domingo, 11 de janeiro de 2026

Ano eleitoral começa com juros altos e PIB fraco. Por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Tanto para o governo quanto para o setor privado, o custo do capital se mantém como importante obstáculo ao investimento produtivo

Maior potência industrial da América Latina e do Hemisfério Sul, o Brasil completou mais um ano de crescimento econômico puxado pelo agronegócio, o setor mais dinâmico no último quarto de século. Até o terceiro trimestre, o Produto Interno Bruto (PIB) superou por 2,4% o resultado de um ano antes. O agro produziu 11,6% mais do que no período anterior, enquanto os serviços avançaram 1,8%, liderando a oferta de empregos e a produção industrial aumentou 1,7%, mantendo o padrão discreto da última década.

Esse padrão persistiu nos dois meses seguintes, com crescimento setorial de 0,1% em outubro e nulo em novembro. No penúltimo mês do ano, a produção superou por 2,4% o nível pré-pandemia, de fevereiro de 2020, mas ainda ficou 14,8% abaixo do pico alcançado em maio de 2011. Os otimistas, no entanto, podem achar notícias positivas na execução do programa Nova Indústria Brasil, conduzido pelo vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Geraldo Alckmin. Segundo informações oficiais, entre 2023 e 2025, foram destinados a esse programa R$ 588,4 bilhões, para aplicação em máquinas, equipamentos, processos e instalações industriais.

A sustentação do crescimento depende, no entanto, do capital investido pelos setores público e privado, de forma continuada, em bens de produção, incluída a infraestrutura. O valor desse investimento permanece, como na maior parte do último quarto de século, na vizinhança de 18% do PIB. No terceiro trimestre de 2025, a taxa ficou em 17,3%. Nos anos 2000, em alguns períodos, o total aplicado em meios físicos de produção superou a taxa de 20%, igualando níveis observados em outros emergentes, mas logo recuou.

No caso do setor privado, a decisão de investir depende do custo do capital, sintetizado na taxa de juros, e também da segurança institucional e da previsibilidade das condições econômicas. No caso do governo, o investimento nas condições de produção, incluídas a expansão e a modernização da infraestrutura, é condicionado, em primeiro lugar, pela gestão das finanças públicas, mas envolve também a eficiência rotineira da administração e o planejamento de médio e longo prazos.

A contenção e o melhoramento dos gastos de custeio, isto é, das despesas com pessoal e com as atividades de rotina, são óbvia condição para o uso mais produtivo do dinheiro público. Tanto quanto possível, o governante deve planejar seus investimentos sem depender de um maior peso da tributação no conjunto da atividade econômica. No Brasil, assim como em países de características semelhantes, uma distribuição mais equitativa é alcançável, em princípio, sem esse aumento, frequentemente nocivo à atividade.

Tanto para o governo quanto para o setor privado, o custo do capital se mantém como importante obstáculo ao investimento produtivo. Com juros básicos de 15% ao ano, o dinheiro continua muito caro para a aplicação em máquinas, equipamentos e outros meios de produção. Esse custo parece até estranho, quando se observa uma inflação na faixa de 4% a 5%. Mas a persistência dessa inflação, muito distante da meta central, 3%, e muito próxima do teto da meta, 4,5%, tem dificultado o afrouxamento da política monetária. Seria muito inconveniente, admitem especialistas, iniciar a redução da taxa de referência e logo depois interromper e talvez inverter o processo. Essa insegurança foi apontada várias vezes por dirigentes do Banco Central (BC), em seus comunicados oficiais. Brasileiros maduros podem recordar e contar experiências desse tipo, de redução do custo do dinheiro e de retorno ao aperto.

A cautela da autoridade monetária, talvez excessiva, segundo alguns, tem sido explicada e justificada por dirigentes do BC com base na insegurança quanto à evolução das contas públicas. Essa insegurança teve destaque em comunicados emitidos depois das últimas decisões sobre a política de juros.

Essa orientação contrasta, obviamente, com as pretensões do governo de intensificar o crescimento econômico e de aumentar o potencial produtivo. Mas o BC, como têm lembrado vários analistas, cumpre sua função de zelar pela moeda. Desagradar ao governo, nesse caso, pode ser um mérito.

O presidente Lula tem evitado brigar com os condutores da política de crédito. Ensaiou um conflito, no começo do mandato, mas desistiu e agora se restringe a alguma lamentação. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já se aventurou em críticas à ação do Comitê de Política Monetária (Copom), mas tem evitado confrontos sérios. Ex-funcionário da Fazenda e indicado por Lula à presidência do BC, Gabriel Galípolo mostra-se diplomático e tem conseguido equilibrar o bom relacionamento com o governo e o seu papel na política de juros.

Candidato à reeleição, o presidente da República pode ter interesse especial numa aceleração do crescimento, mas até agora sem um concorrente importante, deve sentir-se menos pressionado a esquentar a atividade. Pelas estatísticas tradicionais, as condições do emprego melhoraram em 2025. A economia, no entanto, dá sinais de menor impulso. Uma reação apressada poderá ser custosa. 

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