quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A agenda econômica da sustentabilidade. Por Jorge Arbache

Valor Econômico

Choques geopolíticos colocaram essa agenda em segundo plano, mas ela inevitavelmente voltará ao centro por forças microeconômicas e pela intensificação dos riscos climáticos

Nos últimos anos, a agenda econômica da sustentabilidade parecia ter se consolidado como um dos eixos centrais do capitalismo contemporâneo. Energias renováveis, veículos elétricos, baterias, hidrogênio, economia circular e finanças verdes ganharam espaço nas decisões de investimento, nas políticas públicas e nas estratégias corporativas. A combinação entre regulação, inovação tecnológica, pressão social e abundância de capital criou uma trajetória de expansão que muitos interpretaram como irreversível.

Esse quadro, no entanto, começou a mudar de forma visível. Transformações geopolíticas recentes lançaram uma sombra pesada sobre essa agenda. Nos Estados Unidos, a política econômica foi radicalmente reorientada e o tema climático perdeu centralidade. Bancos recuaram de compromissos voluntários ligados ao clima, empresas revisaram estratégias e montadoras anunciaram cancelamentos de investimentos em veículos elétricos. O setor de carvão, petróleo e gás voltou a ganhar protagonismo, inclusive no acesso a financiamento, e até bancos multilaterais passaram a flexibilizar restrições ao setor.

À primeira vista, tudo indica que a agenda econômica da sustentabilidade perdeu tração

Na Europa, o movimento tem sido menos abrupto, mas não menos relevante. O escopo e o orçamento do EU Green Deal passaram a ser questionados, medidas ambientais foram flexibilizadas e a agenda verde passou a disputar espaço com restrições fiscais, pressões políticas e a agenda de defesa. À primeira vista, tudo indica que a agenda econômica da sustentabilidade perdeu tração.

Mas será mesmo que essa agenda morreu? Há razões sólidas para acreditar que ela pode desacelerar, mas dificilmente será interrompida. A primeira é microeconômica. Em vários segmentos, tecnologias verdes já se tornaram custo-eficientes, independentemente de subsídios ou incentivos regulatórios. Em muitas regiões, a geração solar e eólica já é a forma mais barata de expansão da oferta de energia. Quando uma tecnologia se torna economicamente superior, ela tende a sobreviver mesmo em ambientes políticos adversos.

Além disso, novas tecnologias continuam a emergir em diversos setores, não por altruísmo climático, mas porque reduzem custos, aumentam a competitividade ou mitigam riscos. Eficiência energética, novos materiais, agricultura de baixo carbono e soluções baseadas na natureza avançam porque fazem sentido econômico. Essa dinâmica cria uma base estrutural que não desaparece com mudanças de governo.

Uma segunda razão é o peso dos investimentos já realizados. Cadeias produtivas foram estruturadas, ativos construídos e bilhões de dólares comprometidos. Empresas não parecem dispostas a abrir mão desses investimentos. Nos Estados Unidos, projetos iniciados sob incentivos da administração anterior estão sendo judicializados após tentativas de cancelamento, justamente porque há capital afundado, contratos assinados e expectativas de retorno. A economia política dos investimentos cria inércia e resistência à reversão.

Há ainda o papel do sistema financeiro. Trilhões de dólares foram alocados ou comprometidos com estratégias relacionadas à sustentabilidade. Esses recursos não desaparecem simplesmente porque o ambiente político se tornou menos favorável. Gestores de ativos, fundos de pensão e investidores institucionais tendem a reagir para preservar valor, sustentando os investimentos verdes.

Talvez o argumento mais poderoso esteja fora da esfera política de curto prazo. A mudança do clima não vai parar. Ao contrário, seus efeitos tendem a se intensificar, ampliando riscos econômicos concretos. Eventos naturais extremos já afetam mercados imobiliários, infraestruturas produtivas e cadeias de valor inteiras. Em diversas regiões, observa-se aumento acelerado dos prêmios de seguro ou até a retirada completa da cobertura.

As implicações econômicas são profundas. Onde o seguro se torna caro ou inexistente, o crédito desaparece. Sem financiamento, ativos perdem valor, investimentos cessam e economias locais entram em declínio. O potencial de destruição de riqueza é multibilionário, e pequenas empresas e famílias de menor renda são especialmente vulneráveis. Cresce, assim, a percepção de que a mudança do clima deixará de ser apenas um tema ambiental e passará a ser tratada como questão de segurança econômica.

Enquanto Estados Unidos e Europa parecem paralisar ou desacelerar, a China segue trajetória distinta. O país já lidera ou colidera setores estratégicos como veículos elétricos, energia solar e eólica, baterias e refino de minerais críticos. Sua posição dominante em terras raras e nas cadeias de suprimentos associadas à transição energética foi construída ao longo de anos. Com a retração de seus concorrentes, a tendência é que essa vantagem se amplie, levando a posições quase monopolistas.

Isso tem implicações econômicas e geopolíticas profundas. Se a agenda econômica da sustentabilidade retornar, como tudo indica que retornará, impulsionada por forças microeconômicas e pela intensificação dos riscos climáticos, o mundo se tornará ainda mais dependente da liderança chinesa.

E onde entra o Brasil? O país possui um estoque de capital natural sem paralelo. Energia renovável abundante, água, florestas, biodiversidade, minerais críticos e terras raras criam condições para que muitos negócios verdes sejam competitivos mesmo sem subsídios. O powershoring, a relocalização de cadeias de valor intensivas em energia para regiões com oferta limpa, barata e abundante, representa uma oportunidade econômica singular.

Capturar esses benefícios, no entanto, exige estratégia. O que se observa hoje é uma abordagem fragmentada e imediatista, que repete erros do passado ao privilegiar a exportação de commodities, sejam minerais críticos, hidrogênio verde ou datacenters, desconectados de uma política tecnológica e industrial de agregação de valor. Falta ambição e uma visão integrada que articule política industrial e comercial, inovação tecnológica e gestão estratégica do capital natural.

A mensagem central é clara. A agenda econômica da sustentabilidade não morreu. Ela atravessa uma fase de ajuste, tensionada por choques geopolíticos e escolhas políticas de curto prazo. Seus fundamentos permanecem ancorados em determinantes econômicos objetivos. A questão central é quem estará melhor posicionado quando essa agenda inevitavelmente voltar ao centro do jogo.

 

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