Folha de S. Paulo
Assessor de Donald Trump diz que poderio
militar permite aos EUA fazerem o que quiserem
História mostra que força é relevante, mas é
modulada por outros fatores, inclusive ideias
Stephen
Miller, o cérebro por trás da política externa de Donald Trump,
diz que os Estados
Unidos podem fazer o que quiserem porque são mais fortes que os outros
países, e a força, assevera o assessor presidencial, "é a lei de ferro do
mundo desde o começo dos tempos".
Miller não está totalmente errado. Não dá para fingir que poder militar não
importa. Mesmo nos anos de ouro da ordem liberal baseada em regras universais,
superpotências podiam mais do que a República de Nauru, por exemplo. O
multilateralismo não impediu os EUA de
invadirem o Iraque sob falsos pretextos em 2003.
Mas Miller também não está totalmente certo.
Vivemos num mundo complexo, em que o poder obviamente tem relevância, mas não
atua sozinho. Ele interage com vários outros elementos que o modulam. E, nesse
mundo, ideias importam. Tomemos o caso do abolicionismo.
Ele surgiu como uma ideia exótica, defendida por filósofos iluministas e grupos
religiosos marginais, como os quakers. As denominações cristãs mais
"mainstream" permaneciam resolutamente favoráveis à escravidão,
que, afinal, é sancionada pela Bíblia.
Demorou um par de séculos, mas a ideia do abolicionismo, que fez suas primeiras
aparições como um sonho de poetas, fincou raízes e se tornou um consenso moral.
Hoje, acho que nem nas franjas da deepweb encontramos grupos que defendam a
volta da escravidão.
Algo parecido, ainda que em outra escala, vale para a ideia de que a guerra não
é uma forma legítima de países resolverem suas diferenças. Já comentei aqui,
alguns anos atrás, o livro "The Internationalists", de Oona Hathaway
e Scott Shapiro, que conta essa história. A ideia surgiu, no século 17, com
Hugo Grotius, também como um sonho, mas foi pouco a pouco fazendo entradas no
Direito Internacional, que, se não foi capaz de acabar com as guerras, logrou
reduzi-las e discipliná-las.
Vladimir
Putin e Trump destruíram a ordem internacional como a conhecíamos, mas
a ideia de que guerras não são uma forma legítima de fazer política continua
viva.
Ainda bem que temos poetas.
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