Correio Braziliense
Do ponto de vista da relação
com os Estados Unidos e a China, o acordo com a UE funciona como contrapeso
oportuno. Permite ao Brasil resistir a acordos bilaterais muito assimétricos
O acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia reposiciona o Brasil no tabuleiro internacional num momento de forte turbulência geopolítica mundial. A combinação entre o unilateralismo norte-americano, a crescente centralidade da China na economia globalizada e a crise de governança regional na América do Sul exige do governo Lula que evite o alinhamento automático a qualquer polo de poder. Nesse aspecto, o acordo com a UE amplia a margem de manobra estratégica do Brasil tanto diante dos Estados Unidos quanto da China. Há que se destacar o mérito do Itamaraty, que persistiu na construção das bases do acordo com muita resiliência, durante 26 anos.
A política externa dos EUA sob a liderança de
Donald Trump tem se caracterizado por ações unilaterais, rompimento de acordos
internacionais e uso explícito de instrumentos econômicos e do seu poderio
militar como alavancas de projeção de poder no mundo. A intervenção na
Venezuela e a tentativa de reordenar o mercado global de energia sob tutela
norte-americana são prova disso. Para países como o Brasil, isso cria um
ambiente de pressão permanente: aceitar as regras impostas por Washington ou
arcar com custos comerciais, financeiros e políticos. O mais difícil é
encontrar um ponto de equilíbrio entre uma coisa e outra.
O novo ciclo na política mundial frustra a esperança
de que a revolução tecnológica e o advento das redes sociais representariam um
avanço irreversível da ordem democrática; ao contrário, constata-se forte
pressão autoritária sobre as democracias representativas em razão da velocidade
da modernização, ainda mais acelerada pela inteligência artificial, em
contradição com lentidão da tomada de decisões nos Estados democráticos.
São linhas de força estruturalmente
estratégicas dessas mudanças, mas com uma lógica regressiva: o uso da
tecnologia e do poderio militar para impor escolhas estratégicas aos demais
países, o que já resultou em duas guerras mundiais no século passado. É nesse
contexto, por exemplo, que as relações do Brasil com o mundo serão
redesenhadas.
A China consolidou-se como o principal
parceiro comercial do Brasil, absorvendo grande parte das exportações
brasileiras, sobretudo de commodities agrícolas e minerais. Essa relação
tornou-se tão intensa que gerou dependências e aprofundou contradições entre os
interesses do nosso agronegócio e da nossa indústria, cujo principal mercado
são os Estados Unidos, agora fechado devido às tarifas imposta por Trump aos
nossos produtos de maior valor agregado. A concentração excessiva das
exportações em um único mercado limita a capacidade de barganha do país e
aumenta sua exposição a choques externos, disputas comerciais ou mudanças de
orientação política.
É justamente nesse ponto que o acordo
Mercosul-União Europeia se torna um ativo geopolítico novo e estratégico. Ao
abrir acesso preferencial a um mercado de mais de 700 milhões de consumidores,
o Brasil diversifica destinos de exportação, reduz vulnerabilidades e fortalece
sua posição negociadora; embora haja muitas restrições às commodities agrícolas
brasileiras por parte da França, Holanda e Polônia, que votaram contra a
aprovação do acordo, serão grandes os benefícios para a agricultura e a
indústria brasileiras.
Ligações profundas
Sem depender excessivamente de um único
parceiro — seja Washington ou Pequim —, o país passa a operar com um leque mais
amplo de opções, condição essencial para preservar autonomia em um mundo que
caminha para a divisão em áreas de influência. Os EUA querem controlar todo o
Hemisfério Ocidental, a China avançou pelos Mares do Sul em direção à África e
à América Latina; a Rússia continua sendo o fiel da balança estratégico-militar
na Eurásia. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), fundamental
para a defesa da Ucrânia na guerra com a Rússia, está sendo desprestigiada por
Trump.
Do ponto de vista da relação com os Estados
Unidos, o acordo com a UE funciona como contrapeso oportuno e muito importante.
Permite ao Brasil resistir a acordos bilaterais assimétricos, sob pressão
política ou econômica, sobretudo em relação aos produtos industrializados. A
inserção em um grande bloco econômico baseado em regras, previsibilidade e
instituições, aumenta nossa capacidade de resistência em temas comerciais,
ambientais ou regulatórios. Não se trata de confronto, mas de equilíbrio:
quanto maior a capacidade de diversificação, menor a vulnerabilidade à coerção.
O acordo com a UE não substitui a parceria
sino-brasileira, mas também recalibra a relação com a China. Ao ampliar o
acesso a mercados europeus, o Brasil reduz a concentração de suas exportações e
ganha maior capacidade de negociar termos, investimentos e cooperação
tecnológica com Pequim. A diversificação não enfraquece a relação com a China;
abre a possibilidade de torná-la mais sustentável e menos assimétrica.
Para o Brasil, um Mercosul mais integrado e
com acesso privilegiado à Europa reforça sua condição de ator relevante e
dificulta as tentativas de fragmentação política e econômica da região. Sem
dúvida, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva colhe uma grande vitória ao
enfatizar o caráter multilateral do acordo Mercosul-União Europeia como
resposta ao protecionismo e ao unilateralismo. Não se trata de uma escolha
ideológica, é uma aposta pragmática. Do ponto de vista cultural, o Brasil está
profundamente ligado à Europa, apesar da forte influência “americanista” na
nossa economia e nos padrões de consumo.

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