domingo, 11 de janeiro de 2026

Donald Trump versus Mercosul-EU. Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Se ataca os Brics e desdenha a Europa, Trump ficará indiferente ao acordo Mercosul-UE?

Depois de invadir a Venezuela e plantar a bandeira dos Estados Unidos não num país, mas na América Latina, como advertência e símbolo de dominação, Donald Trump dá passos concretos para a ocupação da Groenlândia, confrontando o poder e a influência da Europa, justamente quando o acordo de livre-comércio da União Europeia com o Mercosul, o maior do mundo, se materializa.

Em sua megalomania, Trump negocia com quem tem tamanho e musculatura para enfrentar os EUA, como a China, mas usa a força do império para intimidar e subjugar o resto do mundo. Com governos fracos e o avanço da extrema direita – como na Alemanha e na França, as duas maiores economias europeias –, a Europa é um alvo que, mesmo que não seja, ele considera fácil.

Se a adesão de países de diferentes continentes e a consolidação dos Brics como plataforma de poder da China já sacudiram os EUA e provocaram resistências de Trump, ele ficará impassível diante do acordo do Cone Sul, no “quintal” dos EUA, com uma Europa que ele desdenha, mas quer “comprar”?

O acordo Mercosul-UE reúne 720 milhões de pessoas e US$ 22 trilhões, com a expectativa de zerar as tarifas do setor industrial, por exemplo, em dez anos. Já seria extraordinária do ponto de vista econômico, mas é igualmente sob o político. Acordos econômicos são sobre lastros históricos e consolidam alianças políticas.

Foram 25 anos de negociações, idas e vindas e a assinatura do acordo de intenções será no dia 17, no Paraguai, mas continuam os protestos de setores sensíveis, especialmente da agricultura na França, e o Parlamento Europeu, que reúne 27 países, ainda precisa votar.

No Mercosul, o acordo depende de cada país e, nesse péssimo clima entre Executivo e Legislativo, como votarão deputados e senadores no Brasil? Pensando nos interesses nacionais, em crescimento, agricultura, indústria, empregos, tecnologia? Ou nas eleições de outubro e no trunfo para Lula?

Pairando sobre tudo e todos, o fantasma de Donald Trump ataca sem dó nem piedade o multilateralismo que os EUA desenharam e construíram, a paz entre os países, as leis e regras internacionais e, “last but not least”, as instituições, os princípios fundamentais e a credibilidade da democracia americana.

O foco da Europa está no acordo com o Mercosul, mas a guerra da Rússia contra a Ucrânia avança da pior forma, a escalada de Trump para “comprar” a Groenlândia abre uma crise não só com a Dinamarca, mas com o continente e os governos perdem energia. Logo, é possível analisar como chegamos até aqui, mas impossível saber onde o mundo e o acordo com a UE vão chegar. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.