O Estado de S. Paulo
Quais as reais intenções de Trump em Gaza: paz, resort macabro ou se sentir dono do mundo?
Dúvida atroz de Lula: aceitar ou não o
convite de Donald Trump para integrar o tal Conselho de Paz para a Faixa de
Gaza, sem saber ou compreender exatamente o que está por trás tanto do convite
quanto da criação do próprio conselho? Em se tratando de Trump, tudo é possível
e as piores respostas são sempre as mais prováveis. E se for uma armadilha?
Depois de ameaçar ser presidente da Venezuela, da Groenlândia e, quem sabe, do Canadá, Trump cria e assume a presidência do conselho de paz em Gaza passando por cima da ONU, escolhe os membros e estabelece as regras e condições, como mandato de três anos e o preço de US$ 1 bilhão, por país, para uma vaga vitalícia.
Dessa vez, a gula de Trump não é por petróleo
nem por questões estratégicas, mas simplesmente para agir como dono e grande
pacificador do mundo. Ou será para transformar seu sonho em realidade e criar
um resort onde magnatas possam se divertir sobre os destroços e os milhares de
cadáveres de Gaza?
Pode-se apostar que Trump não meteu Lula no
meio pela “ótima química” entre eles, porque Jair Bolsonaro mudou para a
Papudinha ou para dar um verniz de “pluralidade” para o conselho, já que Lula
classifica os ataques em Gaza como “genocídio” e mantém um rompimento branco
com Israel.
Trump não está nem aí para “pluralidade”, mas
gosta tanto de terras raras quanto de petróleo e muito mais do que de resorts
macabros. O convite a Lula pode, portanto, estar no contexto de um acordo em
que o Brasil entre com seu subsolo e os EUA, com sua tecnologia, para a
exploração de minerais críticos.
A França já rejeitou o convite, mas o Brasil
negar seria deselegante diplomaticamente, já que, à primeira vista, a
iniciativa de Trump é uma deferência com Lula e o conselho, tal como anunciado,
é para buscar consensos pela paz e a reconstrução de Gaza. Como dizer não?
De outro lado, há riscos em aceitar. Lula
pode se ver, ou fazendo claque para Trump, ou impedindo consensos
anti-palestinos. Nos dois casos, haveria reflexos no Brasil, num ano eleitoral.
Como as intenções de Trump não são claras, é melhor prevenir do que remediar.
Pular fora, depois de aceitar, ficaria ainda pior.
Planalto e o Itamaraty quebram a cabeça para
tentar captar o real interesse de Trump e consideram, inclusive, uma saída de
fininho. Como se negasse um compromisso importante, mas chato, Lula
agradeceria, lamentaria muito e argumentaria que está muito ocupado. Só não vai
poder lamentar a ausência depois, se os resultados forem realmente fabulosos,
nem reclamar quando, ao contrário, começarem as obras do resort dos sonhos de
Trump em Gaza. •

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