma fronteira histórica para
fortalecer os pilares do regime das liberdades, o Congresso humilha o país
mostrando que é capaz de tudo para atender a interesses menores. Não foi o
governo que o Congresso derrotou com suas pautas-bomba e destruição das leis de
proteção ambiental e do patrimônio histórico. Foi o país.
O Brasil nunca havia punido golpistas. Passou toda a história republicana assombrado por golpes, tentativas de golpes, quarteladas e pela ideia dos militares de que lhes cabia tutelar o poder civil. Prender generais e um ex-presidente condenados após o devido processo legal por tentativa de golpe é um passo gigante. Os que têm a democracia como valor supremo poderiam, quem sabe, depois disso, descansar um pouco da grande batalha.
Foi doloroso atravessar o tempo em que Jair
Bolsonaro e seus ajudantes civis e militares diuturnamente atentaram
contra a democracia. Nós que vivemos os dolorosos 21 anos de ditadura sabíamos
o risco que o país corria a cada dia, entendíamos todos os gestos da
conspiração, ouvimos todas as ameaças. Vivemos quatro anos a iminência de nova
tragédia cívica.
A prisão inédita na História de generais,
almirante e ex-presidente não pode ser vista como um acerto de contas com o
passado, tem que ser um pacto com o futuro. É a chance do fim do golpismo
crônico, um acordo entre dessemelhantes em torno de princípios comuns. A
democracia é assim. A concordância tem que ser sobre valores republicanos, mas
não a imposição do pensamento único. É bem-vinda a discordância.
Discordar não é usar o Parlamento como
vingança, alegando estar em briga com o governo para ferir o país, seu
patrimônio e sua chance de futuro. O PL da Devastação que o Congresso
restabeleceu, ao derrubar os vetos do presidente Lula, é um retrocesso brutal.
É a demolição de leis, normas, limites criados em décadas de esforço. É colocar
em risco preciosidades.
O governo errou no varejo. O Congresso erra
no atacado. Lula tem a prerrogativa de indicar o nome de ministros do STF.
Portanto, não tinha mesmo que se curvar à vontade do senador Davi Alcolumbre.
Mas deveria ter feito diferente. Perto do recesso do Judiciário, o governo
poderia ter deixado a nomeação de Jorge Messias para o ano que vem. E em
qualquer tempo de sua escolha deveria ter comunicado ao senador antes de tornar
a decisão pública. Na Câmara, poderia ter agido com mais temperança e
estratégia diante do risco da desfiguração, com propósitos político-eleitorais,
do projeto antifacção. Aliás, o próprio envio do projeto é discutível. Mais
eficientes contra o crime têm sido as operações de inteligência financeira como
a Carbono Oculto.
O governo errou nos modos, o Congresso errou
o alvo. Não foi por estar “de mal” com o Executivo que o Congresso fez o que
fez. É o que ele quis fazer desde sempre. Há muito tempo, grupos de
parlamentares, lobbies do agronegócio e de empreiteiros querem demolir as leis
ambientais do país. Há anos conspiram. O conflito com o governo foi pretexto. É
oportunismo. A votação dos vetos estava marcada quando houve a reação à PEC da
Blindagem. Eles recuaram, temendo a impopularidade. Depois decidiram esperar
a COP. Não
foi resposta na briga com o Executivo. Foi crime premeditado.
Estamos agora andando sobre os escombros do
edifício de proteção construído com zelo e luta. Tudo está em risco. A
Sociedade de Arqueologia Brasileira alerta que todos os sítios arqueológicos do
país estão correndo perigo de serem destruídos antes de serem descobertos.
Empreendedores podem iniciar a maioria das obras sem qualquer licenciamento.
Não precisam ouvir o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Se a lei valesse em 2011, não teríamos preservado o Cais do Valongo.
A partir de agora se um grileiro declarar um
Cadastro Ambiental Rural em terra pública, pode fazer qualquer coisa, e não
precisa esperar a validação por órgãos ambientais. A preciosa e frágil Mata
Atlântica poderá ter vegetação suprimida. Perdeu a blindagem. Obras em terras
indígenas ainda não homologadas podem ser iniciadas sem ouvir os indígenas.
Pareceres do Ibama, ICMBio e
Funai tornaram-se facultativos. Estados e municípios podem fazer suas normas
ambientais ignorando leis federais.
É um erro dizer que o Congresso derrotou o governo. Ele atirou na democracia.

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