É impossível, para o historiador
contemporâneo, não se remeter a Tucídides ao acompanhar a política exterior do
atual presidente norte-americano Donald Trump, baseada explicitamente na lei do
mais forte. As semelhanças são tão grandes que assim como Atenas sitiou com sua
força naval a ilha de Mélos, para obrigar seus habitantes a abandonar a
neutralidade e aderir à guerra contra Esparta, também Trump realizou um
bloqueio naval à Venezuela, seguida de intervenção armada e sequestro do
ditador Maduro para conter a influência chinesa. Parece dessa forma que, passados
2500 anos desde a guerra que abalou o mundo helênico, a mesma lógica segue
regendo os assuntos mundiais contemporâneos: os fortes seguem fazendo o que
podem e os fracos continuam sofrendo o que devem.
Aspirações de solidariedade entre os povos baseada
em uma suposta tendência internacionalista dos trabalhadores, ou um mundo
pacífico de estados republicanos federados, tal como imaginado no ensaio “A Paz
Perpétua”, de Immanuel Kant, revelaram-se incapazes de explicar uma ordem
internacional baseada na dominação de alguns países sobre outros, conflitos
armados e disputas entre diversas potências pela hegemonia mundial.
Será
então que o que nos restou, como instrumento de análise das relações
internacionais, é a própria visão de Tucídides, ponto de partida para uma das
correntes mais influentes no estudo das relações internacionais, a chamada
escola realista? Segundo os realistas, na
ausência de um leviatã mundial que molde o comportamento dos países – e nem a
ONU nem qualquer outra organização internacional detêm esse poder – cada estado-nação
tem que buscar seu lugar ao sol em um mundo hobbesiano potencialmente hostil, através
do fortalecimento de seu poder, principalmente econômico e militar.
Se essa visão reflete a realidade mundial,
como explicar então que o planeta ainda não tenha degenerado em barbárie
generalizada? Isso não ocorreu porque, reza o realismo, os países tendem a
formar alianças para contrabalançar seus adversários mais poderosos, formando dessa
forma um “equilíbrio de poder” que acaba por nivelar as partes antagônicas,
evitando assim que o sistema internacional entre em colapso.
Para os realistas, o que ocorre no plano
doméstico dos países – se são democracias ou autocracias, comunistas ou
capitalistas – tem pouca influência na ordem internacional. O decisivo é a
pressão que um mundo sem governo central exerce sobre os países, obrigando-os a
adotar a realpolitik. Foi o que aconteceu na segunda guerra mundial, quando um líder
político reacionário e anticomunista como Winston Churchill selou uma aliança
com Stalin porque a Inglaterra e a União Soviética estavam enfrentando a mesma ameaça
de um novo desafiante da ordem mundial, a Alemanha nazista. Da mesma forma, o
secretário de Estado norte-americano durante o governo Nixon, Henry Kissinger, aproximou
os Estados Unidos da China maoísta, em 1972, porque ambos países, de ideologias
radicalmente diferentes, naquele então estavam interessados em conter a União
Soviética. Em todos esses casos e muitos outros, não houve traição de ideais, mas
simplesmente a necessidade de recorrer à realpolitik para defender a soberania
e os interesses de cada país.
Mas se a ausência de um governo mundial força
os países a deixar de lado suas ideologias e valores, e agir conforme a realpolitik,
como explicar as mudanças sofridas no equilíbrio de poder ao longo do tempo? Houve um período de equilíbrio de poder multipolar
até fins da segunda guerra mundial, com algumas potências europeias exercendo a
hegemonia mundial, seguido pelo equilíbrio bipolar entre Estados Unidos e União
Soviética até o colapso desta última em 1991, o que desencadeou um novo
rearranjo ainda em curso no equilíbrio de poder atual.
Alguém já disse que toda política exterior se
inicia em casa, e pode estar aí a explicação para as mudanças no sistema
internacional: a dimensão doméstica, tão negligenciada pela tradição realista.
É impossível compreender quando se forma uma nova configuração de poder – com
novos atores exercendo papel hegemônico enquanto outros experimentam sua
influência diminuir – , se não se levar em conta as opções tomadas em política
exterior pelos países, já que a realpolitik e o pragmatismo podem assumir
muitas formas, dependendo, para seu êxito, da habilidade dos governantes em
promover os recursos que têm a seu dispor e projetá-los ao nível mundial.
Diplomacia também é arte.
A China talvez seja o melhor e mais recente
exemplo da importância de políticas domésticas para a projeção de um país no
plano internacional. A partir das
reformas iniciadas em 1978 por Deng Xiaoping, que abarcaram desde a agricultura,
indústria, ensino até o setor de tecnologia e ciência, com a gradual entrada de
capital estrangeiro e privatizações, a China em poucas décadas transformou-se
de um país pobre e camponês em uma superpotência mundial. A influência da China
já se faz presente em todas as regiões do planeta e em todos os setores da
economia, desafiando a hegemonia norte-americana.
Como na guerra do Peloponeso, os Estados
Unidos reagem de forma semelhante a Atenas. Sucessivos governos republicanos e
democratas constatam perplexos o declínio norte-americano – sua economia
invadida por produtos chineses, seus empresários movendo os negócios para a
China, e o país asiático atraindo cada vez mais antigos aliados
norte-americanos, seja através de empréstimos generosos ou parceria no projeto
Iniciativa Cinturão e Rota (a nova rota da seda).
Alguns analistas mostram-se perplexos com o
desprezo que a administração Trump tem demonstrado em relação à arquitetura
internacional e o vasto leque de alianças construído após a segunda guerra
mundial, fatores que vinham garantindo até aqui a prosperidade e a hegemonia
global norte-americanas. Mas é que na percepção de Trump e do seu projeto MAGA
(Make America Great Again), todas essas instituições internacionais, e a
própria ideia de multilateralismo, são as principais causas do declínio do
país, pois obrigava os EUA a destinar enormes despesas militares para garantir
a segurança da Europa, tarifas generosas de importação, ajuda econômica a
países pobres, etc. Segundo essa ótica, os custos de manter o multilateralismo
passaram a exceder seus ganhos.
É como se o espírito de Tucídides estivesse
atormentando as mentes dos dirigentes norte-americanos, sugerindo que se a hora
de reação demorar, vai ser tarde demais para deter esta nova Esparta asiática. Daí
a guinada trumpista em direção a uma política imperialista agressiva do “America
first”, sem disfarces retóricos. Igual a um tigre enjaulado, desfere golpes
enfurecidos por todos os lados – tarifaços contra dezenas de países, abandono
de antigos aliados, ameaças de invasão e tomada de território e recursos de
outros países, etc. É pouco provável que uma política exterior assim traga
êxitos, mas o futuro dirá. De qualquer forma, tudo indica que o atual
equilíbrio de poder está se reconfigurando em áreas de influência entre China,
Estados Unidos e Rússia (esta última talvez limitada à área do antigo império
soviético).
Nesse contexto de instabilidade, o Brasil,
que se encontra dentro da área de influência norte-americana escolhida por
Trump – o “hemisfério ocidental” –, terá que navegar pelas águas turbulentas da
nova doutrina Monroe: América para os americanos (do norte, excluindo o
Canadá). Se é certo que o Itamaraty tem uma longa tradição de pragmatismo, esta
prática algumas vezes é esquecida por interferências ideológicas. Durante o
governo Bolsonaro, um anticomunismo primário levou o país a hostilizar seu
maior parceiro comercial, a China, e alinhar-se de forma submissa ao governo
Trump. Mesmo fora do poder, o bolsonarismo, demostrando toda sua boçalidade
através de governadores e congressistas, continua atuando como uma
quinta-coluna do trumpismo.
Já o presidente Lula, goste-se ou não dele,
tem perfil de estadista, sabe ser pragmático, como comprovou nas negociações
com Trump sobre as tarifas impostas ao Brasil, e possui larga experiência em
relacionar-se com outros chefes de Estado. Ainda assim, não está isento de
cometer deslizes ideológicos, principalmente quando tenta agradar seu público
interno. Talvez o maior problema de sua política externa seja uma certa falta
de universalidade. Acerta em condenar agressões de países como os EUA ou
Israel, mas esquiva-se de criticar agressões como a invasão da Ucrânia pela Rússia,
ou a repressão do governo teocrático do Irã. Teve também uma atitude tímida
quando Maduro – ironia das ironias – ameaçava tomar grande parte do território
e do petróleo da vizinha Guiana. Só adotou uma postura mais firme contra a
ditadura bolivariana quando esta fraudou descaradamente as eleições do ano
passado. Mas essas ressalvas à parte, o Brasil possui todos os elementos
necessários – democracia firme, instituições sólidas, prestígio internacional e
experiência diplomática para atravessar a tempestade trumpista.
*Paulo César Nascimento, professor de Ciência
Política da Universidade de Brasília

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