Folha de S. Paulo
Entre países maiores do grupo, altas da moeda
e da Bolsa do Brasil são notáveis em 2026
Valorização do real ajudou a tirar Lula das
cordas em 2025; pode ajudar de novo
Algumas gotas do dinheiro grosso do
mundo achatam as
percepções de que a economia do Brasil é um risco. Ou melhor, ao
menos no curto prazo, os ativos brasileiros valem os riscos dos nossos males
crônicos e de uma eleição acirrada. O real e o
preço das ações se valorizam. Agorinha, até juros de títulos de
dívida de prazo mais longo caem.
A grande alta dos ditos mercados emergentes é notícia velha ao menos desde meados do ano passado. No caso das Bolsas, foi a maior desde 2009, na medida do índice MSCI de mercados emergentes, que acompanha o preço de ações em 24 países, Brasil inclusive.
Neste 2026, o Brasil tem se destacado nessa
disparada do rebanho, em que Coreia do Sul e Taiwan também
disputam a ponta, entre mercados maiores. Mas os dois países estão no trem bala
da inteligência
artificial e, de quebra, a Coreia do Sul reforma seu velho
capitalismo de compadres.
O que aconteceu na economia do
Brasil, mui recentemente? Nada.
No ano passado, graças ao dólar fraco
de Donald Trump,
a juros brutais do Banco Central, à safra forte e aos produtos chineses
baratos, a inflação não ficou descabelada. Apesar do arrocho do BC, a
desaceleração da economia foi suave e as empresas maiores não padeceram.
A economia mundial ajudou. Em vez de
embicarem para a recessão, como se temia até meados de 2025, os Estados
Unidos devem ter crescido bem, perto de 2%, assim como a China.
Mundo crescendo em ritmo decente, embora periclitante, e dólar barato dão uma
forcinha para as commodities, que pagam nossas contas externas e sustentam
investimentos na produção.
Difícil saber o motivo da euforia
recentíssima. Mais importante agora é notar, primeiro, que as gotas do dinheiro
grosso que caíram por aqui por ora abafam os chiliques sobre "risco
político" (de derrota da direita na eleição), por exemplo.
Anestesiam o problema fiscal, risco
invisível, mas previsível, de infarto ou ponte de safena para alguém que se
entope de torresmo, manteiga ou "terrines" —o Brasil.
Segundo, o real mais forte tem peso político.
Ajudou a tirar o governo Lula das cordas em meados de 2025, pois contribuiu
para derrubar a inflação e preços de alimentos, por exemplo. Pode ajudar de
novo.
A maioria dos bancões diz que a onda
emergente continuaria em 2026. A política volátil de Trump faz com que donos do
dinheiro grosso procurem proteção —outros países ou hedge mesmo, que já derruba
um tanto o dólar. O fato de as ações americanas estarem caras e que o grosso da
valorização dependa de inteligência artificial, direta ou indiretamente, talvez
incentive alguma diversificação.
China, Taiwan e Coreia do Sul têm peso de 62%
no índice de ações emergentes MSCI. Crescem bem e estão integrados na revolução
tecnológica da IA, por fabricarem e exportarem chips e por produzirem
equipamentos da infraestrutura digital.
Só a gigante de chips de Taiwan, a TSMC, tem
peso de 11,88% no MSCI (as ações do Brasil, 4,32%). Alguns emergentes
controlaram a inflação; tratam melhor as contas públicas que países
"desenvolvidos" (ricos maiores). Reformam o ambiente de negócios.
Passaram a pagar mais dividendos. Não é a história do Brasil, mas o Brasil se
move.
Vai durar? Trump não explodiu a economia dos
EUA e recua quando leva gritos dos mercados financeiros. Uma crise financeira,
o fim da hipotética bolha de IA, por exemplo, acaba com essa alegria, claro.
Uma guerra grande também. No mais, um ano de terror político começou azul para
a economia do Brasil.
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