terça-feira, 20 de janeiro de 2026

A dúvida atroz de Lula sobre Gaza. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Quais as reais intenções de Trump em Gaza: paz, resort macabro ou se sentir dono do mundo?

Dúvida atroz de Lula: aceitar ou não o convite de Donald Trump para integrar o tal Conselho de Paz para a Faixa de Gaza, sem saber ou compreender exatamente o que está por trás tanto do convite quanto da criação do próprio conselho? Em se tratando de Trump, tudo é possível e as piores respostas são sempre as mais prováveis. E se for uma armadilha?

Depois de ameaçar ser presidente da Venezuela, da Groenlândia e, quem sabe, do Canadá, Trump cria e assume a presidência do conselho de paz em Gaza passando por cima da ONU, escolhe os membros e estabelece as regras e condições, como mandato de três anos e o preço de US$ 1 bilhão, por país, para uma vaga vitalícia.

Dessa vez, a gula de Trump não é por petróleo nem por questões estratégicas, mas simplesmente para agir como dono e grande pacificador do mundo. Ou será para transformar seu sonho em realidade e criar um resort onde magnatas possam se divertir sobre os destroços e os milhares de cadáveres de Gaza?

Pode-se apostar que Trump não meteu Lula no meio pela “ótima química” entre eles, porque Jair Bolsonaro mudou para a Papudinha ou para dar um verniz de “pluralidade” para o conselho, já que Lula classifica os ataques em Gaza como “genocídio” e mantém um rompimento branco com Israel.

Trump não está nem aí para “pluralidade”, mas gosta tanto de terras raras quanto de petróleo e muito mais do que de resorts macabros. O convite a Lula pode, portanto, estar no contexto de um acordo em que o Brasil entre com seu subsolo e os EUA, com sua tecnologia, para a exploração de minerais críticos.

A França já rejeitou o convite, mas o Brasil negar seria deselegante diplomaticamente, já que, à primeira vista, a iniciativa de Trump é uma deferência com Lula e o conselho, tal como anunciado, é para buscar consensos pela paz e a reconstrução de Gaza. Como dizer não?

De outro lado, há riscos em aceitar. Lula pode se ver, ou fazendo claque para Trump, ou impedindo consensos anti-palestinos. Nos dois casos, haveria reflexos no Brasil, num ano eleitoral. Como as intenções de Trump não são claras, é melhor prevenir do que remediar. Pular fora, depois de aceitar, ficaria ainda pior.

Planalto e o Itamaraty quebram a cabeça para tentar captar o real interesse de Trump e consideram, inclusive, uma saída de fininho. Como se negasse um compromisso importante, mas chato, Lula agradeceria, lamentaria muito e argumentaria que está muito ocupado. Só não vai poder lamentar a ausência depois, se os resultados forem realmente fabulosos, nem reclamar quando, ao contrário, começarem as obras do resort dos sonhos de Trump em Gaza. •

 

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