quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Brasil passa a se destacar na onda de euforia com 'mercados emergentes'. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Entre países maiores do grupo, altas da moeda e da Bolsa do Brasil são notáveis em 2026

Valorização do real ajudou a tirar Lula das cordas em 2025; pode ajudar de novo

Algumas gotas do dinheiro grosso do mundo achatam as percepções de que a economia do Brasil é um risco. Ou melhor, ao menos no curto prazo, os ativos brasileiros valem os riscos dos nossos males crônicos e de uma eleição acirrada. O real e o preço das ações se valorizam. Agorinha, até juros de títulos de dívida de prazo mais longo caem.

A grande alta dos ditos mercados emergentes é notícia velha ao menos desde meados do ano passado. No caso das Bolsas, foi a maior desde 2009, na medida do índice MSCI de mercados emergentes, que acompanha o preço de ações em 24 países, Brasil inclusive.

Neste 2026, o Brasil tem se destacado nessa disparada do rebanho, em que Coreia do Sul e Taiwan também disputam a ponta, entre mercados maiores. Mas os dois países estão no trem bala da inteligência artificial e, de quebra, a Coreia do Sul reforma seu velho capitalismo de compadres.

O que aconteceu na economia do Brasil, mui recentemente? Nada.

No ano passado, graças ao dólar fraco de Donald Trump, a juros brutais do Banco Central, à safra forte e aos produtos chineses baratos, a inflação não ficou descabelada. Apesar do arrocho do BC, a desaceleração da economia foi suave e as empresas maiores não padeceram.

A economia mundial ajudou. Em vez de embicarem para a recessão, como se temia até meados de 2025, os Estados Unidos devem ter crescido bem, perto de 2%, assim como a China. Mundo crescendo em ritmo decente, embora periclitante, e dólar barato dão uma forcinha para as commodities, que pagam nossas contas externas e sustentam investimentos na produção.

Difícil saber o motivo da euforia recentíssima. Mais importante agora é notar, primeiro, que as gotas do dinheiro grosso que caíram por aqui por ora abafam os chiliques sobre "risco político" (de derrota da direita na eleição), por exemplo.

Anestesiam o problema fiscal, risco invisível, mas previsível, de infarto ou ponte de safena para alguém que se entope de torresmo, manteiga ou "terrines" —o Brasil.

Segundo, o real mais forte tem peso político. Ajudou a tirar o governo Lula das cordas em meados de 2025, pois contribuiu para derrubar a inflação e preços de alimentos, por exemplo. Pode ajudar de novo.

A maioria dos bancões diz que a onda emergente continuaria em 2026. A política volátil de Trump faz com que donos do dinheiro grosso procurem proteção —outros países ou hedge mesmo, que já derruba um tanto o dólar. O fato de as ações americanas estarem caras e que o grosso da valorização dependa de inteligência artificial, direta ou indiretamente, talvez incentive alguma diversificação.

China, Taiwan e Coreia do Sul têm peso de 62% no índice de ações emergentes MSCI. Crescem bem e estão integrados na revolução tecnológica da IA, por fabricarem e exportarem chips e por produzirem equipamentos da infraestrutura digital.

Só a gigante de chips de Taiwan, a TSMC, tem peso de 11,88% no MSCI (as ações do Brasil, 4,32%). Alguns emergentes controlaram a inflação; tratam melhor as contas públicas que países "desenvolvidos" (ricos maiores). Reformam o ambiente de negócios. Passaram a pagar mais dividendos. Não é a história do Brasil, mas o Brasil se move.

Vai durar? Trump não explodiu a economia dos EUA e recua quando leva gritos dos mercados financeiros. Uma crise financeira, o fim da hipotética bolha de IA, por exemplo, acaba com essa alegria, claro. Uma guerra grande também. No mais, um ano de terror político começou azul para a economia do Brasil.

 

Nenhum comentário: