O Globo
Acordo Mercosul-União Europeia dá sinal de
que o mundo pode escapar do destino que Trump aponta com diplomacia, comércio e
cooperação
No meio da tensa reunião em Brasília no sábado, dia 2, para discutir a invasão da Venezuela por Donald Trump, alguém perguntou: “E o Putin?.” Outra autoridade respondeu: “Ah, foi sequestrar o Zelensky.” Era uma tentativa de descontrair, mas também apontava para um dos efeitos colaterais da operação de Trump, a ideia de que, se um país é mais forte, não precisa respeitar a integridade territorial de outros estados nacionais. A liberdade de invadir países alegando a própria segurança libera Putin de condenação, e dá um salvo conduto para a China em relação a Taiwan. A investida, por enquanto apenas retórica, de Trump sobre a Groenlândia traz de volta lembranças sombrias da guerra dos mundos, que terminou em 1945.
Na sexta-feira, em Bruxelas, o
Conselho Europeu aprovou o fechamento do acordo com o Mercosul.
O que tem isso a ver com Trump e seu expansionismo? Tudo. A barbárie comercial
integra a terra sem lei que o presidente americano quer instalar no planeta.
Ele mostrou isso, no ano passado, quando declarou guerra tarifária contra o
mundo, e nós envolvidos. Muito envolvidos, na verdade, porque recebemos umas
das maiores tarifas e a exigência mais descabida de todas. Ao fim venceu a
diplomacia brasileira. Nem todas as sobretaxas foram retiradas, mas o Brasil
terminou o ano com recorde de exportação e recuos importantes de Trump. O
acordo Mercosul-União
Europeia vai no sentido oposto ao unilateralismo americano.
A união dos dois blocos precisará da
ratificação do Parlamento Europeu e dos Congressos nacionais do Mercosul.
A França promete
continuar o combate. Nenhuma surpresa. A presidência enfraquecida de Emmanuel
Macron precisa dar uma satisfação aos agricultores que estão nas ruas
com seus tratores. A França sempre foi contra a abertura do comércio agrícola,
mas muitas concessões foram feitas a ela e nada foi considerado suficiente.
Votaram contra além da França, Hungria, Polônia, Áustria e Irlanda. A Bélgica se
absteve. Tudo somado não foi voto bastante para interromper o acordo. A
Alemanha, mais liberal dos europeus, comemorou. Se ratificado pelo Parlamento
Europeu entra em vigor no país que também o aprovar no Mercosul. No Brasil, a
oposição quando governava negociou o acordo e era a favor. Se agora for contra
será deslavado oportunismo eleitoral.
É esclarecedora a afirmação de Trump ao
jornal "The New York Times” de que não precisa de direito internacional e
que o único limite para ele é sua própria moral. Mostra o quão nefasto ele é.
Não apenas é um mau governante, mas um perigo para a ordem internacional. A
Casa Branca, na semana passada, usou a palavra “vital” para se referir à
importância de os Estados Unidos terem
a Groenlândia. “Espaço vital” era a definição de Adolf Hitler para justificar
suas invasões de países e anexação de territórios.
A era Trump é a do imperialismo nu e cru. Ele
nem tenta dourar a pílula. É tão caricato que tem sido farto material para os
humoristas. Jon Stewart, do “The Daily Show”, proporcionou muitas risadas, na
semana passada, com sua desesperada tentativa de levar Trump a dizer que havia
um motivo nobre para invadir a Venezuela. O presidente americano sempre
responde que é pelo petróleo. Não alega que é por algum dos grandes valores —
liberdade, autodeterminação dos povos — que os Estados Unidos diziam encarnar.
Os presidentes Lula, Claudia
Sheinbaum e Gustavo
Petro andaram conversando. O que eles podem contra o poder do
“império”? Em termos de força militar, nada. Mas não se desiste da diplomacia,
mesmo diante do pior dos brutamontes.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von
der Leyen, anunciou na sexta que estava embarcando para o Paraguai para assinar
o acordo União Europeia-Mercosul, criando a maior zona de livre comércio do mundo,
e completou: “A Europa está dando um sinal forte.”
Com diplomacia, comércio e cooperação o mundo
poderá remar na direção contrária da barbárie que Trump nos aponta como
destino. Diferentemente do que disse, ele não é o único que pode detê-lo. O
povo americano pode, nas eleições de meio de mandato, as instituições
americanas, a união entre países que queiram defender uma nova ordem mais
cooperativa. Ao poderio bélico americano, nada se contrapõe, mas a civilização
nunca avançou a partir da força bruta. O mundo vai encontrar a forma de superar
a insensata decisão do eleitor americano.

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