O Estado de S. Paulo
Se ataca os Brics e desdenha a Europa, Trump ficará indiferente ao acordo Mercosul-UE?
Depois de invadir a Venezuela e plantar a
bandeira dos Estados Unidos não num país, mas na América Latina, como
advertência e símbolo de dominação, Donald Trump dá passos concretos para a
ocupação da Groenlândia, confrontando o poder e a influência da Europa,
justamente quando o acordo de livre-comércio da União Europeia com o Mercosul,
o maior do mundo, se materializa.
Em sua megalomania, Trump negocia com quem tem tamanho e musculatura para enfrentar os EUA, como a China, mas usa a força do império para intimidar e subjugar o resto do mundo. Com governos fracos e o avanço da extrema direita – como na Alemanha e na França, as duas maiores economias europeias –, a Europa é um alvo que, mesmo que não seja, ele considera fácil.
Se a adesão de países de diferentes
continentes e a consolidação dos Brics como plataforma de poder da China já
sacudiram os EUA e provocaram resistências de Trump, ele ficará impassível
diante do acordo do Cone Sul, no “quintal” dos EUA, com uma Europa que ele
desdenha, mas quer “comprar”?
O acordo Mercosul-UE reúne 720 milhões de
pessoas e US$ 22 trilhões, com a expectativa de zerar as tarifas do setor industrial,
por exemplo, em dez anos. Já seria extraordinária do ponto de vista econômico,
mas é igualmente sob o político. Acordos econômicos são sobre lastros
históricos e consolidam alianças políticas.
Foram 25 anos de negociações, idas e vindas e
a assinatura do acordo de intenções será no dia 17, no Paraguai, mas continuam
os protestos de setores sensíveis, especialmente da agricultura na França, e o
Parlamento Europeu, que reúne 27 países, ainda precisa votar.
No Mercosul, o acordo depende de cada país e,
nesse péssimo clima entre Executivo e Legislativo, como votarão deputados e
senadores no Brasil? Pensando nos interesses nacionais, em crescimento,
agricultura, indústria, empregos, tecnologia? Ou nas eleições de outubro e no
trunfo para Lula?
Pairando sobre tudo e todos, o fantasma de
Donald Trump ataca sem dó nem piedade o multilateralismo que os EUA desenharam
e construíram, a paz entre os países, as leis e regras internacionais e, “last
but not least”, as instituições, os princípios fundamentais e a credibilidade
da democracia americana.
O foco da Europa está no acordo com o Mercosul, mas a guerra da Rússia contra a Ucrânia avança da pior forma, a escalada de Trump para “comprar” a Groenlândia abre uma crise não só com a Dinamarca, mas com o continente e os governos perdem energia. Logo, é possível analisar como chegamos até aqui, mas impossível saber onde o mundo e o acordo com a UE vão chegar.

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