Valor Econômico
Trump acredita claramente que não saber nada sobre um conflito é a maneira mais fácil de resolvê-lo. Mas essa estratégia de “ignorância é força” ainda não produziu resultados estáveis
Muitos elementos da reunião recente do
presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, com Donald Trump em Mar-a-Lago foram
desconcertantes, para não dizer deprimentes. Para começar, nenhum funcionário
americano recebeu o chefe de Estado ucraniano em sua chegada a Miami, o que
contrasta fortemente com a pompa e circunstância dispensadas ao presidente
russo, Vladimir Putin, em Anchorage (Alasca), em agosto passado.
Mas ainda mais perturbadora foi a completa ausência de diplomatas treinados e experientes do lado americano da mesa de negociações. Em vez disso, estavam a chefe de Gabinete da Casa Branca, Susie Wiles, e seu adjunto, Steve Witkoff, promotor imobiliário com ligações de longa data com a Rússia, além do genro do presidente Donald Trump, Jared Kushner.
Em meio a todos os danos causados por Trump
no primeiro ano de seu segundo mandato, a destruição da capacidade diplomática
dos Estados Unidos recebeu relativamente pouca atenção. Mas, combinado à
destruição do sistema de saúde pública e o abandono indiscriminado da energia
limpa, isso pode vir a ser o que terá mais consequências.
É claro que os presidentes dos EUA têm o
direito de nomear embaixadores de sua preferência, e muitos escolheram
generosos doadores de campanha. Mas esses cargos são sempre para capitais menos
importantes, onde os nomeados talvez possam se safar com uma ridícula falta de
conhecimento de suas funções (algo que o senador John McCain expôs de forma
memorável durante a Presidência de Barack Obama).
Mas, como é frequente, a conduta de Trump é
única. O nepotismo demonstrado durante sua segunda Presidência é descarado.
Assim, nomeou o pai de Kushner, um criminoso condenado, como embaixador na
França; e nomeou a ex-namorada de seu filho como embaixadora na Grécia (cujos
cidadãos ela no passado ridicularizou como “aproveitadores”).
Fora isso, há a designação de figuras
completamente desqualificadas para missões não só delicadas, mas totalmente
ofensivas. O esforço de Trump para “adquirir” a Groenlândia, um território
autônomo da Dinamarca, é liderado pelo governador da Louisiana, o que agrava
ainda mais a ofensa contra um aliado da Otan. Outros cargos importantes foram
deixados vagos, o tamanho do Conselho de Segurança Nacional foi reduzido pela
metade e a aparente falta de preparação para o dia seguinte à captura do
presidente venezuelano, Nicolás Maduro, atesta a ausência de um processo
deliberativo, a má coordenação e a escassez de pessoal qualificado.
A destruição da capacidade diplomática dos
EUA é, em parte, resultado de uma busca equivocada pela eficiência (repetindo o
esforço fracassado do secretário de Estado do primeiro mandato de Trump, o
infeliz ex-executivo da Exxon, Rex Tillerson). Mas também é consequência de
desatenção pura, que resultou em falta de coordenação e caos, lembrando o
primeiro governo Trump.
A guerra contra os diplomatas faz parte de
uma campanha de longa data contra o profissionalismo, que canaliza o
anti-intelectualismo americano. Trump está tornando os EUA mais pobres, mais
fracos e mais manipuláveis no cenário mundial
Isso não passou despercebido pelos
adversários dos EUA. Eles estão tirando partido da situação, com alguns até
determinando de fato a composição das equipes diplomáticas dos EUA. Como
mostrou uma investigação do Wall Street Journal, o governo Trump permitiu que
seu próprio enviado especial para a Ucrânia e a Rússia fosse completamente
marginalizado em favor de Witkoff. (Além disso, o príncipe herdeiro saudita,
Mohammed bin Salman, ansioso por afirmar um papel internacional mais importante
para a Arábia Saudita, aparentemente teve um papel chave na obtenção do
resultado preferido por Putin.)
Em tese, confiar em rostos novos e numa
abordagem pouco ortodoxa pode ser defensável. Aqueles que não estão presos ao
senso comum podem ser capazes de encontrar concessões ao “pensar fora da
caixa”. O próprio Trump acredita claramente que não saber nada sobre um
conflito é a maneira mais fácil de resolvê-lo. Mas essa estratégia de
“ignorância é força” ainda não produziu resultados estáveis.
Qualquer esperança de que os próprios EUA
obtivessem benefícios ao se tornarem mais imprevisíveis foi frustrada,
sobretudo porque Trump e seus leais enviados ao mundo são totalmente
previsíveis. Eles declararam abertamente o desejo de buscar “acordos”
financeiramente vantajosos, o que implicou deixar de lado preocupações
geopolíticas ou estratégicas. De todas as formas possíveis, começando pela
“suspensão” do cumprimento da Lei sobre Práticas Corruptas no Exterior, o
governo Trump sinalizou que os EUA não só estão abertos a negócios, como também
dispostos a aceitar subornos.
Nesta perspetiva, o caminho para uma paz
duradoura é pavimentado com oportunidades de negócios mutuamente benéficas.
Embora ostensivamente comprometidos com o “iliberalismo”, os trumpistas na
verdade exibem uma crença ingênua e canonicamente liberal no que os pensadores
do século 18 chamavam de doux commerce (“comércio gentil”). Porém, como a
Alemanha aprendeu do jeito mais difícil quando confiou nas relações comerciais
para transformar a Rússia para melhor, os supostos benefícios da
interdependência não se materializarão se uma das partes tiver outras
prioridades.
A guerra contra os diplomatas faz parte de
uma campanha de longa data contra o profissionalismo. Embora o movimento Maga
(Make America Great Again) de Trump alimente o ressentimento contra “a elite”,
nem todos os poderosos estão incluídos nessa categoria. Os apoiadores do Maga
não têm qualquer problema com os bilionários que dominam o Gabinete de Trump -
só com aqueles que reivindicam autoridade com base em formação e educação
especializadas. Em suma: burocratas não-eleitos são maus; promotores
imobiliários não-eleitos são bons.
Ao criar a impressão de que os profissionais
menosprezam as pessoas comuns e não conseguem ver soluções que qualquer pessoa
com bom senso poderia descobrir, o Maga canaliza a longa tradição americana de
anti-intelectualismo. Nesse processo, Trump está tornando os Estados Unidos
mais pobres, mais fracos e mais manipuláveis no cenário mundial. Embora seja
possível encontrar motivos para criticar a tão alardeada “ordem internacional
liberal”, pelo menos ela reconhecia uma demanda global real por regras comuns e
estabilidade.
Trump, agora envolvido num projeto
neoimperialista descarado na Venezuela, deu à China uma oportunidade de ouro
para se apresentar como a garantidora dessa estabilidade. A China também pode
se apresentar como oferecendo o tipo de especialização que Trump destruiu de
forma arbitrária (mesmo que seu soft power não seja nem de longe comparável ao
dos EUA). Tal como acontece com muitas outras marcas registradas do Trump 2.0,
a destruição da diplomacia americana levará os historiadores do futuro a
questionar por que os EUA decidiram jogar fora tanto, em tão pouco tempo e de
forma tão insensata. (Tradução
de Fabrício Calado Moreira)
*Jan-Werner Mueller é professor de política na Universidade de Princeton.

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